Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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X 
 
AMOR 
 
 
É este Cristo imaterial, interior, vivente e presente que eu sinto, respiro, vivo, que penetra e 
se identifica comigo. Se a sensação de Deus se alcança essencialmente através da mente, a 
sensação de Cristo se toca essencialmente através do coração. A síntese de concepção se 
transforma e completa em uma síntese de sentimento. O aspecto cósmico do Deus-princípio se 
multiplica e se dá no seu segundo aspecto de Deus-amor, o Cristo místico. Tenho, portanto,
 
que 
abandonar a linguagem da razão por uma outra muito mais difícil \u2014 a linguagem do amor. Só os 
que amadureceram poderão compreender-me. 
 
E este Cristo a forma em que a Divindade se humaniza para se aproximar de mim. O 
acesso se faz pelo caminho do amor. E este o incendiado aerólito gigantesco que ia descrevi. E 
Cristo chega e eu O recebo, não através da razão, da autoridade ou da História, mas Ele desce 
diretamente na minha sensação, inviolável realidade interior onde a vontade humana não atua. 
Esta é uma conquista minha, como pode ser de todos, que o mundo exterior não pode desfazer é 
uma realidade que ele não pode expulsar de minha alma. 
 
Não se pode compreender Cristo, aproximando-se d'Ele com ânimo de historiador, de 
exegeta, de crítico erudito e sábio. Isto pertence ao exterior e fica de fora. É preciso aproximar-se 
com ânimo amoroso, porque só a quem ama são concedidas certas compressões íntimas e 
profundas: porque o amor é o caminho único da compreensão. É ele a força tremenda que 
levou a Divindade à humanização. Realmente, o Evangelho, mais que o livro da sabedoria, quer 
ser o livro do amor. 
 
Assim me aparece a figura interior de Cristo. Caem os véus do mistério e a Paixão aparece 
em sua essência. Sob a vida histórica e humana de Cristo surge uma vida mais profunda e real,
 
a 
qual, e só ela, contém significados interiores e substanciais. Somente revivendo-a assim em 
profundidade sente-se, a cada passo, o divino irromper,
 
irresistível e cegante através do véu da 
forma. Tenho agora a sensação do apocalíptico desenvolvimento de forças cósmicas que aquela 
 
outros estados de espírito, especialmente no volume: Deus e Universo (cfr. XIV - "A Essência do 
Cristo"). (N. do A.) 
V.. nota de rodapé n9 1, no cap. XVII da I Parte deste volume. (N. do T.) 
 
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vida contém, entretecido numa sinfonia grandiosa, na qual ecoa e se completa o desenvolvimento 
espiritual da humanidade. Somente neste sentido poderei talvez escrever, se tiver forças e se for 
digno \u2014 uma vida de Cristo, primeiramente lida por minha alma na profundeza do coração por 
força do amor. 
 
Cristo me aparece assim como um trovão que ouço, saindo da noite dos tempos e ecoando 
de século em século, como uma força progredindo em passo gigantesco através da História do 
mundo. Cristo é o fulcro do dinamismo das ascensões humanas, é a voz imensa do espírito que 
tudo arrasta em sua força, é o traçado do cansativo caminho da vida, é a fecundação divina do 
humano para o divinizar. Através do amor me aparece o vulto divino de Cristo. Sua forma 
histórica é um átimo, um lampejo, fechado no tempo. Sua realidade é eterna e contém o gesto de 
Deus que volta as páginas da criação e da evolução do universo. A força deste gesto esta dentro 
da História; sustém-na, guia-a, eleva-a. O mundo despenca e aquela força toma-o e levanta-o; os 
destinos dos povos periclitam e aquela força salva-os. 
 
Cristo é o Verbo humanizado que se funde às longas vicissitudes humanas. E o Verbo que 
o tempo que morre diz ao tempo que nasce, que o ritmo universal transmite e repete,
 
a concepção 
onde nascem e morrem os milênios, despontam e somem povos e civilizações. 
 
Esta força divina que com tanto ímpeto explodia na Gênese mosaica desce de suas alturas e 
vem de encontro ao homem. O gesto criador de Deus se adoça em Cristo num amplexo de amor. 
O mistério da redenção é mistério de amor. A força infinita e trovejante do Deus dos Exércitos 
assume manifestação mais profunda, se adoça em modulação mais íntima e consegue o milagre 
inaudito de saber restringir-se na suavidade de um humilde abraço. Em Cristo, Deus deseja 
descer de Seu trono de glória, alto e longínquo, grande e terrível, e se aproxima para penetrar 
profundamente no coração do homem. Neste ato sublime esconde e encobre sua força, para se 
tornar igual ao humilde e ao pobre. Deus se exprime, já não em força, mas em beleza e 
sentimento. Transmuda o terrificante lampejar do fulgor no doce canto que cinge e arrasta; o 
gesto armado da justiça no gesto brando que perdoa. Sinto esta mudança interior da divina 
Trindade para um outro aspecto: este seu remodelamento em expressão mais completa e 
complexa, para ocorrer às necessidades do tempo, para se unificar com a alma humana, para 
alcançar nela sua mais viva expressão. 
 
Sinto Cristo como uma força irradiante, tal como luz do Sol, saturando de si a nossa 
atmosfera espiritual,
 
para que cada alma a atinja, como cada planta ao Sol, segundo a sua 
capacidade de receber. É uma luz que desce,
 
generosa e imparcial, mesmo no lodo, e não se 
mancha; conduz pureza sempre renovada. E uma potência indestrutível apesar dos assaltos do 
tempo, a caducidade das formas, os obstáculos do mal. Vejo-a presente em cada momento,
 
em 
cada ser,
 
em cada povo, em cada civilização: a sua história é a História do mundo; vejo-a mudar 
e avançar com o homem, seguindo-o passo a passo, alma de sua alma; sinto-a adoçar-se à medida 
que as escórias do invólucro caem e a natureza humana, mais sensível, tem menor necessidade 
de empurrões violentos. Até que Cristo se torna na alma unida, num canto que tem a magia de 
anular a dor e realizar a redenção. Torna-se um cântico imenso e estupendo ecoando por todo o 
universo. Ouço-o agora como uma voz que vai de forma em forma e se repete de criatura em 
criatura. Que nos humildes canta a mesma música dos grandes; que não tem mais limite nem 
medida; é a sinfonia da unidade do universo. É a voz das almas grandes, é a voz das almas 
simples; é a voz do espírito abatido que na dor expia e se eleva; é o trovejar das convulsões 
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sociais que submergem e criam as civilizações; é o grito de triunfo dos mártires, é o tímido 
sorriso da florzinha humilde e inconsciente; é o primeiro vagido de uma vida e de um destino \u2014 
é o reclinar-se esgotado na morte, alvorada de ressurreição. 
 
Cristo! Tu és a bondade que acaricia, o amor que inflama, a luz que guia. Es também a 
prova que me cabe, para meu bem, a dor que me liberta, a morte que me restitui a vida. Tudo Tu 
és, ó Deus! Seja por meio da alegria, do amor, da dor \u2014 é sempre a Tua mão que me guia para a 
única meta, que és Tu. Que animes ou castigues, que acaricies ou punas, sempre atrais tudo a Ti, 
como suprema razão de vida. Agora cheguei à suprema violência, que supera os raios do Sinai, a 
violência do amor. Ela me busca o coração, para arrancá-lo e ficar em seu lugar. Então, a alma 
chegou ao porto, atingiu a meta. Na fuga dos tempos, Cristo venceu. 
 
Antes da vinda de Cristo, Deus era uma lei justa e severa que o homem adorava de longe; 
era o comando que exigia obediência, incutindo temor. Exprimia-se como força que não