Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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a ser escrito no grande livro da vida e 
inicia uma nova página: a página do amor. Uma nova síntese floresce do trabalho dos milênios, 
uma nova clarinada,
 
emergindo da profundidade dos tempos, chama à colheita, no curso das 
civilizações instáveis e inquietas, a vida deslocada de seu eixo e muda o centro das atrações 
humanas. Os egoísmos se abrem, as consciências se dilatam, o irmanamento começa, a voz de 
Cristo ressoa de coração em coração num canto único que se funde e se eleva, respondendo à 
glória dos céus. O mundo inicia uma poderosa marcha para a realização do Reino de Deus, que 
não é dádiva gratuita à inércia humana, mas laboriosa conquista feita sob a inspiração de Cristo; 
a ascensão não é o cômodo desfrutar de méritos divinos, mas fusão humana em Sua paixão. 
 
Caminha, caminha. Inicia-se o grande movimento. Cristo vai à frente,
 
diante de todos, 
com o exemplo de Sua dor e de Seu amor, da cruz e da paixão uma luz que avança deixando 
atrás de si um rasto de esplendor. Por esta estrada luminosa o mundo caminha e segue. Cristo é 
 
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 Veja-se a nota do Prof. Ubaldi no final do cap. IX da II parte deste volume. 
Convém acrescentar que os problemas referentes a natureza espiritual de Cristo, o Autor os 
expôs não somente no seu livro Deus e Universo (Cap. XIV - A Essência do Cristo), mas ainda 
em O Sistema e Queda e Salvação, que se lhe seguem e lhe são intimamente complementares. 
(N. do T ) 
 
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um Sol esplendente que atrai a si as chamazinhas das almas humanas. D'Ele se desprende uma 
radiação de amor sob a qual revivem, se levantam, se acendem novas centelhas. É como o 
começo de um incêndio. E as pequenas chamas engrossam,
 
sobem, sobem, até tocar o céu e 
unificam-se no esplendor do grande Sol central onde, reabsorvidas, se perdem. 
 
Caminha, caminha. Cristo vai com Sua cruz, sempre diante de todos. Ele não tem 
propriedades, nem riquezas, nem poder humano. Ele é uma força nua, suspensa entre os horrores 
da terra e os esplendores do céu. Ele não está na História, mas é superior à História; não está 
encerrado no tempo, mas é senhor do tempo. Na sua realidade, ele é imaterializável e justamente 
por isto está vivo e presente. A sua realidade é interior, está nas palpitações e no tormento do 
nosso espírito. Justamente por isto, Ele está aqui conosco, entre nós, sensível para qualquer um 
que o saiba sentir. Ele esta vivo e presente e o mundo (porque Ele não é feito de matéria) não O 
reconhece. 
 
Ele é uma vibração. Sua casa esta em nós \u2014 uma ressonância de pensamentos e de ações. 
Ele vai humildemente peregrinando de porta em porta, pedindo hospitalidade; vai batendo de 
coração em coração, implorando amor. E o mundo lhe diz: "Quem és tu? Segue, não te 
conheço". 
 
Caminha, caminha. Ouço chegar, sobre a onda do tempo, ecoando de século em século, 
esta nova voz de Deus, que traz a boa nova da bondade e do amor: pressentida, profetizada em 
Israel; alcançada, predicada, vivida no Messias e depois seguida e em atuação na Igreja. Ouço-a 
chegar, concentra-se como uma força na vinda de Cristo, fazer-se senhora dos equilíbrios do 
mundo e abrir-se depois em espirais em constante expansão projetando-se sobre a humanidade 
para iluminar-lhe a alma. O ritmo é contínuo, ligado a um chamado que vai de século em século, 
se propaga de geração em geração. Repete-se num ecoar de apelos e respostas, de palpitações e 
de ímpetos, de coração a coração; ouve-se, gradativamente, entre a terra e o céu, uma música 
imensa. De início, são vozes isoladas, invocações amarguradas e dispersas em paciente espera. 
Mas, as almas ouvem, atentas, esta nova palavra de amor. Uma força nova invadiu o mundo e se 
propaga. A ferocidade humana se adoça num estremecimento de ternura. Sob o beijo de Cristo, 
também a natureza muda a linguagem, até o Cântico das Criaturas, de São Francisco. A alma 
humana abre-se como uma corola e desabrocha ao cântico de Deus. Este canto ecoa e se dilata 
em mil ressonâncias, repercute e se multiplica até a última criatura, humilde e desprezada \u2014 
propaga-se e inunda a terra. E a música das pequenas coisas aqui de baixo desenvolve-se e se 
repete nas ressonâncias grandiosas do céu, que se abriu para ouvir; sobe a paixão da alma e o 
amor do homem se unifica no amor de Deus. Esse canto atrai e arrebata. Lentamente, da terra, a 
humanidade se ergue como uma maré que cresce e sobe em um único cântico de almas 
apaixonadas, que se funde e se perde na música do céu. 
 
Caminha,
 
caminha. Cristo adiante e atrás o mundo. Como é longa a estrada do Reino de 
Deus Quantos tropeçam e caem ao longo do caminho Quanto esforço de alma, para unir a terra 
ao céu! De início é apenas um pequeno grupo; poucos se põem corajosamente em marcha. É 
pesado o fardo da carne e muitos não podem movê-lo. Mas flameja com tamanho ardor a alma 
daqueles poucos, é tão ativa a irradiação do céu, ressoa tão harmoniosamente a boa nova, que até 
a matéria pouco a pouco se abala. 
 
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Aqueles poucos são canais abertos, vias de comunicação. A luz assim espanca as trevas, e 
um calafrio estranho penetra e anima a inerte densidade da terra. Cristo vai adiante e atrai todos 
após Si: está sempre em marcha, à frente, no caminho da ascensão. Ele tomou nas mãos o 
estandarte da evolução e disse: "Sigam-me. Eu sou o futuro". Poucos seres apenas, 
incompreendidos como o Mestre, seguem-no, sangrando e insultados. Mas Sua voz é tão doce e 
incomum que muitos, fascinados, se esforçam por ouvi-Lo e caminham juntos para compreender 
aquela estranha paz que o mundo não possui. Algumas palavras são ouvidas, algumas vibrações 
alcançadas ressoam na alma através da surda carapaça da carne. E o pequeno grupo de Cristo 
atrai e avoluma-se pouco a pouco, à medida que caminha. Algumas palavras ecoam e se repetem; 
novos ouvidos se põem a escutar; novas almas cansadas acorrem, implorantes. Juntam-se uns, e 
depois outros e a palavra multiplica a palavra, o exemplo multiplica o exemplo, a redenção 
multiplica a redenção, a ascensão multiplica as ascensões. A onda avoluma-se, o grupo se faz 
multidão, multidão imensa, incontável,
 
até os confins do mundo. As estradas da vida se abrem. O 
carreiro estreito e espinhoso dilata-se e se eleva; vejo-o desaparecer no céu, como rasto luminoso 
de um bólido. 
 
Eu sigo em último lugar, depois de todos. A cada passo, minha alma cai e tenta reerguer-
se, peca e espera redimir-se, sofre, expia e sonha elevar-se; e tropeço, paro e recuo. Mas estas 
quedas me remergulham na humanidade, na vida de todos, me humilham e me irmanam aos 
humildes É preciso que eu esteja ainda aqui em baixo, na minha imperfeição e no meu trabalho. 
Se caio, minha vista se ofusca,
 
mas não posso viver na minha cegueira e sou constrangido a 
subir. Não posso viver sem a sensação de Cristo. Amor e dor, dor e amor Caminha, caminha, 
minha alma cansada. Mas um dia, sobre o áspero caminho de meus esforços, senti um passo 
junto ao meu,
 
senti outro ombro aproximar-se do meu, levantar a minha cruz e transportá-la para 
mim. Desde então, não fiquei mais sozinho. Outro coração se debruçou sobre o meu, a dor 
tornou-se amor e mais ninguém poderá arrancar-me à indissolúvel aliança. No entanto, eu caí 
novamente e então desanimei por minha fraqueza e tive medo, por minha indignidade. Então, a 
Voz me disse: "Não temas. Meu amor é mais forte que tua debilidade. Apoia a cabeça sobre 
meu peito e descansa". 
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