Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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um livro. Sei apenas que atras de mim há uma força imensa, à qual obedeço e sigo, sem saber, eu 
mesmo, dos futuros desenvolvimentos. Eu semeio, mas não colho. Devo ser inteiramente 
desligado do fruto do meu trabalho. A minha recompensa está em outro lugar, está apenas em 
Cristo e em Sua aproximação. Não aprendo o meu caminho humano senão dia a dia. Assim tem 
sido até agora. Não se me atribuam, portanto, perfeições e méritos, pois não os tenho e se faço 
 
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 As Noúres, cap. VI (Conclusões). (N. do A.) 
 
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alguma coisa \u2014 não é minha. E perguntar-me-ão: trata-se de um movimento? Tranqüilizem-se 
todos. Não é um movimento no sentido humano. O homem é muito apegado as suas distinções, 
divisões e organizações humanas, porque incluem interesses. Eu lhes deixo todas estas coisas 
que tanto lhes agradam e que para mim nada valem. Nada se muda do que é externo, porque o 
exterior não conta. Dir-se-á: é utopia. Não. As verdadeiras forças estão no Céu, as forças que 
renovam a Terra. Nós vimos e sentimos seu maravilhoso funcionamento. Um homem não pode 
realizar certos movimentos mesmo através de seu heroísmo e de seu martírio; eles despontam na 
hora histórica, no sangue das povos,
 
no equilíbrio da civilização. Estas forças que tudo operam, 
se o quiserem, lançarão o homem além de sua própria vontade onde ele não saberia chegar, como 
um expoente que parece elevado mas que, substancialmente, pode ser insignificante. É um fato 
que certos movimentos substanciais do espírito não descem sobre a Terra, mas estão fora de 
qualquer recinto, entre o mundo e o Céu e nunca se desenvolveram valorizando categorias 
humanas. Não se cuida, pois, de qualquer propriedade: tudo é dirigido tão-somente pela força do 
espírito. O homem pensa por demais em corrupções. Por isso, não quero nem casas, nem sedes, 
nem cargos, nem a larga pestilência das organizações humanas. Nada que possa atrair os baixos 
instintos ou estimular as sempre rápidas reações dos impulsos inferiores do homem comum. 
Nenhuma fetidez de dinheiro que tanto atrai os ávidos e sombrios aduladores. 
Estes fogem, graças a Deus, em face de um prato onde não há senão fadiga, dor, paixão de 
espírito. Esta é a minha segurança. 
Ai das crenças que não exalam somente o perfume da renúncia! 
Esta é a minha força diante do mundo: a idéia pura e nua como desce do céu e atirada 
como semente ao vento, para que germine sob o impulso secreto das leis da vida. Só a 
imaterialidade é garantia de invulnerabilidade. A força da idéia que desenvolvi e sempre segui, 
não se desmente e confia só e sempre unicamente nela mesma. Atrás dela estão as forças do 
infinito, e elas me joeiraram tremendamente a princípio. Agora se desenvolvem, como verifico, 
com método e lógica. 
O movimento é espiritual. A meta é um reino que não é da Terra: o Reino dos Céus. A 
forma é aristocrática: enfrenta a intelectualidade e a cultura, porque são a aberração do século. 
Não se tocam os estratos inferiores, mais densos e menos maduros para a compensação. Tudo 
desce, depois, automaticamente, por gravitação, na assimilação e também, ofuscando-se, na 
realização. Ficamos em uma atmosfera pura, pelo menos, no momento da gênese e da concepção. 
As forças substanciais não agem do exterior, mas vão diretas ao coração do homem; incrustam-
se nas motivações e estas forças cósmicas estão aqui presentes, em ação. Aqui tudo é forte 
porque é imaterial; é indestrutível porque é imponderável. Quem está na matéria, se desejar 
destruir, encontra o vazio e não sabe o que agarrar. Quem está no espírito compreende e não 
pensa em destruir. Este é um germe tão espiritual que não toma forma humana; é a substância da 
fé, é um dinamismo puro que em toda parte cairá e em qualquer divisão humana poderá 
frutificar. É uma paixão de bondade que pode existir em cada casa, em cada instituição, em cada 
opinião; é um princípio de honestidade do qual cada autoridade não poderá senão se regozijar. É 
uma pureza e uma sinceridade em que cada alma se sentira renascer. É a luz de Deus que se dá a 
todos acima dos monopólios humanos: é pura destilação de força e bondade alcançada na fonte, 
antes que atinja a canalização e as impurezas humanas. Parece nada porque não desceu ainda à 
forma fixa e concreta. Flutua no ar como um perfume, como o orvalho ainda. não denso. Mas 
este é o estado mais dinâmico, o estado da gênese. É o espírito do Evangelho que volta na sua 
esplêndida fase primordial. Ele nada possuía, senão mártires. 
 
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Na sua origem, o fogo do espírito era líquido e jorrava em abundância,
 
das grandes crateras 
abertas. Hoje o homem está imerso na matéria; um século de ciência volatilizou o evanescente 
perfume do céu. Hoje recolhemos as últimas fagulhas semi-extintas e conservamo-las 
religiosamente nas lâmpadas acesas, cansado e pálido reflexo do incêndio original. Mas, isto não 
basta para desfazer as trevas que se tornam cada vez mais densas e ameaçadoras. Não basta o 
monumento das verdades escritas,
 
conservadas num invólucro imponente que se formou através 
dos séculos. O espírito é uma força viva que habita no coração do homem. É uma força, não uma 
palavra escrita, e como força, se difunde e se exaure; não pode ser fechada no imóvel; 
extremamente móvel, ele se nutre de vida, é uma radiação que desce do Alto, e um calor que se 
dissipa se não se recebe continuamente novo calor para comunhão da alma com o Céu. \u201cLitera 
Occidit spiritus autem vivificat". (II, Cor. 3.6)36. Muitas vezes nós trocamos o continente pelo 
conteúdo, tocamos o invólucro pensando tocar o fogo, mas em verdade ficamos frios. O hábito 
acostumou-nos á forma: ouvimos palavras incendiárias e permanecemos indiferentes. Que 
pesado fardo humano tem a Igreja de arrastar no seu caminho divino! Tanto esfregamos nossas 
almas impuras nas coisas santas que, em lugar de nos santificarmos, tornamos estas impuras. 
Abaixamos tudo ao nosso nível, a fim de podermos carregar tudo conosco, para nosso uso e 
consumo. 
 
Mas a verdadeira fé é um incêndio que se situa com dificuldade no círculo das coisas 
humanas. É um perfume que não se pode fechar em frascos. É toda uma espontaneidade festiva 
e, se deve ser codificada em lei, é pela triste necessidade de ser adaptada à vida dos cegos. Esta 
fé é hoje necessária, necessária é esta erupção espontânea e direta das forças do Céu, necessária 
esta explosão de energias irrefreáveis como o raio e a tempestade. Pergunto que coisas poderia 
fazer um punhado de homens fortes, poderosos pela disciplina do espírito, armados desta 
psicologia heróica, dirigida à renovação da civilização \u2014 que coisas poderiam fazer diante da 
massa inerte, das maiorias jocosas e cegas que não procuram senão o prazer, sem paixão por 
ideais nem vontade de martírio, sem saber nada dos grandes desígnios da vida. É necessário, 
como para as plantas em cada estação, em cada encerramento de um ciclo de civilização, uma 
brotadura nova e fresca, que atinja diretamente as fontes da vida, e um flamejar de sol que 
amadureça a messe. Outrora, em tempos de calma, de inércia espiritual, era possível ficar calado 
e viver de acomodamentos \u2014 mas não hoje, quando o inimigo está às portas. Estamos diante do 
dilema: ou ressurgir no espírito, ou morrer na matéria. A História prepara uma tremenda 
convulsão de dor. E a voz de Deus para os surdos, é a via da redenção É o batismo da tempestade 
que faz voltar a pureza; é paixão de alma que faz subir novamente. Não é destruição \u2014 é 
renovação. 
 
Não temamos, Cristo se aproxima, não apenas como