Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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apenas dela deixe de ser digno. A unificação não é um agigantamento do meu eu humano, coisa 
que tantos temem, mas é o eclipsar-se deste eu numa unidade maior. Não é auto-exaltação falar 
deste novo eu em que meu ser desaparece. Para mim é, ao contrário, um ato de suprema 
consagração. Examino-me e me confesso sem pretensão de infalibilidade. E isto é tudo o que 
sinto agora na minha consciência. Não tenho culpa se assim é, por sua natureza, para quantos o 
vivem, o fenômeno místico \u2014 se eu me encontro a vivê-lo agora e se isso está fora da 
experiência normal e além da compreensão. 
 
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Algumas coisas não se dizem \u2014 poderiam ainda objetar. Mas, eu tenho o dever de dar o 
exemplo, de devolver o que recebi,
 
de dar aos outros a alegria conquistada, o dever de indicar o 
caminho e de testemunhar minha experiência. Tenho o dever, pesado e gravíssimo, mas 
necessário aos que dormem, de inquietar as consciências. Cumprido o dever, silêncio. O 
fenômeno, naturalmente, fica e vivíssimo, mas, acabada a necessidade de manifestá-lo para um 
fim benéfico aos outros, minha boca se fecha e tudo ficará fechado sob o selo do meu silêncio, 
simples fato pessoal presumível apenas por suas conseqüências. Mas, fazer-me compreender 
primeiro é hoje parte de meu dever. Era necessário explicar e esta sinceridade pode ser uma 
prova capaz de sacudir as almas. Não vejo outro meio de fazer isto. Que pode importar, ante a 
urgência da hora e a perfeição da meta, diante do bem de tantos, se para tudo isto um só se deva 
expor às críticas e ao sofrimento? À natureza humana normal repugna a idéia nua e abstrata. É 
necessário que essa idéia se materialize num ser que a vida aqui, lutando, sofrendo, 
testemunhando. O homem comum exige esta materialização para contra ela bater a cabeça \u2014 é 
preciso dar-lha. Eu, porém, tenho aqui a sensação humanamente penosa de uma pública 
confissão, a sensação da última espoliação da minha personalidade que assim não tem mais 
ângulos seus, nem segredos, nem refúgio, porque tudo deu, toda se expôs e toda, já agora, 
pertence aos outros. 
 
Digo-o e repetirei para que também o leitor distraído perceba: por caridade, não se me 
atribua qualquer coisa de excepcional e de superior como homem. Nada seria mais falso e mais 
nocivo para o meu trabalho. Não se esqueça jamais o quão profundamente estou mergulhado 
nesta natureza humana, contra a qual tanto luto dia a dia. Faço uma declaração. Se não a 
quiserem compreender, a culpa não é minha. Não poderei, por isso, mudar o meu caminho. Faço 
de uma vez e para sempre esta bem clara distinção: não se me atribua nada de bom que eu possa 
fazer. Isso não é meu. Esta é a verdade. Atribuam-se-me, ao invés, todos os defeitos,
 
as 
fraquezas, as culpas que possa ter o meu trabalho. Tudo isto, sim, é verdadeiramente meu. 
 
 
 
 
XIV 
 
 
MOMENTOS PSICOLÓGICOS 
 
 
Devo completar o estudo do fenômeno também em seu aspecto religioso. Falando assim 
tão intensamente de Cristo, era inevitável referir-me à Sua Igreja. Minha ascese levou-me ao 
mais cristão dos misticismos. Eu mesmo devia alcançar o plano místico para poder compreender 
e afirmar estas conclusões. Os últimos trechos deste volume, que chamo momentos psicológicos, 
descreverão as minhas últimas realizações espirituais. Gostaria de me calar,
 
mas a Voz me disse: 
\u201cFale sempre mais claro e sempre mais forte\u201d. Em certos caminhos não é possível parar. 
Tenho olhado a Igreja com o mesmo ânimo respeitoso e reverente com que tenho olhado Cristo. 
Serei o último a levantar a voz contra ela. Mas, meu coração estremece pela gravidade das 
provas, pela proximidade do momento. O dilema é tremendo: ou reencontrar a força no espírito, 
conservando-a nua diante de Cristo qual Ele a fez, e somente tal pacto supremo respeitar no 
mundo, em contato com o Céu, \u2014 ou continuar consolidando as posições terrenas, perdendo, 
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então, a suprema e divina força e enfileirar-se, por coerência, no nível das forças humanas, 
limitadas e vulneráveis, quais o próprio homem. 
 
Esta ao alcance da mão uma grandeza imensa, essencial, na nova civilização. Quem 
desejará valer-se dela37? Trata-se não de salvar um organismo, mas de salvar o mundo que 
precisa de Cristo38. Agita-se neste livro um conflito mundial trágico e iminente do qual 
dependerão os futuros milênios. Ai da Igreja visível da terra se dela se afastar a Igreja invisível 
de Deus! Há uma outra religião,
 
mais profunda, dentro da religião, que supera todas as formas e 
sem a qual nenhuma religião é valida. É um sentimento universal que é a alma de todas as fés e 
que se faz sentir por sua verdade. Há uma religião de superfície, feita de práticas, formal, 
sancionada, forte, triunfante, organizada e em marcha como um exército. E há uma outra 
religião, sem clero, sem autoridade, pobre,
 
sofredora, simples, forte apenas por uma fé imensa e 
vitoriosa no céu. Há um Cristo maior, que não esta só nas imagens e nos templos, mas em todo o 
lugar onde uma alma sofre e ascende. Ha santuários também no coração do homem e momentos 
nos quais a alma pode falar diretamente com Deus. É necessário reafirmar este imponderável 
sem o qual nenhuma religião é religião. E necessário reviver como nós tempos em que as coisas 
do espirito estavam presentes e não chegavam como um eco longínquo das profundezas dos 
séculos: eram forças ainda incandescentes e destemidas, não resfriadas e cristalizadas. É 
necessário retornar à força virgem do primeiro Evangelho e do primeiro franciscanismo. Só 
assim se poderá enfrentar com esperança o futuro. 
 
Neste sentimento culmina a catarse mística de minha alma. A minha ascese não é, 
portanto, fenômeno circunscrito ou ato fechado no meu egoísmo, mas se expande e se dobra 
sobre o mundo. A minha paixão demonstra que a metanóia39 a que nos guia o Evangelho, o 
superamento e a reviravolta de valores que ele nos impõe, toda a sua revolução de espírito, não 
são utopia, como muitos acreditam, inexeqüível só porque não foi e não é sempre realizada se-
gundo as praxes religiosas e sociais. Quem isto afirma é cego para o imponderável. A luz e o 
bem que eu recebo do Alto, tenho de devolver e vivo para isso. Por caridade, não se me 
entendam mal, dando qualquer valor à minha pessoa, que não tem nenhum, julgando capaz da 
mínima perfeição moral este pobre verme que eu sou. E isto também é verdade e devo 
 
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 O leitor considere com seriedade e imparcialidade as palavras seríssimas que se seguem no texto. A oferta 
foi feita sinceramente também à Igreja de Roma, para que a mesma se renovasse para o seu próprio bem. A resposta 
veio com a condenação do livro. Este foi escrito em 1938. O autor continuou oferecendo a sua obra de bem aos 
diversos grupos humanos, para a salvação do mundo. No fim, foi o Brasil. que a compreendeu e a aceitou, pondo-se 
assim na vanguarda. Infelizmente tudo se está preparando na História para que estas páginas proféticas se realizem. 
Mas, quando foram escritas, ninguém quis acreditar e foram rejeitadas. (N. do A.) 
 
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 Esclarecendo ainda mais e ampliando estes conceitos. o mesmo Autor escreveu Profecias e Problemas 
Atuais, publicados por esta Editora. (N. do T.) 
 
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 Metanóia - palavra de origem grega (metánoia) significando conversão, não apenas no sentido de 
arrependimento de erros e pecados, mas ainda, e bem significantemente, de "mudança de espírito", "mudança de 
mente". vejam-se Mt., 4:17; 21:30; II, Cor., 7:8 etc. Neste verdadeiro sentido evangélico o Autor usou a palavra