Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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do espírito, se apresenta conexo com o problema do conhecimento e 
coincide com sua solução. 
 
Coloco-me, assim, como antípoda da hodierna forma mental adotada pela ciência, ao mesmo 
tempo que, sobrepondo-me à psicologia objetiva, elevo para os primeiros planos o subjetivismo. 
 
Indiquei, no princípio, o caráter subjetivo deste escrito, que é também o de toda a minha 
orientação psicológica. Poderão argüir-me de subjetivismo, qual se fora isso um defeito. A 
objeção, que pode ser global e insurgir-se contra a minha personalidade e o valor que atribuo ao 
método da intuição, parece grave, mas não o é. 
 
Como pode a ciência racional opor-me, como defeito, a arbitrariedade do subjetivismo e 
suas bases intuitivas, quando ela mesma se funda sobre bases axiomáticas, igualmente intuitivas 
e arbitrárias, porque ainda passíveis de demonstração? Os fundamentos daquele organismo 
conceptual, de que pode provir esta acusação, considerados embora absolutamente seguros, são 
axiomas gratuitos, de valor transitório é extremamente relativo. Isto pode dar a alguns espíritos 
autônomos a sensação de que o pensamento humano, em toda a sua esmagadora congérie de 
construções ideológicas, filosóficas e científicas, se agite sobre bases convencionais. Ignora a 
ciência o que sejam, substancialmente, os fenômenos sobre os quais ópera. Averigua e 
combina os efeitos, porque tem experimentado que as coisas ocorrem deste e daquele modo. 
Mas, por que causas e de que maneira isto ocorre, não o sabe. No campo abstrato, se penetrarmos 
até os bastidores desataviados da construção ideológica e pusermos a nu o jogo com que se tece e 
desenvolve a cadeia da silogização humana, verificaremos, subindo de concatenação para 
concatenação e de relação para relação, que se deve necessariamente chegar ao ponto fixo de 
partida, à pedra basilar de todo o edifício. Ora, esse ponto fixo, que é precisamente o que rege a 
construção e por cuja falta toda ela se esboroa, é simplesmente um axioma do qual não se sabe 
dizer outra coisa além de que é assim porque é assim, axioma cuja demonstração se reputa 
supérflua, pela simples razão de o declararem evidente; e enquanto, para aceitação de um 
pormenor, se exigem mil provas, para aceitação do princípio-base nada se requer, somente 
porque ele já existe na qualidade de aceitação indiscutida na grande maioria humana. E então a 
garantia dessa verdade fundamental é confiada única e exclusivamente a um fundo de intuição 
coletiva que instintivamente apoia um mínimo de verdade. Instintivamente, isto é, além de todo 
o controle racional. Deixada à parte a ciência utilitária, a verdadeira ciência, abstrata, filosófica, 
matemática,
 
de conteúdo conceptual, volve e revolve, reincide e apoia-se toda sobre rudimentos 
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de intuição. Intuições mínimas, mas seguras, somente porque garantidas pelo estender-se a 
grande número de pessoas. Ou intuições maiores, de gênios, videntes insulados, posteriormente 
desenvolvidas, analítica e racionalmente, pela cadeia do raciocínio. 
 
Há, pois, nas raízes do pensamento moderno, uma zona daquela arbitrariedade e daquela 
intuição que viriam exatamente inquinar meu subjetivismo. O método da intuição consiste 
apenas numa extensão do mesmo sistema a todo desdobramento ideológico; significa estender o 
mesmo contato intuitivo a todo desenvolvimento e manter-se constantemente no sistema 
axiomático, sem pedir apoio racional. Se \u201co axioma é o contato intuitivo com o absoluto\u201d, 
estendo esse contato e o torno contínuo e universal. Não condeno, pois, a ciência; considero-a, 
antes, centelha de pensamento, até onde não está demonstrada e onde não chega sua atividade 
racional. Amplifico, antes, seus fundamentos num método que, embora acessível somente a 
quem, por evolução, ali chegou, é o único que verdadeiramente pode atingir o conhecimento. 
 
O método da intuição não é aceito pela ciência positiva moderna, porque é antiobjetivo. Não 
é aceito porque,
 
enquanto o mundo fenomênico, segundo o método da observação e da 
experimentação,
 
é aproximadamente igual para todos e é suscetível de ser entendido e 
construído, o método intuitivo, sendo extremamente pessoal e subjetivo, não possui força para 
subir e elevar-se a altura maior do que a de uma interpretação pessoal. 
 
Existe ai uma idéia preconcebida e esta consiste em o número, isto é, em admitir que a 
extensão numérica do juízo seja garantia de verdade. Dá-me isto a idéia de cegos que se dão a 
mão para guiar-se reciprocamente. Ora, o resultado da observação exterior é, se não total, pelo 
menos parcialmente igual para todos,
 
somente porque é exterior, ou por outra, é conjugado à 
forma mais simples de percepção sensória, a mais rudimentar e também a mais difusa e 
fundamental no mundo biológico. O valor da objetividade apoia-se, portanto, somente na, 
extensão de uma identidade de juízo, que é, por sua vez, filha de uma identidade de construção 
fisiológica, nervosa e psíquica. A objetividade, então, revela-se tanto mais evidente,
 
quanto mais 
depende da estruturação sensória mais primitiva, qual é primeiramente o tato (sabemos quão 
ilusória é esta indiscutível realidade sensória em face da constituição cinética da matéria), e 
depois a vista, o ouvido etc.. Eu estaria em dizer que é função direta da inferioridade do nível 
evolutivo, pois quanto mais evolve o ser, necessariamente tanto mais penetra, graças à lei de 
diferenciação, no subjetivismo 
 
Ora, o método objetivo, embora apresente a vantagem de chegar a conclusões e 
interpretações mais universais, parece construído, por sua natureza, precisamente para 
permanecer aderente, sem poder superá-las, às aparências mais exteriores, às estruturas e 
interpretações fenomênicas mais rudimentares e superficiais. Esta unidade de juízo é vantagem 
aparente,
 
porque nos deixa na superfície, tende a reconduzir-nos sempre para o relativo, o 
particular, e não constitui, absolutamente, unidade de orientações e de conclusões, universalidade 
de concepções que alcancem a substância das coisas. O objetivismo nasceu fatalmente sem asas. 
Efetivamente, a ciência hodierna é incapaz de construir um sistema que contenha a explicação de 
todos os fenômenos e evidencie, por meio deles, o funcionamento da lei universal. 
 
O método objetivo é, em suma, a negação do método da penetração na profundeza e na 
substância das coisas; parece-me quase um lastro que se detém em baixo e intercepta, 
automaticamente, as vias do conhecimento, capaz de resultados utilitários, mas impotente em 
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face de resultados mais profundos. O valor da objetividade reside inteiramente nesse consenso 
humano que certamente não contém a chave do absoluto, nem pode ser tomado como medida das 
coisas. O verdadeiro consenso pode consistir apenas na voz dos fenômenos, que somente o 
subjetivismo intuitivo sabe ouvir e fazer ouvir, fazendo-a emergir do silêncio do mistério. Não 
pode deixar de nascer, no ânimo de quantos hajam ouvido esta voz, uma confiança em provas 
outras, que não são as dos sentidos e dos instrumentos, nem as fornecidas pela aceitação da 
normal psicologia humana. 
 
Mas, não é tudo. O método objetivo baseia-se totalmente sobre um erro fundamental de 
situação, que lhe impede a penetração conceptual dos fenômenos. Esse erro consiste na distinção 
entre o eu e o não-eu, entre o sujeito e o objeto, entre a consciência e o mundo exterior. Sobre 
esse individualismo, filho do egoísmo, baseia-se toda a psicologia científica hodierna. Ora, faz-se 
mister admitir que as duras necessidades da psicologia de luta, que