Pietro Ubaldi   Ascese Mística
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Pietro Ubaldi Ascese Mística


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a incompreensão do ignoto constitui vago tormento que estimula a 
sair dele. 
 
O método da unificação contém em si os elementos aptos a compensar aquilo que pode 
parecer um ponto fraco, isto é, o subjetivismo. Como poderemos compensar a pluralidade das 
concepções e a dissonância das contradições que derivam daquele subjetivismo? A filosofia, 
precisamente aí onde o pensamento, elevando-se e abstraindo da simples averiguação objetiva, 
chega a ser necessariamente subjetivo, é um mar de inconciliáveis divergências que desorientam 
o espírito, dando sensação de ser absurda a pesquisa da verdade. E, contudo, una é a verdade. 
Será, então, incapaz de atingi-la o subjetivismo divergente? 
 
Foi exatamente, como reação a tudo isso, que a ciência se mutilou na objetividade de 
compreensão, com o fim de alcançar uma verdade igual para todos. Mas, é evidente que o 
conhecimento ganha em profundidade e potencialidade,
 
à medida que passamos do mundo 
exterior ao interior. Não é baixando-se ao primeiro, mas elevando-se ao segundo, que se ganha 
em verdade. É precisamente aí, quando mal nos separamos da superfície sensória e 
progressivamente nos aproximamos da íntima substância, que começa o subjetivismo, isto é, a 
variedade e a divergência das expressões individuais: as vias do conhecimento estão na 
subjetividade e as vias da subjetividade constituem as vias do separatismo intelectual que parece 
distanciar-se da unidade do conhecimento. A conquista da verdade deve, portanto,
 
passar através 
desta contradição e saber conciliá-la. Uma verdade igual para todos não pode ser senão uma 
verdade de superfície. A procura de uma realidade mais profunda conduz à divergência. Pois 
bem. Importa, então, saber compreender antes, e depois coordenar e reorganizar aquela 
divergência. 
 
É natural que as apreciações mudem, à medida que subimos, porque tanto mais,
 
então, se 
desperta e movimenta o eu pessoal, isto é, o múltiplo individualismo em que se reflete a unidade 
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do absoluto. Este permanece simples e monista e nada perde de seu caráter unitário, exprimindo-
se na infinita variedade do relativo. Devemos recordar que o eu que concebe é um relativo e está 
em evolução. 
 
Preciso, então, se faz que superemos essa divergência e reconstruamos a unidade da 
substância. É necessário que não nos intimidemos em face dessa aparente inconciliabilidade, 
dessa dissonância de interpretações; devemos empenhar-nos, através da coordenação das 
expressões do relativo, em reconstruir a trama unitária do absoluto. A cisão está na manifestação 
humana, não na substância. Reorganizemos os reflexos particulares e reconstruiremos os 
aspectos da única luz. Da fusão das visões unilaterais sairá um mosaico que nos fornecerá os 
delineamentos do modelo divino. E as variadas intuições do subjetivismo escalonar-se-ão, por 
amplitude e profundidade; as verdades relativas coordenar-se-ão, as menores atrás das maiores, 
até às mais compreensivas e mais puras \u2014 aquelas que mais tiverem podido avizinhar-se da 
substância e houverem conseguido torná-la de maior transparência. Serão consideradas como 
tantos jatos de luz, cada um dos quais representa o sinal de uma linguagem eterna e infinita, a 
palavra de um sermão divino. Serão consideradas sucessivas aproximações da alma humana, que 
ascende entre trevas e lutas ao longo do mesmo caminho da verdade, do relativo para o absoluto,
 
da análise para a síntese, galgando, por seu próprio esforço, as vias da unificação. E, por 
unidades de medida e índice de verdade, tomar-se-á, não a objetividade ou o juízo do número, 
mas o grau de purificação do ser que, em sua evolução, se aproxima de Deus. 
 
Deixe-se também florescer em mil formas o jardim da intuição. Cada flor diversa será 
igualmente bela e exprimirá uma revelação. Ver-se-á, então, que, em essência, cada flor, em sua 
variedade, traduz a mesma eterna beleza e canta a mesma infinita sapiência. A flor mais perfeita 
e mais pura falar-nos-á docemente, com transparência mais evidente; a mais rude e primitiva mal 
saberá balbuciar. Una, porém, é a palavra, porque unos são o plano da criação e o pensamento de 
Deus. E, então, através da multiplicidade, bela, porque rica, do subjetivismo, espontaneamente se 
volverá à unidade, em que o separatismo de novo se unifica e o eu se funde no Todo, sem se 
destruir, como colaborador que se deu a si mesmo para a reconstrução do grande edifício do 
conhecimento. Nessa altura, ver-se-ão coincidir na profundidade, no mesmo cântico, que é a voz 
de Deus, as cindidas intuições pessoais. 
 
Então, a multiplicidade e diversidade dos juízos mais não são que o índice assinalador da 
distância entre a intuição e a única fonte central. Quanto mais se aperfeiçoa o ser, tanto mais 
sensível e potente se torna o instrumento consciência e tanto mais evidente se torna a unidade 
conceptual do verdadeiro. A dissonância das contradições é, pois, devida unicamente ao 
embaçamento do espelho refletor e é dada pelo grau de impureza do meio receptivo; as cisões 
nas conclusões indicam o grau de corrupção do pensamento e a distância que aquela cava entre 
este e Deus. A harmonia, que é perfeita no Centro, corrompe-se à medida que se afasta na 
imperfeição de ressonância da periferia. E a ignorância humana que irradia desordem, é a 
involução que gera o caos. 
 
Existe, portanto, solução para o problema: basta que progridamos, que superemos a zona das 
primeiras desordenadas aproximações da intuição. Encontraremos, então, espontânea e 
automaticamente, a unidade do verdadeiro. A evolução e somente a evolução pode dar-nos e dar-
nos-á, necessariamente, a unificação. Somente pela evolução se pode passar da ignorância ao 
conhecimento, da separatividade à unidade. A involução é treva que divide, a evolução é luz que 
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unifica. Na involução, emudece-se a verdade, sufocada no meio denso, que não permite 
transparências. A evolução coordena, reorganiza, harmoniza e com isto reabsorve as 
divergências e torna mais evidente a realidade do verdadeiro. 
 
Não se deve, pois, condenar e abandonar o subjetivismo intuitivo, mas fazê-lo evolver, 
purificá-lo, conduzi-lo sempre mais para o alto, até reencontrar nele a unidade. Assim, ele 
permanecerá sempre a via mestra do conhecimento. Coordenar, pois, as atuais intuições para 
reconstruir a verdade, mas, acima de tudo, subir, fazendo evolver a consciência, para aproximar-
se da verdade. É necessário subir, também por humildade de coração, por pureza de intenções, 
por sublimação de paixão. É necessário, para fazer evolver a consciência,
 
atravessar a catarse 
mística, que está no centro deste estudo. Num coração corrompido não pode nascer outra coisa 
além de soberba linguagem de vã sabedoria, além de dissídio, confusão, incompreensão. Eis as 
estéreis logomaquias de alguns filósofos. 
 
Una e simples é a verdade. Mas, para vê-la toda, em sua unidade e simplicidade, importa 
saber alcançar-lhe a altura; não se pode pretender trazê-la para baixo, para nosso nível humano, 
sem inquiná-la e falsificá-la. A verdade, a solução dos mistérios, a visão do pensamento de Deus 
não se conseguem mediante poderosas argumentações, por laboriosas pesquisas ou através de 
prepotência de lógica e de razão, mas seguindo as vias das ascensões do espírito, que são as da 
catarse mística. 
 
 
 
 
VII 
 
ESTRUTURA DO FENÔMENO MÍSTICO 
 
 
 
Falei de mediunidade, de metafania. Falo, agora, de misticismo, considerando, em suas 
formas, os índices e os expoentes mais ostensivos desta evolução espiritual, que é o problema