nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.102 seguidores
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digno, me-
recia a distinção, o SOI 1. 
\u2014 Espera um pouco. Arranja um jeito de resolver o caso sem pre-
cisar ir ao Posto. 
\u2014 Está com medo? Sua doença é mesmo contagiosa. 
\u2014 Não é isso. É que no Posto se perde muito tempo. 
\u2014 O senhor me diga como arranjar. 
\u2014 Diga você. 
\u2014 O senhor tem ficha de alimentação? 
\u2014 Posso te ceder um almoço. 
\u2014 Onde? 
\u2014 No "Aurora Boreal". É a que fica na minha área de circulação. 
Mas olhe lá, amanhã não me vem com estupidez, querendo me segurar 
de novo. 
Demorou muito para chegar minha vez na Boca de Distrito. A fila 
não andava. Um anão, à minha frente, informou que tinham liberado 
mais autorizações, por decreto, nesta noite. 
E que ele, anão, tinha encontrado dificuldades para sair do seu 
bairro. Era assim, eliminavam uns, entravam outros. Um jogo. 
Passei frente à Casa dos Vidros de Água e não senti vontade de 
entrar. Tinha sede, um pouco de fome. No "Aurora Boreal" gastei 
outra ficha na compra de um copo de leite factício, café e duas 
bolachas. Continuasse a me desfazer das fichas, e ficaria um ou 
dois dias sem comer, no fim do mês. 
O fim do mês é fim de mês. Deixar o problema para lá. Investir 
agora, ver o que acontece depois. Na hora, os problemas se resol-
vem. Depois de comer, me veio a vontade de passear pela Casa dos 
Vidros. Eu suava dentro da lanchonete, e as pás que giravam no te-
to não movimentavam ar algum. 
A Casa, ao menos, é fresca, confortável. Talvez influência da 
água contida nos milhares de vidros, distribuídos pelas estantes. 
As placas opacas do teto deixam entrar uma luz difusa, é dos pou-
cos lugares agradáveis de se estar. No dia em que o povo descobrir 
isto a calma vai se acabar. 
Conheço de cor as salas, corredores, nichos. A ordem dos Vidros 
de Água, a seqüência em que foram colocados. Um trabalho bonito, 
feito nos tempos que antecederam o Corte Final. Um dia desses vou 
passar pela Floresta Virgem Representada. Para rever o documentá-
rio sobre o Corte Final. 
Vou olhando sarjeta e latas de lixo. Quem sabe encontro um jor-
nal usado. Ou um pedaço, folha rasgada. Não importa. Sinto neces-
sidade de ler notícia. Ler de verdade. Estou cansado de ouvi-las 
pela televisão, na Rádio Geral. Sempre encontro um, atirado por 
aí. Às vezes sujo, emporcalhado. 
Durante alguns anos, como professor, fui autorizado a receber 
um jornal semanal. Havia pouco para ler. Pouco que interessasse. 
As más notícias estavam proibidas para não alarmar o povo. Os go-
vernantes da Era da Grande Locupletação é que destilaram este con-
ceito de más notícias. 
Foi um trabalho gradual de preparação. Filmes na televisão e 
nos cinemas, outdoors com propaganda. Repetição exaustiva até con-
vencer a todos que as más notícias prejudicavam a tranqüilidade, 
traziam inquietação, provocam stress, aumentavam a hipertensão, 
causavam até mortes. 
 
ESTÁ NA HORA DE NOS UNIRMOS, NOS FORTALECERMOS. 
 
 
A Era da Grande Locupletação veio logo depois dos Abertos Oi-
tenta que tinham se sucedido a uma ditadura grotesca. A imprensa 
tinha se acostumado a tratar dos assuntos livremente, a denunciar 
e apontar. Incomodava. O Círculo dos Ministros Embriagados sentiu-
se ofendido, exigiu reparações. 
 
 
TEMOS TUDO PARA SER A NAÇÃO LÍDER. 
NOSSO PODERIO ECONÔMICO E MILITAR COMPROVA. 
 
 
Tudo começou quando um ministro processou o jornal que o acusa-
ra de corrupto. O jornal comprovou, o Esquema cedeu, o ministro 
caiu. Então, os outros sentiram a ameaça, se uniram e iniciaram 
uma campanha cívica: "De que servem fatos como este para o país? O 
Esquema deve governar tranqüilo." 
 
 
NOSSAS DEFESAS SÃO INVULNERÁVEIS. 
O ESQUEMA DESENVOLVEU OBRAS ESTRATÉGICAS NOTÁVEIS. 
OS OUTROS PAÍSES NOS TEMEM. 
 
 
Era esse o tom. Um governo constantemente atacado tem que pas-
sar o tempo respondendo acusações. E não pode governar tranqüilo. 
O povo devia escolher. Se as más notícias continuassem, o Esquema 
não teria condições de administrar. Portanto não seria culpado se 
o país estacionasse, até regredisse. 
 
 
PENSEM EM NOSSO SISTEMA DE REPRESAS, NAS HIDRELÉTRICAS, 
NA USINA NUCLEAR, NAS FERROVIAS DE MINÉRIOS, 
NA POLITICA ENERGÉTICA, NA DESCOBERTA DO ÁLCOOL COMBUSTÍVEL. 
 
 
O povo foi ficando orgulhoso do que tinha. Deixou de ler os 
jornais que enfocavam más notícias. Assim a grande campanha contra 
a devastação e concessão do Amazonas morreu. Ninguém queria ouvir 
falar em desmatamento, árvores caídas, pastos substituindo matas, 
formação de terras estéreis. 
 
 
REGOZIJEM-SE COM O OURO DE NOSSOS GARIMPOS, 
COM A MADEIRA QUE PODEMOS EXPORTAR, ORGULHEM-SE 
COM AS SAFRAS IMENSAS DAS TERRAS FÉRTEIS, ONDE, 
PLANTANDO, TUDO COLHEREMOS. CULTIVEMOS O OTIMISMO, 
A CONFIANÇA, ABAIXO OS NEGATIVISTAS. 
 
 
Duas coisas eram pior que o câncer para a Alta Hierarquia do 
Novo Exército: os espíritos negativistas e os comunistas. Eram ca-
çados e isolados. Na altura do Grande Ciclo de Combate à Abertura 
da Igreja, também apelidada de Coliseu, os comunistas tinham se 
tornado bichos raros, quase extintos. 
Um pouco pela repressão, e muito pelo desencanto, extinguiam-
se, do mesmo modo que aves e animais da fauna brasileira. Com a 
diferença que os bichos podiam se dar ao luxo de reservas particu-
lares, onde se tentava a sua reprodução em cativeiro. Já em cati-
veiro, os comunistas definhavam. 
A última notícia sobre o que estava acontecendo ao norte, foi 
dada por um Ministro, o dos Negócios Imobiliários, cargo criado 
pela necessidade de se controlar a especulação, não somente nas 
grandes cidades, como em toda área do litoral, onde os loteamentos 
se sucederam, velozes e devastadores. 
Na verdade, o Ministro cuidou voraz e imediatamente de proteger 
o seu grupo. Controlou a entrada de arrivistas, eliminou concor-
rentes. Uma tarde, célebre, ele declarou na televisão: "Devemos 
estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande 
feito deste governo que pensa no futuro. 
Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema 
que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas 
a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mos-
trado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de a-
venturas, celebrado, glorificado. 
A partir de hoje \u2014 e ele sorriu, embevecido \u2014 contamos também 
com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, 
mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona mara-
vilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o 
curioso leito seco dos rios." 
Os filmes da Agência Oficial mostraram, gradualmente, a deser-
tificação, com as imagens mais sofisticadas que o povo tinha vis-
to. Empresas de publicidade promoveram campanhas, induzindo revis-
tas requintadas a realizar caravanas. Os ricos se divertiram, fan-
tasiados de árabes. 
A Primeira Dama recebeu, em tendas de seda fincadas na areia, 
iluminadas por fogueiras e archotes. Ventiladores agitavam palmei-
ras artificiais. Os decoradores assistiram a centenas de filmes 
hollywoodianos de mil e uma noites, para se inspirarem e produzi-
rem os incomparáveis cenários. 
Helicópteros desceram nas areias mornas, trazendo elite mistu-
rada a dançarinas do ventre. Um colunista, antes de morrer, afian-
çou que nem a grande festa que o Xá do Irã deu em Persépolis foi 
semelhante. Outro ria ao se lembrar da pomposa inauguração do con-
junto Las Hadas, no México. 
Ele gritava, antes de ser reconduzido ao sarcófago, que a noite 
dos Patino tinha sido uma ingênua festa de criança. O baile da 
Primeira Dama foi o canto de cisne dos colunistas sociais. A pre-
sença destes espécimes assombrou as novas gerações que não podiam 
acreditar em sua existência. 
Os colunistas se ergueram das cadeiras de roda nas clínicas ge-
riátricas, onde andavam sepultados. Receberam alta nos sanatórios 
de doenças mentais.