nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
245 pág.

nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Abandonaram confinamentos, seguidos pelos en-
fermeiros. Foram recolhidos um a um em suas mansões estentóreas, 
onde jaziam exangues. 
Trêmulos, babavam e balbuciavam. Alegravam-se, cientes de novos 
velhos tempos. Se diziam mudos de prazer. No entanto, os maldosos 
garantiam que balbuciar sempre foi uma característica da classe, 
incapaz de alinhar quatro palavras seguidas, formando uma única 
frase coerente, inteligível. 
Os colunistas morreram todos, ao raiar do sol, antes do café da 
manhã estar servido. Caíram ao amanhecer, como generais chineses. 
Deslumbrados, sufocavam-se de bajulação, afogavam-se em gratidão, 
agradecendo com beijos babosos a dádiva dos todo-poderosos a quem 
tinham sempre servido. 
Foi quando se deu a punição ao cientista. Quero dizer, a pri-
meira após os Abertos Oitenta. Penso que esta pena marcou o início 
de um novo tempo. Nestes últimos anos, saltamos rapidamente de um 
ciclo para outro. Mal nos acostumamos a um, precisamos mudar. In-
cessantemente. 
Fomos ingênuos. Como eu, muitos. Tínhamos nas mãos posições a-
través das quais era possível, lentamente, instilar um gesto de 
lucidez, um pouco de consciência. Semente de inquietação. Alarme. 
Mesmo com toda a vigilância. Afinal, um professor em quem alunos 
confiam, é muito mais que um pai. 
Sim, aquele cientista protestou. Teve coragem. Quem lembra seu 
nome, hoje? Havia na universidade um livro negro. Intenso relato 
da perseguição que professores, pesquisadores, médicos, cientis-
tas, sofreram. Até o momento em que os registros não adiantaram. A 
exceção virou normalidade. 
Convivemos com ela, nos habituamos. O cientista punido não me 
sai da cabeça. Eu estava no hall da universidade, quando ele pas-
sou. Soube antes, pelos noticiários da tarde. Ficou esperando, o 
reitor desceu com um comunicado para a sala dele. Saiu, sem abrir 
uma gaveta, sem levar um só papel. 
Ao passar por nós, no hall, parecia o mesmo homem de todos os 
dias. Nem a cabeça abaixada, derrotado. Nem erguida, sinal de or-
gulho e indiferença. Homem normal. Tinha acabado de perder os seus 
direitos. O de professor, o de circular, comprar, conversar com os 
outros. O de viver, enfim. 
Eu estava chocado. Não fazia ainda idéia exata do que se abate-
ra sobre aquele homem. Um biólogo com teses nos Estados Unidos e 
Europa. Dava aulas há dezenove anos. Filhos e netos. Pouco mais e 
levaria vida tranqüila. No entanto, ele se ergueu. Sua voz indig-
nada clamou. Contra o deserto. 
Não calculávamos os resultados. A reação foi violenta. Deixou-
nos confusos. Que raios de pesquisadores éramos, se não tínhamos 
sequer possibilidades de analisar lucidamente a situação? Pessoas 
com as nossas informações de realidade política e social deviam 
estar preparadas. 
Prontas a calcular, misturar os dados, observar. Concluir os 
caminhos aos quais estávamos sendo levados. Nem era questão de 
previsão. Bastava contemplar os fatos e tirar ilações naturais. 
Como beber água quando se tem sede. A punição daquele homem foi a 
chave que nos forneceram, o aviso. 
Não a utilizamos. Levei alguns meses perplexo, até a vergonha 
tomar conta de mim. Senti que devia ter atravessado o hall e me 
colocado ao lado do professor. Tivéssemos todos feito isso, algo 
poderia ter mudado. Os gestos decisivos faltaram em bons momentos 
de nossa história. 
Dar as mãos simbolicamente. Penso muito nisso. Já se passaram 
tantos anos e ainda me imagino. Nós, juntos, diante da universida-
de. Ou aniquilavam todos, ou voltavam atrás. Permitimos. Não me 
conformo. Culpa que carrego. Ela me corrói. Nada pior que a memó-
ria do gesto não realizado. 
Dos anos setenta em diante, fomos conduzidos dentro de indefi-
nições. Rodeados por coordenadas paradoxais. Sistemas duros, ares 
democráticos. Repressões justificadas e justificativas aceitas. 
Democracias em clima de ditadura. Regimes amorfos a respeito dos 
quais não sabíamos pensar. 
Nunca nos ocorreu que era uma nova forma de sistema. Sem con-
tornos definidos. O nosso erro foi procurar na própria história os 
moldes. Esquecidos que os tempos e os homens tinham se modificado, 
substancialmente. Como poderíamos chamar a esta nova fórmula? Sis-
temas dissimuladores? 
Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um 
jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos, e 
perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas imagens à nossa volta 
dadas como verdadeiras. Aceitar todas, admitindo a multiplicidade, 
ou permanecer em busca da única? 
Não encontro um jornal. Foi uma tentativa. Inútil, eu sabia. 
Porque todas as manhãs eles passam, procurando por todos os can-
tos. São rapazes surdos que correm vasculhando os santos do dis-
trito. Arrebanham folhas, inteiras ou rasgadas, colecionam e vão 
negociar. Vivem disso, sustentam famílias. 
Estes rapazes possuem fichas especiais, entram em qualquer Dis-
trito. Ajudam na limpeza das ruas e assim sobrevivem. Possuem uma 
freguesia certa, é difícil entrar no círculo. Às vezes, com uma 
boa oferta, concedem eliminar alguém da lista, trocar por outro 
que ofereça vantagens. 
Deve fazer três anos que não vejo um jornal. Vivo de recorda-
ções, tenho que me contentar com a televisão e a Rádio Geral. En-
costo-me aos grupos, nas lanchonetes, tentando ouvir trechos de 
conversa. Já que o Esquema se organizou tanto, devia haver um ro-
dízio para recebimento da imprensa. 
Não importa. Hoje é dia de fazer minha loteria, preciso descer 
às cinco e meia, esta é a minha hora. Ou não vou trabalhar. A ne-
blina azulada cobre o alto dos prédios, sensação de lona de circo. 
De onde vem? Antes, eram as queimadas. E agora, quando não há mais 
o que queimar? 
Empurram, acotovelam, chutam, se encostam. A cada dia, penso 
que tem mais gente neste centro. Tudo me irrita. Vou para a repar-
tição, a falta significa multa e diminui minha proporção de fichas 
para água, ou lanches. Já ando em falta, dia desses recebo nada. E 
ficha ninguém empresta. 
 
 
 
NO ESCURO DO QUARTO, A AUSÊNCIA DO TIQUE-TAQUE. 
ENTÃO, OUVIRAM. ANDAVAM SOBRE O TERRAÇO. 
NAO ERAM ANIMAIS, POIS ANIMAIS NÃO EXISTEM 
 
 
Um bloco marrom, compacto, saindo do verde. Manchas imprecisas 
dançam diante de meus olhos fechados. Tenho de saber o que é. Co-
chilo no ônibus e a mancha surge, com a mesma insistência com que 
tem aparecido nestes últimos anos. Ela brota no fundo da memória, 
de tempos em tempos. 
Cada vez que ela brota, mergulho na imobilidade. Não consigo 
mexer os braços, mãos e pernas ficam adormecidas. Por pouco tempo. 
Sensação angustiante, porque a única coisa que está em meu pensa-
mento é a mancha, movendo-se lenta. Eu, paralisado, semimorto. Po-
rém, consciente. 
Volto para casa. O barbeiro está lotado, a esta hora a tempera-
tura baixou um pouco. As pessoas suam e conversam. Falam devagar, 
ninguém excitado para não gastar energia. Conheço alguns, são vi-
zinhos. Outros, completamente desconhecidos. Aliás, desconhecidos 
em maior número. 
Não há banho. Meu sobrinho ficou de aparecer. Adelaide reclama 
que ele não telefonou, nem mandou recado. "Mamãe vai nos emprestar 
duas fichas". Abri a televisão, desliguei. Fiquei observando a mão 
furada, senti vontade de sair. Ir para onde? Se ainda houvesse o 
velho jardim público. 
Adelaide ligou outra vez a televisão. A novela começava. Ela 
não disse nada até o fim, é um dos últimos capítulos. Segui a his-
tória desinteressado. Depois ela desligou o som e me olhou inter-
rogativamente. Incrível a quantidade de olhares que ela possui, 
devia ser atriz. Não fosse tão contida, amarrada. 
\u2014 Fiz promessa a Nossa Senhora Aparecida. Se ela curar esse bu-
raco, vamos ao santuário ouvir duas missas. E dou sua mão em cera 
para a santa. 
\u2014 Aposto que foram essas vizinhas que te deram a idéia. 
\u2014 Falei com mamãe. Ela achou que eu devia fazer a promessa. Não 
custa nada! 
\u2014 Não vou cumprir