nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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Na-
moramos tantos anos, desde adolescentes, quando achei que ela me 
acompanharia, cresceríamos juntos. 
Uma decisão no momento exato; ela me faltou. O medo do não. O 
fascínio que eu tinha por ele. Estranho mecanismo interno o meu, 
retardado, funcionando como se houvesse uma diferença de fusos ho-
rários. Adelaide era boa amiga, mas eu não precisava ter me casado 
com ela. O que pretendo provar agora? 
Sempre aceitei este casamento como fato normal, nunca reagi 
contra. A gente nem sempre faz as coisas que gostaria, mas termina 
se adaptando a elas. Desde que consinta. O pior é o consentimento. 
A aceitação passiva do princípio de "que nem tudo na vida é como a 
gente quer". Mas tem de ser. 
Gostava dela, mas era somente um vácuo dentro da solidão. Nunca 
preencheu nada, não foi essencial. Pensei muitas vezes nisso. Se 
ela desaparecer não vou sentir sua falta, tudo continuará igual. 
Ela não era indispensável. Não é um consolo pensar nisso, me in-
quieta. Por ela, e por mim. 
Minha indiferença serviu para torná-la, aos poucos, mulher a-
marga e desesperançada. Sem horizontes, nenhuma promessa de futu-
ro. Agora, sem nenhum apoio. Ela tentou construir um lar dentro 
desta casa. Jamais participei dele, me isolava, parece que não 
queria me comprometer, me assumir. 
Para estar em disponibilidade, poder largar tudo a qualquer ho-
ra e fugir. Desde moço tenho esta necessidade. Estar pronto para 
partir. Não querer nunca o mesmo lugar, renovar-se incessantemen-
te. Escapar de tudo, desprender-se, me atirar. Para longe, encon-
trar um lugar onde ninguém me encontrasse. 
Não penso mais. Sei. Não há mais o longe, o perto. Não há fuga, 
nem refúgios, tudo foi devassado. Sinto em mim estranha nostalgia. 
Antiga, muito antiga. Não dos tempos em que meus bisavós furavam o 
sertão do Mato Grosso, ou Paraná. Mais para trás. Muito mais. De 
tempos em que eu ainda não era. 
Leva mesmo. Age na base dos códigos de ética dos antigos bi-
cheiros, o código que regia o jogo, antes do Bicho ser legalizado. 
Se o inspetor apanha alguém passando mercadoria sobre a cerca, 
não se sabe o que pode acontecer. Porque não se encontra mais a 
pessoa. Penso às vezes que estou vivendo dentro de um sonho, uma 
situação imaginária, surrealista, um balão de gás que pode explo-
dir de um momento para outro. 
Vejo, misturados na cerca, os carecas, os despelancados e tam-
bém uma gente que nunca tinha visto antes. Tem os olhos quase fe-
chados, cheios de remelas, como se os globos estivessem inflama-
dos. Me dão mal-estar. Todos se comprimem, gritam. Sinto-me um 
privilegiado, porém isso não me afeta. 
O Distrito é um tormento para mim. As pessoas parecem gostar. 
Riem, se divertem, se encontram, bebem, falam alto, entram nas lo-
jas, amontoam-se. Há uma atração neste distrito, não tem dúvida. 
As galerias são frescas, acondicionadas, luzes naturais filtram 
através dos telhados de vidro. 
O prédio a que temos direito ainda não atingiu a Cotação Limi-
te. A fila quase não pára, a entrada é contínua. Quem não tem di-
reito, não vem mais. No começo, as pessoas tentavam entrar, furar 
filas, provocavam congestionamentos e tumultos. Agora, desistiram. 
Em pouco tempo, estamos dentro. 
Iluminadas por luz natural, as lojas não têm teto. Economia de 
eletricidade. Já se foi o tempo dos grandes luminosos, das orgias 
de placas a neon. Quando a última hidroelétrica parou, por falta 
de água, o Reator Nuclear das Caatingas começou a funcionar, for-
necendo energia para o país inteiro. 
Houve problema com as linhas de distribuição por cima da reser-
vas multinternacionais. O Esquema não conseguiu autorização, tive-
ram que fazer linhas subterrâneas, bem fundo no solo, para não 
prejudicar a fertilidade das terras estrangeiras. Custou caríssi-
mo; impuseram novos impostos. 
\u2014 Pensei em comprar uns cheiros \u2014 disse Adelaide. 
\u2014 Essa idéia até que não é ruim. 
\u2014 Viu? A gente sempre acha uma coisa que precisa. 
\u2014 Vamos procurar um Cheiro de Fim de Tarde. 
\u2014 E também um de Água na Terra Seca. Era tão bom. Um dia quen-
te, o pó, vinham aqueles pingos, batiam forte, o pó subia, o chei-
ro também. 
\u2014 Estão em falta, disse o caixeiro. 
\u2014 Do que tem? 
\u2014 Folha Seca, Folha Podre Úmida, Eucalipto no Fim da Tarde, Co-
queiro, Flores, Verduras, Café Torrado, Papel Novo, Algodãozinho, 
Chá Mate, Bosta de Vaca, Leite Queimado na Chapa, Pão no Forno, 
Serraria Depois de Cortar Tronco de Cedro, Alfazema, Jasmim, Igre-
ja na Hora da Bênção, Sanitário Limpo de Cinema, Moça que Tomou 
Banho com Sabonete, Roupa Passada, Jatobá Aberto, Frango Assando, 
Jaca, Hálito de Criança Após Escovar o Dente. E mais uns duzentos. 
\u2014 Nacionais? 
\u2014 Só o Bosta de Vaca, o Roupa Passada, o Gás de Escapamento e o 
Quarto Fechado Há Longo Tempo. 
Compramos três sprays. Leite Queimado na Chapa, Serraria Depois 
de Cortar Tronco de Cedro e Carvão Queimado na Fornalha de Locomo-
tiva. Meu avô forneceu muita lenha para a estrada, posso reconsti-
tuir o cheiro do vapor, a hora que quiser. Ficava à beira da linha 
enquanto carregavam o Tender. 
\u2014 Você viu? Coisa horrível. 
\u2014 O quê? 
\u2014 Os mutilados! 
\u2014 Não, onde? 
\u2014 Dobraram por aquela galeria. Não tinham braços, um buraco só 
no lugar do nariz, orelhas imensas. Pareciam bichos. O engraçado é 
que eram absolutamente iguais, os dois. Como deixam entrar? 
Na Boca de Distrito, o fiscal carimbou "Compras Cumpridas". 
Salvos por mais uma semana. Enquanto esperávamos o ônibus, eu ti-
nha a mão em pala diante dos olhos. O sol atravessando o furo, 
produzia no chão um círculo de luz, mais mancha que círculo, de 
tal modo a sombra estava diluída. 
Movi a mão, para cima e para baixo. O círculo aumentava, dimi-
nuía. De cócoras, brinquei com a luz. Ela atravessava a minha mão. 
Gostei dessa imagem, a luz que traspassa minha mão e forma um sím-
bolo. Claro, aquele pequeno círculo podia ser um meio, um sinal 
transmissor. Ter um sentido. Ser aviso. 
Nas catedrais, muitas vezes, eu passava horas, observando o 
lento caminhar da luz, através dos orifícios das abóbodas. Até que 
chegava o momento, em que o sol, batendo direto sobre o altar, i-
luminava o sacrário. Devia haver naquilo mais do que uma coinci-
dência. Era uma intenção deliberada. 
Podia ser homenagem, a luz aos pés do divino. Podia ser a con-
firmação de que Deus é luz. Também podia representar uma mensagem 
qualquer que os iniciados entenderiam. Mensagem que atravessaria 
milênios e seria sempre captada, não importa em que época, ou tem-
po. Essa história de iniciados me revolta. 
Haveria sempre homens capazes de decifrar alguma coisa contida 
neste círculo de luz. Sensação de conforto e paz. Isto eu sentia, 
naquelas catedrais européias, sentado no banco, contemplativo por 
horas e horas, a observar o movimento tênue, imperceptível, daque-
la luz em direção ao sacrário. 
Harmonia em busca de um objetivo. Sempre alcançado. Todos os 
dias, há séculos, a luz, variável segundo a época, percorria o seu 
trecho, batendo primeiro no chão da nave. Continuando, alcançava o 
altar, na hora determinada. Engraçado, agora, penso naquilo com 
uma impressão desagradável: no imutável que representava. 
Ao mesmo tempo, era a certeza do imutável nas grandes coisas do 
universo. No seu funcionamento, na sua estrutura. Será que ainda 
hoje aquela luz percorre um trecho idêntico, à mesma hora, com i-
gual intensidade? Será que este imutável já não foi alterado? Da-
ria tudo para estar de novo nas catedrais. 
Há várias noções de imutáveis, portanto. A primeira, ampla, ge-
ral, necessária, que é a do próprio universo, intocável. A outra, 
dos pequenos sistemas que nós mesmos construímos e que necessitam 
de alterações, ajustes de tempos em tempos, a fim de se adaptarem 
à ordem constituída, maior, soberana. 
Ou me confundo? Não sei. Ando sem clareza em relação à situa-
ção. Onde fica o homem dentro disto