nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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Ela voltava ao lugar, no dia seguinte. Vazia, pela manhã, enchendo 
gradualmente durante o dia. Quando descobri a repetição, compreen-
di também o mecanismo. Repetição. Levantar, tomar café, sair, tra-
balhar, voltar, comer, ver tevê, deitar. 
Uma roda girando, sem sair do lugar. Produzindo o quê? O vazio. 
Moto-contínuo. Funcionaria a vida inteira, sem parar. "A menos que 
alguém interrompesse. Se ninguém impede, as coisas continuam, e-
ternizadas. É preciso sempre intervenção, que alguém se interpo-
nha, se transforme em obstáculo à repetição. 
Pela manhã, calcei o sapato sem meia. Na lanchonete permitida 
pedi pão, ovo cozido (gosto de plástico), sal. A nuvem cinza con-
tinuava baixa sobre a cidade, os relógios marcavam quinze para às 
nove. As pessoas suando. Dentro em pouco, haverá uma desidratação. 
Não temos tanta água no corpo. 
Andando pelo centro. Estranho estar à vontade, admirando vitri-
nes que nem sabia estarem ali, reparando nos rostos das pessoas. 
Deixei de prestar atenção ao centro, faz muitos anos. Vejo homens 
com maleta preta. Maleta? Era disso que eu sentia falta no cinema. 
A maleta na mão, com minhas coisinhas. 
Aquela maleta fazia parte de mim. Era um membro, me dava segu-
rança. Sem ela, meus braços pendem desamparados. Colados ao corpo, 
com medo de se desgrudarem. Sinto falta do escritório. Não pelo 
trabalho, nem pelos colegas. Mal conversávamos. É que nunca estive 
livre, numa hora da manhã, como hoje. 
\u2014 Oitavo. 
\u2014 Só abre às nove e quinze \u2014 disse o ascensorista. 
\u2014 Você é o Souza? 
\u2014 Sou. 
\u2014 Não me reconhece? 
\u2014 Não. 
\u2014 Tadeu. 
\u2014 Tadeu Pereira? 
\u2014 O próprio. 
\u2014 O que faz aqui? 
\u2014 Sou ascensorista. Não vê? 
\u2014 Começou quando? 
\u2014 Sempre trabalhei neste prédio. 
\u2014 Eu também... 
Aí, observei que tinha me enganado. Era um hall igual, porém 
não era meu prédio. Também, são todos semelhantes. Uniformes. Fei-
tos com uma só planta. Arquitetura econômica dos Abertos Oitenta. 
Graças a este erro, redescubro meu velho amigo Tadeu Pereira. Não 
é possível. Tão envelhecido, acabado. 
\u2014 Tadeu Pereira. Quem diria? 
\u2014 E você? O que faz? 
\u2014 Nada. Fui demitido. 
\u2014 Por quê? 
\u2014 Sei tanto quanto você. 
\u2014 Estão demitindo muita gente baseados nos decretos secretos. 
\u2014 Nunca ouvi falar. 
\u2014 São secretos: Produtos do Ministério de Planejamento. Demis-
sões em massa. O Esquema não agüenta mais criar empregos artifici-
ais. Está além do limite da capacidade. Prefere o desemprego gene-
ralizado, problemas sociais, que uma dívida insuportável. Eles têm 
horror de dívida externa e ao mesmo tempo usam a dívida como jus-
tificativa para tudo. 
\u2014 Quer dizer. Mais gente nessas ruas, o dia inteiro. Não dá. 
\u2013 Tenho medo, Souza. Muito medo. Gente como nós o que vai fa-
zer? 
\u2014 Tadeu Pereira. Quem diria! 
Ele jamais poderá saber o quanto estou alegre. Jamais imaginei 
que pudesse um dia dar de cara outra vez com o Tadeu. Andou desa-
parecido tantos anos, julgávamos que tivesse morrido. Acabado e 
acabrunhado, curvado, não me parece o homem que teve tanto ânimo. 
Tanto peito para enfrentar situações. 
 
 
DOIS APOSENTADOS PREMATURAMENTE CONVERSAM. 
QUEM DIRIA QUE TUDO IA ACABAR ASSIM, 
NUM CLIMA DE RIDÍCULA E SUBDESENVOLVIDA FICÇÃO CIENTIFICA? 
 
 
\u2014 Quer dizer que também entrou na compulsória? 
\u2014 Há um bom tempo. 
\u2014 O que anda fazendo? 
\u2014 Nada, já te disse. 
\u2014 O que andava? 
\u2014 Conferia números num escritório. Números, o dia inteiro. Co-
lunas e mais colunas. 
\u2014 Quem diria que a gente iria acabar assim? Tudo parecia tão 
promissor nos Abertos Oitenta. 
\u2014 Murcharam rapidamente. Teve gente que nem percebeu. 
\u2014 Temos discutido o assunto, Souza. Estamos chegando à conclu-
são que nos deixamos enganar. No fundo, era previsível o que viri-
a. Quantos homens da antiga ditadura não continuaram nos postos? 
Todos caquéticos. 
\u2014 Você disse: temos discutido? Discutido com quem? 
\u2014 Um pequeno grupo. Pode ser que você conheça alguns. Na casa 
de um, na casa de outro. É um jeito de mantermos as cabeças em 
forma, de não perdermos o pé. É difícil, as pessoas andam espanta-
das. Ninguém quer saber de mais nada. O que vale é o dia a dia. Só 
se pensa na sobrevivência. 
\u2014 Acredita se eu te disser que não converso a sério há uns cin-
co anos? 
\u2014 Claro, aconteceu comigo. Não um período tão grande, atrofia-
dor, como o seu. Meu silêncio um dia explodiu na minha cara. 
\u2014 De vez em quando, falo com um sobrinho meu. Tem vinte e três 
anos e é capitão do Novo Exército. Mas não dá Para a gente se en-
tender. Ele me irrita. E me faz sentir safado. Corrupto. Pode ser? 
Me sinto corrupto, porque aceito umas fichas extras para a água. 
\u2014 Imagine se umas fichas de água tornam alguém corrupto, Souza? 
Isso não dá nem para arranhar a honestidade. Você sempre foi es-
crupuloso, demais. Tinha noções rígidas, antiquadas, de certo e 
errado. Andava devagar. 
\u2014 Era o meu jeito. 
\u2014 Se somos corruptos por causa de umas fichinhas, imagine aque-
la gente toda? O que dizer do Grupo dos Oito? E a Ala Asa de Gali-
nha? E o Conjunto Pop? 
\u2014 Fico abismado com tudo que fizeram, sem que houvesse uma re-
volução. 
\u2014 Eu não. O que me impressiona é que essa gente nunca teve medo 
do julgamento da história... 
\u2014 Julgamento da história? Chego a acreditar que aqueles homens 
pretenderam deliberadamente eliminar a história, tentando apagar o 
futuro. Para que não se lembrem como novos Átilas, os devastado-
res. Se acreditaram tão poderosos que julgaram poder cancelar a 
memória do povo. 
\u2014 Ao menos, fizeram tudo. Quem penetra no prédio da Memória Na-
cional? 
\u2014 Até que dá para penetrar. Mas quem garante o que está lá? Não 
será um prédio vazio? 
\u2014 Nem os bárbaros causaram tanto estrago. 
\u2014 Os bárbaros não tocavam nos templos. E as bibliotecas, os ma-
nuscritos, estavam nos templos. Eles tinham medo dos deuses e não 
violavam os santuários. As escolas dos sacerdotes continuaram fun-
cionando. Mais agora. Tudo começou na grande ditadura com as re-
formas de ensino, as dificuldades para estudar, o analfabetismo 
grassando. Tentou-se consertar a situação nos Abertos Oitenta. Nem 
deu tempo para respirar. Quando vimos, tinham se acabado. Estava 
instalada a Era da Grande Locupletação. 
\u2014 Fecharam nossos olhos durante os anos abertos. 
\u2014 É trocadilho? 
\u2014 Coincidência. Estávamos iludidos e não prestamos atenção nas 
coisas que aconteciam. 
\u2014 Não se esqueça que aconteciam secretamente. O Esquema decidia 
a portas fechadas. De repente, vinha uma campanha de preparação. 
Algumas semanas de amortecimento e ficávamos anestesiados para o 
choque. Por oito anos abastecemos o mundo de madeira. Convencidos 
de que não havia problemas, aceitamos que vendessem trechos da A-
mazônia. Pequenos trechos, diziam. Áreas escolhidas por cientis-
tas, para que não se alterassem os ecossistemas. Até que um dia, 
as fotos tiradas pelos satélites revelaram a devastação. Todo o 
miolo da floresta estava dizimado, irremediavelmente. O resto du-
rou pouco, em alguns anos, o deserto tomou conta. 
\u2014 O Esquema era inteligente. Negava, negava, e agia ocultamen-
te. Quando se viu, estavam no chão 250 milhões de hectares de flo-
restas. Como nunca mais há de haver outra. Tudo no chão. 
\u2014 E continuamos endividados. 
\u2014 Mas ganhamos a Nona Maravilha. 
\u2014 Ganhamos também tempestades de areia, dignas de países desen-
volvidos. Não temos mais que invejar os furacões norte-americanos. 
As tempestades dizimaram o Maranhão e o Piauí. O deserto avançou 
para o mar. 
\u2014 Sergipe sofreu duas tempestades de lama, Aracaju foi soterra-
da. O mar, lá, tem ondas de trinta, quarenta metros. 
\u2014 Furioso. Tão furioso quanto o Esquema, quando os grupos de 
defesa do meio fizeram uma denúncia internacional. O Esquema ficou 
desmascarado. 
\u2014 E se importou? Estava todo mundo ganhando. O escândalo que 
foi o Grupo dos Oito assinando concessões para as madeireiras es-
trangeiras!