nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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todo limpo, o banheiro cheirava 
detergente. Minha vida inteira cheirou detergente. Urinei fora da 
privada, cuspi no chão. 
Fiz um café fraco, espalhei pó, deixei cair xícaras, quebrei 
dois pratos. Vesti um paletó que não combinava com a calça. 
"Assim você não pode ir, querido. O que vão dizer no escri-
tório? Que sua mulher não cuida de você?". Deixei que ela me cui-
dasse todos estes anos. Eu a fiz assim, na verdade. 
Paletó? Estou louco? Queimei o paletó no incinerador de lixo. 
As cinzas não desceram, o escoadouro estava entupido. O dia nubla-
do. Se ao menos fosse chuva. Fico com a boca seca de pensar na 
possibilidade de uma chuva. Uma garoinha leve que molhasse tudo, 
umedecesse a terra, me encharcasse. 
As secas definitivas vieram logo após o grande deserto amazôni-
co. Um ano sem gota de água e as represas de São Paulo esgotaram. 
Apavorado, o povo fazia promessas, enchia as igrejas. Organizavam 
procissões, novenas, romarias. Inúteis. Poços artesianos começaram 
a ser abertos às pressas, às centenas. 
Por muito tempo, a secretaria de obras trabalhou em poços. To-
das as verbas foram desviadas para os programas de água. Cada es-
tado contou consigo, não havia possibilidade de ajudar o outro. O 
problema era igual para todos, estavam à beira da calamidade. 
Charlatões, fazedores de chuva, enriqueceram. 
As chuvas não vieram. De nada adiantaram procissões, rezas, 
trezenas, missas, macumbas. Padres gritaram no púlpito que tinha 
chegado o juízo final. Parlamentares denunciaram o Esquema no con-
gresso. Tanto padres e políticos tiveram que se calar, sob pena de 
aplicação do Definitivo Julgamento. 
Onde será que foi minha mulher? Para a casa da mãe, decerto. Um 
dia desses, passo por lá. Bom, féria conjugal faz bem. E a faxi-
neira? Devia ser dia dela vir. Ou foi ontem? Estava tudo tão arru-
mado. Caminhei para o escritório, ao sair do ônibus. Maquinal, nem 
percebi. Fiquei à espera do elevador. 
O ascensorista me olhou, amedrontado. Seu rosto se refletia nos 
espelhos enfumaçados do elevador, imagem reproduzida ao infinito. 
Não nítida, toda sombreada, apenas um esboço do rosto. E eu vi mi-
lhares de rostos aterrados, me contemplando. O ascensorista não 
sabia que atitude tomar. 
\u2014 Está lotado! 
\u2014 Lotado? Como? Está vazio, seu Potiguara. 
\u2014 Vazio, mas reservado. 
\u2014 Desde quando se reserva elevador? 
\u2014 Além disso, me avisaram que o senhor não trabalha mais aqui. 
Deram ordens para não deixá-lo subir. 
\u2014 Você me conhece, seu Potiguara, não fiz nada de mal. 
\u2014 Não sei. Para mim o senhor era até boa pessoa. Não... não é 
mais... 
\u2014 Não sou mais? 
\u2014 É... o senhor sabe... tem quem mande... tem quem diz as coi-
sas como devem ser... 
Fechou a grade interna rapidamente, ficou atento, pronto para 
subir, caso eu tentasse alguma coisa. Atirei-me contra a grade, 
rindo, vendo o pavor assumir totalmente o rosto de Potiguara. Fiz, 
só para ver o que vão comentar lá em cima os homens-mesa, homens-
gaveta, quietinhos, obedientes. 
 
 
SEMPRE ESTEVE CLARO QUE O SOBRINHO 
NUNCA FORNECEU FICHAS APENAS PELOS 
BELOS OLHOS DO TIO QUE O AJUDOU A CRIAR. 
CHEGOU A HORA DE DEVOLVER OS FAVORES 
 
 
\u2014 No mundo da lua, seu Souza? 
A barbearia vazia, o barbeiro encostado na porta. A esta hora 
da tarde não tem nunca freguês. A vitrolinha num canto toca tan-
gos. Desde que me mudei para cá, o barbeiro ouve tangos e boleros, 
sem parar. Pilhas de antiguíssimos discos chiantes, LPs arcaicos, 
compactos, todos amontoados, empoeirados. 
\u2014 Acho que o senhor precisa de uma barba. Não quer entrar? 
Passo a mão no rosto, meu deus, há quantos dias não me barbeio? 
Se Adelaide me visse, teria um colapso. Onde estará? Não telefonei 
para a casa dos pais. Viajou, ou me abandonou? Pode ser. Por que 
não li o bilhete? Estranho a mim mesmo, nunca tive atitudes assim. 
Afinal, ela não tem culpa. 
\u2014 O senhor usa água? Ou mijo retificado? 
\u2014 Acha que ia pôr mijo retificado no seu rosto, seu Souza? Me 
conhece! 
\u2014 Não, não conheço ninguém. 
Ventiladores de pá, desses de velhos filmes americanos passados 
no Caribe, giram inutilmente. Não há ar para agitar. A barbearia é 
abafada. O corredor é suportável ainda que o chão esteja preto. 
Ninguém vence a poeira cinza, constante. Hoje amanheceu sem nebli-
na, céu limpo, sol tenebroso. 
\u2014 Vou pôr uma toalha fresquinha. 
\u2014 Ei, quanto vai me custar? 
\u2014 Estava pensando, seu Souza. O senhor tem um sobrinho que é 
capitão. Não tem? 
\u2014 Tenho. 
\u2014 Pois eu soube aqui no prédio, de conversa, que ele facilita 
certas coisas. 
\u2014 Que coisas? 
\u2014 Alguém daqui, não vou dizer quem, já comprou fichas para á-
gua. Quem sabe? 
\u2014 Não sei de nada disso. E não gostaria de tocar no assunto com 
ele. 
\u2014 O senhor não precisa tocar. Apenas diga que o barbeiro quer 
bater um papinho. Ele vem até aqui. 
\u2014 O senhor tem certeza? 
\u2014 Absoluta. O meu negócio vai interessar ao seu sobrinho. Fala 
com ele. 
\u2014 Bem, é que não sei quando vou encontrá-lo. Ele só aparece de 
vez em quando. 
\u2014 Está lá em cima. Passou por aqui faz meia hora. 
\u2014 Acaba essa barba logo. Quanto é? 
Lá estava ele. Sorridente, meloso, olhos matreiros, bigode ne-
gro, semelhante a um cantor de boleros. Tomava uma lata de cerve-
ja. Me abraçou, assim que entrei. Tem pessoas de quem a gente não 
gosta, sem saber por quê. Vê, e não gosta. Nunca fizeram nada para 
a gente. Mas é uma antipatia espontânea. 
\u2014 Senta aí, tio. Vim te propor um negócio. Sei que vai dizer 
não, de cara! Mas ouça, primeiro. É uma caridade que precisamos 
fazer. 
\u2014 Caridade? Você? Desde quando? 
\u2014 Tio? Não sou tão ruim assim! Só porque o senhor odeia o Novo 
Exército, não precisa me incluir. 
\u2014 Até que não tenho queixas do Novo Exército. Mas essa organi-
zação que vocês mantêm, os Civiltares, não dá para engolir. 
\u2014 Para lá, tio. Não temos nada a ver com os Civiltares. Isso é 
injusto. 
\u2014 Quer me enganar? 
\u2014 Tio, os Civiltares foram formados pela ala dura que não con-
cordou com as renovações efetuadas no Exército. Esta ala uniu-se 
aos civis radicais que não concordavam com as aberturas do Esque-
ma. Então, formaram sua própria organização. 
\u2014 Que o Esquema tolera. 
\u2014 Política não é fácil, tio. É um jogo. O Esquema tem procurado 
minar as bases dos Civiltares. Demora. A tolerância se dá porque 
existem grupos muito fortes a apoiar os Civiltares. Eles formam 
também a milícia de confiança das reservas estrangeiras. O Esquema 
vem tentando conquistar as lideranças, para destruir a organiza-
ção. 
\u2014 Teoria! Na prática, o que acontece? 
\u2014 Olha aqui, tio. Não vim discutir política. Tenho pressa, pre-
ciso de um favor. 
\u2014 Pode ser que eu faça. 
\u2014 Não queria dizer isto, tio. Não queria. Mas quando o senhor 
precisa de fichas, eu trago. Sempre trago, nunca falei nada. E, 
com boa vontade. 
\u2014 Para poder cobrar, agora. 
\u2014 Cospe no copo de água que te dei, cospe. 
Fomos até a cozinha. Havia três pessoas sentadas, a tomar cer-
veja. A mesa cheia de latarias, pacotes, sacos de supermercados. 
Homens na casa dos trinta. Não posso dizer se morenos, porque eram 
carecas. Nem um pêlo. Nada de cabelo, sobrancelha. Desses que a 
cada dia aumentam nas ruas. 
\u2014 Preciso que fiquem por aqui, tio. O senhor acha que a tia se 
incomoda? 
\u2014 Ela não está. Vai ficar fora algum tempo. 
\u2014 É só por uns dias. Trouxemos comida, depois vem mais. Eles 
estão com fichas de água. O senhor não vai gastar nada, nada. 
\u2014 A gente se ajeita, pode deixar. Ah, o barbeiro lá de baixo 
quer falar contigo. Tem um negócio a propor. Acho que você aceita. 
As janelas fechadas, insetos zumbem. Olho o forro, manchas mar-
rom. Os bichinhos vivem juntos, em grupos. Trago a lata de DDT, 
pulverizo. Eles permanecem no lugar, tenho a impressão de que con-
tentes com o banho fresco que presenteei. Pulverizo outra vez, e 
nada. Continuam indiferentes. 
 
 
ENTRE CARROS BLOQUEADOS,