nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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DOIS PROFESSORES 
CONVERSAM MANIACAMENTE SOBRE A SITUAÇÃO. 
POR QUE OS INTELECTUAIS TÊM TANTO COMPLEXO DE CULPA? 
 
 
\u2014 Agacha, agacha. Sempre agachado. 
Estava engatinhando, me atirei (conheço a técnica), continuei a 
rastejar. Por quanto tempo? Horas que nos movíamos lentamente so-
bre o concreto ainda quente. Meu nariz junto ao pó. Espirrava. 
Coisa boa um espirro, limpa a gente. Que ginástica, seu. Será que 
ainda falta muito? 
\u2014 Quer me matar, Tadeu? Desde o serviço militar não rastejo as-
sim. 
\u2014 Vamos descansar atrás daquele pilar. 
Rastejávamos no meio da estrada, de modo que ninguém nos visse. 
A free-way projetava-se a quinze metros do solo, dezesseis pistas, 
larga fita vazia. Coberta por uma camada de poeira cinzenta. Quer 
dizer, no escuro não dava para ver a cor, mas é a mesma poeira que 
vem dos campos calcinados. 
Meus cotovelos ardiam, esfolados. Bem que o Tadeu recomendou: 
enfaixa o cotovelo que temos uma longa jornada pela frente, numa 
posição ingrata. Os primeiros duzentos metros foram difíceis, por 
causa da artrose, depois entrei no ritmo. Mas me falta fôlego, é 
natural, não faço exercícios, me alimento mal. 
\u2014 Não dá para descansar aqui, agora? 
\u2014 Atrás do pilar, atrás do pilar. Não podemos facilitar. 
Entrar na free-way não foi fácil. As entradas bloqueadas e vi-
giadas, laterais muradas. Depois, a estrada se erguia acima do so-
lo. Tadeu me conduziu através das ruínas do que tinha sido Vila 
Anastácio. Os prédios populares construídos por uma imobiliária, 
tinham desabado. 
Subimos por uma viga de sustentação. Nela, havia uma série de 
ganchos encravados no concreto que funcionavam como escada. Tive 
um medo danado de cair. Não é coisa para homem de minha idade. Me 
admirei mesmo com Tadeu. Alçou-se como gato agilmente, em dois mi-
nutos estava lá em cima na estrada. 
Ele levou um bom tempo, me ensinando a melhor forma de raste-
jar, sem machucar. "No começo, vai ter muita esfoladela. Mais tar-
de, você se acostuma". Avançávamos e devíamos ter percorrido uns 
dois quilômetros, quando a luz verde me bateu. Ao lado da ponte, 
observei montanhas de latas de cerveja. 
Dunas verdes. Imensas, ultrapassando a altura da rodovia. Es-
tendiam-se, brilhando ao luar. Começava a fazer frio. Rastejávamos 
e julguei ouvir um som estranho. Como se fosse um lamento, vindo 
do meio daquelas dunas metálicas. Não, impressão! Então ouvi de 
novo. 
Era um grito. Um grito somado a outro, e outro, de tal modo que 
formavam apenas um som. Dolorido. Quase artificial, tal a tonali-
dade. Deve ser o vento nas dunas, pensei. Vento chora? Parei, con-
templando as latas verdes amontoadas, oxidadas, praticamente sol-
dadas umas às outras. 
Ora, não há vento, a não ser raramente. Se houvesse, a poeira 
da rodovia estaria se levantando. No entanto, o colchão de pó per-
manece inalterado, liso. Olho para trás, vejo o sulco, formado pe-
lo meu corpo ao rastejar. Continuamos, e o som me chega, claro. 
São gemidos, não há engano. 
\u2014 Estou ouvindo coisas, Tadeu. 
\u2014 São os doentes embaixo da montanha. 
\u2014 Mora gente aí? 
\u2014 Dentro são cavernas. Abrigam milhares de pessoas. 
\u2014 Mas o sol deve esquentar barbaridade. Morrem assados. 
\u2014 Não morrem. É o milagre brasileiro. 
\u2014 Não pode ser. 
\u2014 Existe uma mecânica que não chegou a ser entendida. Supõe-se 
que as latas se resfriam de tal modo à noite que, durante o dia, 
levam tempo para se esquentarem. Quando chegam ao ponto de aqueci-
mento, já o sol se pôs de novo. Daí que lá dentro é fresco. Hipó-
tese, pura hipótese. Hoje em dia, ninguém entende nada, anda tudo 
transformado. 
\u2014 Como você sabe sobre esse povo? 
\u2014 Tem gente do nosso grupo que trabalha na assistência aqui. 
Nunca vim pessoalmente. Leio os relatórios que fazem. A maioria 
desse povo está louca. 
\u2014 Louco? Louco furioso? 
\u2014 Modo de dizer. Estão semi-imbecilizados. Inutilizados. Vivem 
deitados. Gritam porque o corpo dói, sem parar. Não dormem nunca, 
estão sempre nervosos, irritadiços, em tensão. 
\u2014 Mas quem é esse povo? 
\u2014 Ninguém em particular. Mistura de migrantes. A maior parte 
veio de Pernambuco, favelados que viviam nos charcos, se alimenta-
vam de caranguejos. 
\u2014 Mas caranguejo não faz mal a ninguém. 
\u2014 Só que eram caranguejos contaminados por altas doses de DDT. 
Para sanear o charco, a saúde pública usava DDT. Não há mais nada 
que se possa fazer, estão condenados. 
\u2014 O Esquema devia dar ajuda. 
\u2014 Ajuda? Interessa é que eles morram! Não oferecem perigo, são 
passivos, não conseguem se levantar do chão. Cada dia retiram de-
zenas de mortos, levam embora. É a única coisa que o Esquema faz. 
Pense bem, por que esta gente há de interessar? Não têm o mínimo 
poder aquisitivo, não consomem, são apenas problema social. 
\u2014 E o que o teu grupo faz? 
\u2014 Traz comida, quando consegue. Um pouco de água. Só dá para 
remendo. Estamos tentando experiências com eles. Dando legumes pa-
ra comer, procurando desintoxicá-los. Ainda não temos nenhum re-
sultado. 
\u2014 Legumes? 
\u2014 É. Verduras. Alface, tomate abobrinha. Nunca ouviu falar? 
\u2014 Fresquinhos? Ou factícios? 
\u2014 Ora, Souza. Comida factícia só serve para envenenar. 
\u2014 É mas se não fosse ela, estávamos mortos. 
\u2014 Você tem idéia da grande jogada por trás da comida factícia? 
\u2014 Poder econômico? 
\u2014 Também. Só que neste caso não é o mais importante. 
\u2014 O que é então? 
\u2014 É a química que eles misturam. Os aditivos tranqüilizantes. 
Doses mínimas, homeopáticas que vão minando o organismo. Corroendo 
a vontade, acomodando. Essa calma que existe é conseguida de que 
modo? Com ameaças, com a presença ostensiva de Civiltares? Com o 
aparelhamento de vigilância, fiscalização? Que nada! O Esquema es-
tá sossegado porque encontrou um meio infalível. Injeta a tranqüi-
lidade direto no sangue. 
Continuamos parados, a olhar para baixo. Gostaria de descer, 
não há como. À direita, estende-se o valo seco do antigo Tietê. O 
rio era mais raso do que eu pensava. Como fedia, grosso, coalhado 
de detritos. Até que foi bom secar, não passava de um estéril cau-
dal de imundície, intestino pobre da cidade. 
\u2014 Vamos. 
\u2014 Falta muito? 
\u2014 Bastante. Bastante mesmo. Quer voltar? 
\u2014 Já que chegamos aqui, vamos em frente. Mas devagar. 
\u2014 Não tenho pressa. Você menos ainda. Não trabalha mais. Como 
vai viver? 
\u2014 Não pensei. Vou sacar meu Fundo, ver quanto dá para agüentar. 
\u2014 E se não depositaram teu Fundo? 
\u2014 Não pode ser! 
\u2014 Acontece com tanta gente. 
\u2014 Vou roubar. 
\u2014 Quero ver de perto. 
\u2014 Preciso saber se meu sobrinho me providencia um revólver. A-
gora, ele me deve favor. Estou hospedando uns amigos dele. 
\u2014 Você negociando com teu sobrinho? 
\u2014 Não dá para ser intolerante hoje em dia. 
\u2014 Mas dá para se manter os princípios. 
\u2014 Dá? 
Desapontamento no rosto de Tadeu. Mas sou sincero. Quero viver. 
Vou tentar me manter decentemente. Gostaria muito de ir até o fim. 
Ser o último, se possível, quando tudo desabar. Ultimo. Que pessi-
mismo. Se me ouvem. Então percebo. Vem do fundo, lembrança aguda. 
A falta que faz a gente. 
De um pouco de alegria. Alguma coisa que me fizesse rir muito. 
Penso que se desse uma gargalhada, ia ter cãibra. Ou distensão nos 
músculos da boca. Porque faz tanto tempo. Não, não é só a minha 
aspereza, o meu fechamento. Adelaide sempre reclamou: "Você não se 
descontrai nunca. Não se diverte". 
Não deve ter sido fácil para ela estar ao meu lado. Calado, ob-
servador. Sem rir. Preso. A quê, meu deus? Por quê? Como dançáva-
mos e nos divertíamos nos fins de semana. Saíamos das pizzarias, 
empanturrados de massa e chope e íamos para as gafieiras. Ela era 
leve, cheia de ritmo, musical. 
Horas e horas sem sair da pista. Às vezes, era nas casas de 
tango. Ou nos grandes salões de baile. Ela ágil, eu pesadão. Fazia 
uma ginástica terrível para acompanhá-la, desajeitado. Boi em casa 
de louças. E ria de mim, contente. Me esforçava, porque