nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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desligada de São Paulo. Os cientistas de lá conseguiram reproduzir 
em cativeiro animais que estavam para se extinguir. Trabalharam 
muito e conservaram exemplares como o cisne de pescoço preto, a 
anta, as emas, o pato de crista. Ih, não vou te dizer tudo, você 
vai ver daqui a pouco. Quando as indústrias ocuparam totalmente 
Sorocaba, Votorantim, Brigadeiro Tobias, São Roque, Cotia, as pre-
feituras desapropriaram, mandaram tratores, exterminaram a reser-
va. Os animais e as aves permaneceram engaiolados por duas ou três 
semanas. Muitos morreram, enquanto os cientistas tentavam contac-
tos. Naquele tempo, a gente já desenvolvia pesquisas com verduras 
e frutas, lutando contra o solo contaminado por chumbo. Acertou-
se, os animais vieram para a reserva daqui, que fica na altura do 
antigo quartel de Barueri. 
\u2014 Essa é a região do lixo! Ali onde chamam Sítio do Inferno? 
\u2014 Por isso mesmo. Onde estamos, ninguém incomoda a gente. Você 
vai ver. 
A free-way estendia-se por sobre um campo branco-amarelado. Co-
mo se fosse um minideserto, raso, plano. O valo seco do Tietê cor-
tava a extensão ao meio. Centenas de estatuetas escuras povoavam o 
descampado. Pareciam de gesso, porcelana envelhecida, cerâmica co-
zida, louça, sei lá. 
Dava a impressão de ter sido um grande jardim, em que a vegeta-
ção secou e as estatuetas sobraram, solitárias, desamparadas. Cu-
rioso, a gente vive anos numa cidade e não a conhece. Jamais ouvi 
falar que por estes lados tivesse algum parque, horto. Teria sido 
particular? 
\u2014 É aqui, Tadeu? 
\u2014 É a Várzea dos Pássaros de Pó. 
\u2014 Nunca ouvi falar. 
\u2014 Era uma várzea alagada. O Tietê enchia, inundava as margens. 
Houve tempo em que foi a zona de hortas. Fazia parte do cinturão 
verde. Coisa pré-histórica, seu! Olhe as estátuas. O que são? 
\u2014 Aves. 
\u2014 Tem algum outro bicho? 
\u2014 Não, somente aves. 
\u2014 Pois é. Elas vieram do litoral. Atravessaram a Serra do Mar e 
desceram aqui. Ficaram. Nunca mais voaram. 
\u2014 Por que para cá? 
\u2014 Instinto de bicho, decerto. Ninguém consegue explicar. Dizem 
que nos alagados havia alimentação. Bichinhos, caranguejos, todo 
esse tipo de coisas. Então, os pássaros vinham. 
\u2014 E vinham do litoral? 
\u2014 Eles se alimentavam de peixes, coisas da água. Quando não en-
contraram mais o que comer no mar, subiram. Tentaram mudar de ha-
bitat. 
\u2014 E não voavam por causa da mudança? 
\u2014 Não. Quando mergulhavam no mar, voltavam com o corpo cheio de 
óleo. Ficava difícil voar. As aves que chegaram aqui são heróicas. 
O último vôo. Chegaram, desceram, tornaram-se bichos de asas que 
não voariam mais. Com o sol, presume-se que o óleo endureceu, fe-
chou os poros. Elas morreram. Foram cobertas pela poeira, torna-
ram-se o que você vê aí. 
\u2014 Até que é bonito! 
\u2014 Bonito! O pior é que é bonito. 
\u2014 Sabe, Tadeu? Não sei se agüento chegar lá. Não é só o cansa-
ço, é também a fome. Está demais. 
\u2014 Vê se firma, falta pouquíssimo. Olha aquele monte de plásti-
co. Fica por trás. Vamos pular fora desta free-way em cinco minu-
tos. 
A lua fraca, começava a amanhecer. Fazia tempo que eu não pas-
sava a noite acordado, pensava que não conseguiria mais. Por trás 
das montanhas desenhava-se uma fita de luz. Descemos por uma esca-
da de cordas, meus pés mergulharam numa camada macia de pó que me 
bateu na canela. 
Por dentro dos montes, havia atalhos. Um labirinto. Eu via 
brinquedos, utensílios de cozinha, galões, bolas, letreiros, as 
milhares de coisas produzidas em plástico. Que o plástico substi-
tuíra tudo, o alumínio, a madeira, os tecidos. Amontoavam-se. Co-
loridos e amassados, indestrutíveis. 
\u2014 Prepare-se. Isto é quase sagrado. Se você me entende. 
Ficamos em silêncio. Eu imaginava que estava comovido. Sentia 
um frio na barriga. Tadeu virou-se, caminhou alguns passos. 
Entrávamos na reservinha. Percebi o cheiro de bosta animal. Puxa, 
foi ao fundo do estômago. Me esfriou. Mas não gelou tanto quanto o 
grito de dor que Tadeu deu. 
Parei. O grito parecia não acabar mais. Não sei se era o eco, 
ou se Tadeu possuía tal força nos pulmões. Atrás dele, eu não via 
nada, o atalho era estreito. O grito me paralisava, assustava. Via 
Tadeu tremendo. Teria sofrido um ataque? Virou-se para mim, per-
plexo, com lágrimas. 
\u2014 Olhe só. Olhe sóóóóóóóóóó. 
Mordia os lábios, o sangue escorria. Era mais que dor, o que 
ele sofria. Tremia convulsivamente. Na sua idade, não ia agüentar. 
Segurei suas mãos. Ele me apertou, como quem precisa de apoio. 
Precisava mesmo. Ele não estava mais à minha frente. Eu também vi-
a, e não acreditava. Não podia. 
 
 
DEPOIS DE CERTA IDADE, AS PESSOAS 
COSTUMAM RECORDAR FATOS DA VIDA. 
SOUZA SE LEMBRA DO AVÔ, POR COINCIDÊNCIA 
UM LENHADOR QUE DEVASTAVA MATAS 
 
 
A reservinha, ou o que restava dela, abria-se à minha frente. 
Montanhas de plástico, altíssimas, funcionavam como muralhas, cer-
cando uma faixa de terra que se perdia de vista. Teria sido lugar 
bonito, a calcular pelas ruínas que via. Tadeu se abaixou, apanhou 
um esqueleto. 
De um pequeno animal. Cachorro, gato, coelho, raposinha, coati. 
Restos de carne chamuscada junto aos ossos. Matança recente, por-
tanto. Difícil saber quando. O fogo crepitava nas casas próximas. 
Telhados, portas, janelas retorcidas. Tudo plástico. Puxei, Tadeu 
veio como autômato. 
As casas, vazias. Móveis destruídos. Nenhum sinal de gente mor-
ta, o que era um alívio. Tadeu procurava restos animais. Víamos 
ossos na estradinha, quintais, varandas. Jardins pisados, revolvi-
dos. Que planta nasceria nesta terra dura como pedra? Pergunta, é 
o que faço o tempo inteiro. 
O sol esquentou minha cabeça, amoleceu os miolos. Juro que vi 
plantas amassadas. Folhas de verdade, nada de nylon, plástico. 
Deixaram meus dedos verdes. A menos que as experiências da reser-
vinha tenham sido sofisticadíssimas. Conseguiram um factício mais 
verdadeiro que o verdadeiro. 
\u2014 Tadeu, isto era planta? 
\u2014 Ah, quero lá saber delas? Vamos procurar os animais. 
\u2014 Vamos, mas não adianta. Você sabe, mataram tudo. 
\u2014 Alguma coisa sobrou. Bicho costuma fugir quando o mato pega 
fogo. 
\u2014 Sei disso, sei muito bem. 
Durante uma hora procuramos. Revistamos cabanas, jaulas, bura-
cos, moitas carbonizadas, pedaços de viveiros. Não sobrou nada. Os 
que invadiram destruíram, comeram o que havia de comestível. Ob-
servava Tadeu e via nele uma ruína maior que a da reserva. Descon-
solado, era um homem estropiado. 
\u2014 Você acha que foram os Civiltares? 
\u2014 Por que fariam isso? 
\u2014 Alguém explica as ações deles? 
\u2014 Sei lá quem fez. Não ficou nada, mas nada. Trinta anos de 
pesquisa, e não sobrou uma palha. Uma palha. Um palito. Acabaram 
até com as plantas. 
\u2014 Então, eram mesmo plantas? 
\u2014 Não viu que eram? Ficou burro depois de velho? 
\u2014 Poxa, Tadeu, o que adianta isso? Não tenho culpa do que acon-
teceu. 
\u2014 Sei, sei, sei. E também não precisa ficar me enchendo. 
\u2014 Vamos andar mais. Revistar tudo. Já que estamos aqui, vamos. 
\u2014 Fica pior, a cada coisa que vejo. Aquele passarinho, meio 
mordido, comido, não sei, aquilo me derrubou. 
\u2014 Você ainda se surpreende, Tadeu. Incrível! 
Continuamos, revolvendo carvão (carvão? Tinha madeira aqui?), 
remexendo nas casas. Sensação de guerra medieval, aldeia invadida, 
incendiada, população exterminada. Impressionava o estado de Ta-
deu. Os ombros caídos denunciavam a derrota. O pior era não saber 
o que se passara. 
\u2014 Um gemido. Ouvi um gemido, Souza! 
\u2014 Foi meu estômago, ronca de fome e sede. 
\u2014 Não era barulho de estômago, foi um gemido. 
\u2014 Com que direito grita comigo? 
\u2014 Cala a boca. Vamos procurar. Alguém gemeu. 
\u2014 É o vento. 
\u2014 Vento? Ficou louco? 
\u2014 Pode ser que esteja ficando. Como você. 
\u2014 É a melhor solução. Deixar a cabeça estourar. 
\u2014 A coisa já aconteceu, o jeito é recomeçar, se possível. Se 
sobrou alguma coisa. 
\u2014 Recomeça você! 
Encontramos o homem, de bruços, debaixo de