nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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uma gaiola. Gemia, 
bem fraco agora. As varetas de ferro da gaiola enfiadas nas suas 
costas. Mulato franzino, lábios rachados pela sede. Sangue coagu-
lado no chão, olhos mortiços. Com cuidado levamos o corpo para 
baixo de um telheiro. O sol ardia, suávamos. 
\u2014 Temos de achar água. 
\u2014 Quase junto aos montes de plástico tinha um tanque, escondi-
do. Vai ver. Desce por esse atalho. Pode ser que encontre. 
Indicação vaga. Fui. Fui por ir. Olhando os destroços, sentindo 
uma inquietação. Alguma coisa que subia do estômago, oprimia meu 
peito. A mancha. A mancha voltou, marrom sobre o verde, enquanto 
meu corpo paralisava. Queria andar, não saía do lugar. Marrom-
verde. Algo familiar. 
Durou pouco. Como a ligeira tontura que dá, quando se está dei-
tado e se levanta de repente, os olhos se enchendo de estrelinhas. 
Segurei a cabeça com as mãos. E vi o furo. Tinha me esquecido. A-
prendi a conviver com ele. Não me faz mal. Ainda me intriga. Como 
veio, por quê? É hora de pensar nisso? 
Descendo, cheguei ao canto da muralha de plásticos, à procura 
do tal reservatório. Estava mesmo bem camuflado. Havia um fundo de 
água suja, apanhei uma vasilha parecida com tigela, recolhi o que 
pude. Era pouco. Quando voltava, tive idéia nítida da destruição. 
A terra cinzenta não acabava mais. 
Ossos, paus fumegantes, troncos, detritos. Quer dizer que real-
mente tinha árvores por aqui. Vi duas ou três toras, enormes, um 
metro de diâmetro. Não acreditei. Daquelas que se via nas antigas 
marcenarias, empilhadas, cheirosas, à espera de serem transforma-
das em tábuas, caibros. 
Coisa de museu. Raspei com a unha, tirando um pouco de matéria 
podre que envolvia o tronco. Esfarelei, para sentir o cheiro. Es-
tava ligeiramente úmida. Estranho. Raspei mais, queria ver a cor 
do tronco. Que árvore seria? Desconhecida. E no entanto, como eu 
sabia de árvores, quando menino. 
Então, diante da tora e da terra calcinada, vi meu avô. Sim, o 
meu avô que subia em seu passo curto e rápido. Trazendo a caneca 
de café. Caneca que ele mesmo fez com uma lata de Toddy. Aproxima-
se de minha cama e o sol ainda não nasceu. Põe-se a me sacudir com 
insistência. 
Homem de sessenta anos, musculoso, apesar de magro. Sacudido, 
dizia minha avó. Eu me levantava, lavava os olhos que nem gato, 
não enxugava. Gostava de sentir o rosto molhado, me ajudava a des-
pertar de vez. Engolia o café ralo, requentado, que minha avó ti-
nha feito na véspera. 
Nem eu, nem meu avô, ligávamos. Tomávamos café frio, gostávamos 
de qualquer jeito. Gosto até destes cafés factícios que fazem ho-
je, bebo como doido, gasto todas minhas fichas. Sou capaz de rou-
bar ficha de café, isso sou. Depois, partíamos. O caminhão cheio 
de trabalhadores estava à espera. 
Meu avô levava o traçador. Era maior do que eu, muito. A lâmina 
produzia um som musical, quando se batia nela com a lima de amo-
lar. Era necessário curvá-la numa certa posição, senão o som seria 
morno, chocho, não ecoaria. Juro, podia ver as ondas sonoras tre-
melicando no ar. 
O traçador ficou em minha memória. Anos mais tarde, substituí a 
admiração por um sentimento de culpa aguilhoante. Bem que o Tadeu 
disse, é coisa de intelectual. A figura de meu avô sumiu, ficou 
apenas o traçador. Como um símbolo. Eu me sentia... me sentia, 
cúmplice. 
Inconscientemente, condenava meu avô. E me acusava por tê-lo 
acompanhado tantas vezes. Me censurava por ter admirado o seu tra-
balho, ficando horas a fio diante de sua banca de carpinteiro, 
vendo os brinquedos, móveis, portas e janelas, tudo que ele fazia 
com a hábil mão ossuda. 
Vivi muito tempo com este sentimento. Quando o Grande Deserto 
se instalou na Amazônia, quando a Grande Fenda dividiu o país, 
quando as chuvas passaram a castigar caatingas que por anos não 
tinham visto água, minha confusão me levou à beira da loucura. Fi-
quei desvairado. 
Me agitava, achatado. Claro, um dia melhorei, percebi que era 
apoteose mental. Mania de grandeza querer assumir sozinho um fardo 
tão grande. Tinha a minha parcela, mas cada um de nós levava a su-
a. Todos nós deixamos que as coisas acontecessem, do modo que a-
conteceu. Não movemos palha. 
Bem, não posso esquecer a propaganda oficial, massacrante. A 
convincente IPO. Flutua por todos os lados, dissolvida no ar que 
respiramos. É a nossa verdade, hoje. Mais que cortina, é muralha 
impenetrável. É como espelho de parque, deformante, que inverte, 
gordo-magro, feio-bonito. 
Carreguei esta inquietação. Deixei-me corroer por ela, quase em 
expiação. Que bobagem. Agora vejo como foi inútil este sentimento 
de hostilidade. Demorei para perceber a diferença. Cabeça dura a 
minha. Com toda certeza, meu avô não era um simples exterminador. 
Juro que não era. 
Na minha cabeça, criou-se um vácuo. Noções confusas, nascidas 
daquilo que eu via, misturada às coisas que meu pai dizia. Porque 
meu pai, modesto empregado na estrada de ferro, às vezes nos acom-
panhava. Quando as suas férias coincidiam com as grandes derruba-
das, ele ia junto. 
Os fazendeiros chegavam todos os anos, na mesma época. Recru-
tando gente. Os caminhões saíam muito cedo. As viagens duravam, 
primeiro um dia depois dois. Cada ano a derrubada era mais longe. 
Estradas de ferro tinham avançado, alta araraquarense, alta pau-
lista, noroeste. As fazendas iam atrás. 
Não sei quantos anos tinha. Não importava. Dormíamos em barra-
cas abertas, o tempo era quente, seco. Havia arroz, feijão e car-
ne, todos os dias. Os animais eram mortos, limpos, carneados, con-
servados em sal e tempero. Bichos caçados nas matas que os homens 
estavam derrubando. 
Certa vez, estava no mato, olhando os machados arrancarem das 
árvores lascas brancas, vermelhas. Aquele enorme V ia surgindo ao 
pé do tronco, até a árvore desabar. Meu pai me instalou num tronco 
recém-cortado, cheio de anéis. Meu avô contou os anéis, um a um e 
me disse: 
\u2014 Essa tinha trezentos anos. Oitenta metros. Foi dura de cair. 
Havia nele orgulho e desafio. O tronco era quase plataforma. 
Devia ter sido uma árvore fantástica. E meu avô tinha derrubado. 
Ele. Com suas mãos calosas, os braços duros. Sentado sobre os a-
néis, olhava para o velho. Contente. Satisfeito por ser neto de um 
homem que não se intimidava. 
Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O 
barulho foi tão horrível que nem a presença dele impediu o meu 
susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionali-
zar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que 
foi a árvore tombando. 
Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repente, de-
sabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespe-
ro, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se 
amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereci-
am impotentes. 
Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, 
arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aque-
la coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De 
ter sido derrubada sem nenhuma resistência. Urrava de ódio. Pode-
ria resistir? Não via como. 
Na confusão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, ar-
rebentando árvores menores, fazendo um barulho que me parecia ca-
choeira, ou represa estourando. Uma vez, em Vera Cruz. vi um dique 
romper. Uma ligeira rachadura, as águas tomaram, aumentaram o bu-
raco, estouraram paredes. 
Os homens faziam daquilo o seu ganha pão. Não era simples ex-
termínio. A luta entre meu avô e a árvore era um mano a mano, in-
tensamente disputado. O homem contra a árvore era diferente da má-
quina contra a árvore. A máquina é o poderio desenfreado, o abate 
descontrolado. Destroçamento. 
Meu avô tinha orgulho, achava que sua profissão deveria ser 
transmitida. Jamais pensou certamente que chegaria este instante 
em que não haveria matas, ligação céu e