nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.102 seguidores
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a baba amarela. É um copo de água perdido. 
\u2014 O que custa perder um copo de água? 
\u2014 Oh, meu amigo. Tem que admitir a situação. Esse copo de água 
deve ser usado em quem tem condição de sobreviver mais tempo. 
\u2014 Também, a situação não é tanto assim. 
Apesar do mau aspecto da pele, os seus olhos eram calmos, nada 
violentos. Não era o olhar de um irracional, desatinado, preocupa-
do com a própria sobrevivência. Havia qualquer coisa nele que me 
fazia confiar. Ponderação. Aquele ar determinado que eu encontrara 
em Tadeu Pereira. Sinceridade, acho. 
Se ele é sincero ou não, é outro problema. Continuo remoendo: 
quem sou para negar a porcaria de um copo de água? O que me inte-
ressa se vão morrer? O motivo é melhor ainda. Morrem com a barriga 
cheia de água. No entanto, o terceiro homem me esperava no meio do 
corredor e me interceptou. 
\u2014 Não faça, amigo. É bobagem, pior para nós. 
\u2014 A casa é minha. O senhor se esquece? 
\u2014 A casa é nossa. Não tem isso de minha casa. 
\u2014 Como? Se quiser, tiro vocês daqui num minuto. 
\u2014 Nem em um, nem em dois. Se quiser, vai reclamar. Sabe a quem? 
\u2014 Descubro. 
\u2014 Se o senhor está preocupado com aqueles dois mortos-vivos, é 
sinal de que tem coração. Portanto, deve se preocupar também com a 
gente. Acha justo morar sozinho nesta bruta casa, enquanto tantos 
morrem de doença e insolação fora das barreiras da cidade? 
\u2014 Vamos fazer um acordo. Dou a água e mandamos embora. Se eles 
insistirem, expulsamos. 
\u2014 Expulsamos e eles saem contando que temos água e comida. Não, 
nem água, nem eles saem daqui. 
\u2014 Como? 
\u2014 Vamos trancá-los naquele cômodo do fundo, onde era o quarto 
da empregada. Andei olhando, o senhor usa como despejo, está cheio 
de pacotes. Tiramos tudo, prendemos os dois. 
\u2014 E ficam presos até morrer? 
\u2014 Amanhã eles vão embora. A camionete leva os dois. 
\u2014 Que camionete? 
\u2014 A de suprimentos. 
\u2014 Vem mais? 
\u2014 Muito mais. Esta casa vai ser um centro difusor. Daqui manda-
mos para outros entrepostos. 
\u2014 Entrepostos? 
\u2014 O senhor só conversa perguntando? 
\u2014 Me deixa dar este copo! Só este. 
\u2014 Melhor não. 
Afinal, quem é esse homem para me dar ordens dentro de minha 
casa? O sangue me subiu à cabeça. Quase nunca acontece. Não acon-
teceu quando devia e deu no que deu a minha vida. Foi um segundo 
de decisão. Passei o copo para a mão esquerda, e decidido empurrei 
o homem com a direita. Rapidamente. 
O homem recuou, espantado com a minha súbita braveza. Entrei na 
sala. Nem deu tempo de oferecer o copo. Tem cabimento oferecer? 
Quando os dois invasores viram a água em minha mão, se atiraram 
com fúria. Com tanta que derrubaram tudo. O homem que se sentava à 
ponta da mesa ria, às gargalhadas. 
\u2014 Contente agora? 
\u2014 São umas bestas. 
\u2014 Bestas, não! Desesperados. Olha! 
Lambiam o chão, como cachorros. Davam empurrões e cabeçadas na 
disputa das pequenas poças formadas pela diferença de nível entre 
os tacos. Ansiosos para que a água não penetrasse pelas frestas 
entre a madeira. Um empurrava ao outro, debilmente. Terminaram ca-
indo, extenuados pelo esforço. 
\u2014 Levem os dois para o fundo, disse o que eu julgava fosse o 
líder. 
\u2014 Ainda não tiramos todas as tralhas. 
Limpavam o quartinho, empilhando na cozinha os pacotes de ca-
lendários. Tantos anos encerrados nos embrulhos feitos a 5 de ja-
neiro. Nada mais significavam. Papel velho para ser vendido a qui-
lo. Úteis apenas para o Museu da Representação do Tempo, um setor 
deserto, arquivo morto. 
A campainha. Abri. Fechei a porta. Essa não. Alguém tem que 
descer para saber o que está acontecendo. Tocaram de novo, deixei. 
Desliguei o fusível da campainha, esmurraram a porta. Socos. Os 
homens vieram do fundo, tinham prendido os carecas no quartinho. 
Olharam, surpresos. 
Fizeram um sinal: deixe para nós. O homem que sempre comia do-
ces atirou na porta. Dois tiros. Corrida, e o silêncio. Logo cor-
tado por um gemido. Peguei uma cadeira, encostei à porta. Meu pré-
dio é dos antigos, a porta almofadada tinha uma bandeira de vidro 
azul. Nunca tinha sido aberta. 
\u2014 Puxa, você tinha de fazer bobagem \u2013 eu disse. 
\u2014 Começou, agora ninguém mais segura. 
\u2014 Alguém deixou estes homens entrarem. Existe a grade eletrôni-
ca, a trava automática, a tevê. 
\u2014 Mas quem? 
\u2014 Seja quem for, tem de saber que estamos preparados para nos 
defender. 
A bandeira da porta cedeu a um soco firme. Lá estava o homem 
caído, sangrando. A camisa empapada. Não dava para enxergar o fu-
ro. Olhei pelo corredor, ninguém. No entanto, podiam estar escon-
didos, à espera que abríssemos a porta. Ou prontos para chamar os 
Civiltares. Não se sabe. 
Puxamos o homem. Levamos ao quarto da empregada, junto com os 
outros. Minha vontade era vomitar. Tudo isto é loucura. Comi, dor-
mi de barriga pesada, me deu pesadelo. Preciso acordar, me liber-
tar desta obsessão. Nada disto está se passando. Basta eu negar, 
com todas as forças. Jurar que não. 
Não tem ninguém em casa, não estou vendo carecas, não tenho fu-
ro na mão, não está fazendo calor, não tenho dor de cabeça, não 
perdi o emprego, Adelaide não se foi, não existem barreiras, a ci-
dade não está superlotada, não faz calor, minha casa está vazia, 
sossegada. Em paz. 
Puro sonho. Não estamos atirando em gente, os vizinhos não es-
tão fazendo sacanagem, não tem ninguém abrindo a porta aos pedin-
tes e doentes. Daqui a pouco, cumpro a minha rotina diária, imper-
turbável. Acordo, tomo banho, café, Adelaide me leva à porta, vou 
ao ponto, apanho o S-7.58. 
Tenho vergonha quando penso no que Tadeu Pereira diria, se me 
visse em tal situação. Bem, e ele? O que faria? Ou o que é que po-
deria fazer? Gritava comigo: "Você aceitou passivamente o que se 
passou na universidade, entregou-se comodamente, deixou sua vida 
escorrer. E agora reclama o quê?" 
A vergonha não é pelo julgamento de Tadeu, e sim pelo meu pró-
prio. Concordar é me transformar num deles. Sou eu que preciso me 
enfrentar. Enfiado em mim, nem percebi as imagens da televisão. E 
eram familiares. Mostravam um local conhecido. Não pode ser! Tal 
horror não está se passando. 
 
 
UM DIA CHEIO DE REVELAÇÕES CHOCANTES: 
A CASA DOS VIDROS DE ÁGUA, A INSTALAÇÃO DOS 
GERADORES SOLARES E A AÇÃO DAS MULTINTERNACIONAIS 
 
 
Vejo prateleiras quebradas, o chão repleto de cacos. Homens re-
colhendo etiquetas de metal. Civiltares vigiando, presos entrando 
nos camburões. A Casa dos Vidros de Água em ruínas. As salas que 
conheço palmo a palmo, vidro a vidro, cada objeto. Salas que eram 
meu refúgio. 
Os presos: banguelas, mulatos de olhar agressivo, nordestinos 
mirrados, amarelos, orientais baixotes, gente sem nariz, sem ore-
lhas, sem cabelos, olhos pendentes, peles escamadas, tocos de bra-
ço, furo na mão. Furo na mão? Pena, o homem já entrou. Tenho cer-
teza, era um furo igual ao meu. 
O locutor tem a voz grave, cerimoniosa, dos que proclamam os 
noticiários oficiais na Rádio Geral. Civiltar exibe um vidro de 
água. O único que restou inteiro. Água do Tucumã. Onde, diabos, 
ficava esse Tucumã? Imagens do prefeito, do chefe estadual, do di-
retor do museu. E a voz monótona. 
 
Às 14 horas de hoje, o Museu dos Rios Brasileiros, conhecido 
popularmente pela designação de a Casa dos Vidros de Água, locali-
zado no que antigamente foi o Largo do Arouche, recebeu uma aflu-
ência fora do comum. De repente, para espanto dos vigilantes, cen-
tenas de pessoas começaram a entrar e a se espalhar. Aparentemen-
te, queriam apenas olhar os milhares de litros que continham as 
águas dos rios, riachos, ribeirões, nascentes, lagos, lagoas, fon-
tes e olhos de água de todo o Brasil. A Casa dos Vidros de Água 
foi o mais completo e admirado museu hidrográfico do mundo, apre-
ciado por especialistas do universo inteiro que ali sempre fizeram 
suas pesquisas hídricas. Organizado na década de oitenta por cien-
tistas da Universidade de São Paulo,