nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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está fora da cidade, toma 
conta. 
\u2014 Aquela gente também precisa de casa. 
\u2014 Seu Souza, o senhor diz coisas perigosas. Imaginou a merdalha 
dos Acampamentos a invadir os limites? Onde vamos? E a comida? 
\u2014 Mesmo que eles não invadam, onde é que vamos? 
\u2014 Estamos vivendo razoavelmente, o governo controla a situação. 
Não podemos é permitir furos no Esquema. 
\u2014 Vai embora, dona, quero fechar a porta, ficar quieto na minha 
casa. 
\u2014 Somos da comissão do prédio, zelamos pelo estar. Esses homens 
têm que deixar o apartamento. 
\u2014 Nesta casa mando eu. 
\u2014 Em parte é verdade, seu Souza! Mas dentro de cada prédio, a 
comissão é responsável por tudo, só assim se tem segurança. 
\u2014 Podemos ajudá-lo a expulsar tais homens. Temos informação que 
o senhor está sendo coagido. 
\u2014 Coagido coisa nenhuma. Estão aqui porque deixei, são meus a-
migos, vão ficar. 
\u2014 O senhor não tem amigos desse tipo, senhor Souza. 
O que falava era o tal da máscara, o que vive caindo pelos cor-
redores. Figurinha ridícula. Me encheu. Pedi licença, calmamente. 
"Já volto", disse, "esperem uns minutos". Fui à cozinha, coloquei 
uma panela de água no fogo, deixei ferver. Voltei, panela na mão, 
a comissão estava quase dentro da sala. 
\u2014 Por favor, saiam. 
\u2014 Vamos conversar. 
\u2014 Não temos nada a conversar, saiam. 
A loira adiantou-se, atirei a água sobre ela. Deu um berro que 
foi ouvido na esquina. Com este silêncio, qualquer coisa se torna 
avassaladora. Empurrei-a, a água tinha banhado todo seu peito. Os 
outros homens me olhavam assustados. Um deles, o manco: 
\u2014 Isto vai custar caro, somos obrigados a ir aos Civiltares. 
\u2014 Um processo, tocamos um processo em suas costas. 
\u2014 Me mandem a conta do pronto-socorro. Vou intimá-los por inva-
são de domicílio. 
\u2014 Nós podemos entrar nos apartamentos. O senhor sabe que pode-
mos. E vamos entrar aí. 
\u2014 Pois venham, vou ferver mais água. 
Partiram. A mulher chorando, mãos no peito. Tomara tenha quei-
mado aquela pele de barata branca, descascada. Ora essa, amiga de 
minha mulher! Amiga íntima, carne e unha. E se fosse? Eu passava 
os dias fora de casa, Adelaide podia me dizer uma coisa, fazer ou-
tra. Era até o seu direito. 
A que ponto cheguei. Convivi com esta mulher durante trinta e 
tantos anos e de repente penso desta maneira. Eu reclamava que não 
havia segredos, nenhuma surpresa entre nós, e agora me coloco em 
guarda, por dúvida. O que aconteceu com a solidariedade que exis-
tia entre a gente? 
Tenho medo de um processo. Se a loira de cabelos pintados deci-
dir entrar com um recurso, vou ter dificuldades. Não já. Tais coi-
sas trafegam demoradas, os advogados são caros, a tramitação dis-
pendiosa. A desburocratização iniciada no fim da década de seten-
ta, emperrou, poucos anos depois. 
Foi afogada num furacão de decretos que tentaram bani-la. Por 
essa razão, sei que não vou ser incomodado tão cedo. Pode aconte-
cer do marido dela me esperar no corredor. Tem se passado e nin-
guém faz nada. O Esquema chama de Questões Pessoais Resolvidas de 
Imediato entre Partes. 
Assim denominadas, convenientemente. Para os órgãos de seguran-
ça, constituem a maior moleza. Somos a nossa própria polícia. Cada 
um decide seus assuntos com cautela, porque se houver violência 
excessiva, pode gerar a Intervenção Ampla. E aí a gente nunca mais 
se safa. 
Ficamos à espera. Silêncio no corredor, sobre a cidade. Estra-
nho silêncio, porque a gente sabe, ele é abafado. Ameaçador. De 
vez em quando o elevador rangia, carregando velhos resmunguemos. 
Depois de certa hora, não se ouvia mais nada. Como se houvesse to-
que de recolher. 
\u2014 Está na cara a manobra desses vizinhos \u2013 disse o homem que 
costuma sentar-se à ponta da mesa. 
\u2014 São intrometidos. Nunca dei confiança a eles, morrem de curi-
osidade. 
\u2014 Não é nada disso. Querem é te expulsar daqui, ficar com o a-
partamento. 
\u2014 Bobagem, o apartamento é meu, estou aqui há vinte anos. Como 
é isso de expulsar? 
\u2014 Santa ingenuidade, diria minha mãe. Tenho a impressão de que 
você não existe. Me surpreendo como se conservou vivo. Devia estar 
congelado, hibernando, não é possível. Essa gente está de olho no 
apartamento, só isso. Pensa que é coisa de velha bisbilhoteira? 
Nada, nada. Procuram um jeito de se apossar desta casa ótima. 
\u2014 Tenho garantias. 
\u2014 Garantia coisa nenhuma. Ninguém tem garantia de nada. Nem da 
tua vida. Alguém está se incomodando com as pessoas que morrem, ou 
desaparecem, do que morrem, ou por que somem? 
\u2014 Se esquece do meu sobrinho? 
\u2014 Eu sei do teu sobrinho, eles não. Melhor acionar logo o garo-
to. De repente, tem gente mais alta que o teu sobrinho e aí nada 
feito. 
\u2014 Você é desconfiado demais. 
\u2014 E você, confiado. Tenho visto demais, isto sim. Sabe quanto 
vale um apartamento destes? Nem imagina o que existe de gente dis-
posta a dar dinheiro, comida, fichas, o que for. Só para sublocar 
o quarto que tem, só você conseguia umas trinta ou quarenta fichas 
por mês. 
\u2014 E vocês se instalaram aqui de graça, não é? Invadiram. Você 
não está preocupado com minha propriedade. Tem é medo de ser desa-
lojado. 
\u2014 Isso mesmo. Não queremos sair daqui, logo vamos nos defender. 
\u2014 Ah, admite. .. 
\u2014 Admito. E daí? Acha que gosto de me amontoar nos Acampamentos 
Paupérrimos? 
\u2014 Não é justa essa invasão. 
\u2014 Vai voltar tudo de novo. Você está levando vantagem. Vamos 
discutir teoria da propriedade outra vez? A posse, hoje em dia, é 
um gás, líquido, uma coisa que se dissolve, escorre. Agora, presta 
atenção, vamos sofrer um cerco dessa gente. Eles vão sitiar o a-
partamento. Já vi isto, lá em cima, melhor nos prepararmos. O bar-
beiro é teu amigo? 
\u2014 Parece. Nunca se sabe. 
\u2014 Tente obter informações com ele. Ofereça fichas em troca, la-
tas de conserva. 
\u2014 Ele quer um favor qualquer do meu sobrinho. 
\u2014 Usa isso. Que ele te mantenha informado dos planos. 
\u2014 Está me parecendo muito neurótico tudo isso. 
\u2014 E é. O que somos todos? Cada um que se cuide com atenção. A-
manhã vamos sair para novos suprimentos. 
\u2014 Mas não cabe mais nada aqui. 
\u2014 A gente limpa a área. 
\u2014 Como? 
\u2014 Tira esses móveis. Quem precisa deles? 
\u2014 Eu. São os meus móveis. O que pensa? 
\u2014 Penso que eles atrapalham. 
\u2014 Vivi a vida inteira com eles. Preciso deles. 
\u2014 Pois é, enquanto a vida era outra coisa. Não dá mais. Aquela 
vida acabou. Vamos tirar os móveis. 
\u2014 Vocês saem com eles. 
\u2014 Não vem com valentia, não. Não podemos brigar a cada momento. 
A situação está bem esclarecida, só temos que conviver em paz, ca-
da um fazendo sua concessão quando ela precisa ser feita. 
\u2014 Até aqui só eu fiz. Cedi a casa, a comida, agora querem meus 
móveis. 
\u2014 Puxa vida, o que há? O que estes móveis significam? Deixamos 
as camas, umas cadeiras. Para que o resto? 
\u2014 Os móveis são minhas lembranças. Uma certeza que vivi. 
\u2014 A única certeza que a gente precisa é a de estar vivo. Lem-
branças, ora essa! 
\u2014 A vida não é só daqui para a frente, tem tudo que ficou a-
trás. 
\u2014 Lembranças. Você é a última pessoa deste país que fala em 
lembranças. O que elas podem acrescentar? 
\u2014 Uma visão de mim mesmo. O que fui e o que vou ser. 
\u2014 Se o mundo ainda seguisse um ciclo normal. Você é um ex-
professor de história, devia saber disto. Durante séculos as coor-
denadas históricas e sociais funcionaram. No entanto, de uns trin-
ta anos para cá, tudo o que temos são descoordenadas. A aceleração 
histórica prejudicou tudo, a dinâmica se assumiu em sua concepção 
total, ou seja, contínua transformação, a cada instante, hora, di-
a. 
\u2014 Essa nova ordem tem um nome. Caos. 
\u2014 Não. Caos é muito forte. Implica na desorganização completa, 
anarquia. Existe confusão, mas não é o caos. Acho que a palavra é 
apenas desarranjo. Alteração de lugar das situações. Desordenação 
dos fatos. Como alguém que desmontou um motor, espalhou as peças 
no chão, em aparente desorganização.