nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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\u2014 Só que no motor, as peças voltarão aos lugares corretos, exa-
tos. 
\u2014 A menos que o mecânico invente um novo motor, o que é bem 
possível. Se não funciona de uma maneira, funciona de outra. A di-
ferença do mundo e do motor, talvez, é que o mundo não é estático. 
\u2014 Tudo é conversa. Não vão levar meus móveis. 
\u2014 O melhor é dar um tempo. Pense. Precisamos estocar mais comi-
da. Cada dia mais. Olhe o que anda lá fora, ninguém está para 
brincadeiras. Os Círculos Oficiais daqui a pouco não vão suportar, 
as barreiras estouram, aquele povo vai invadir a cidade, acabar 
com esta pocilga. Passei pelo meio de tudo, senti o clima. Aliás 
passamos os três. 
A sala abafada. Estou tenso. Olho em cima do piano a camada de 
poeira. O retrato de Adelaide. Vontade de chorar. Sou um monstro. 
O que fiz para achar minha mulher? Nada, nem um passo. Todavia, a 
cada dia, sinto que a encontro dentro de mim. Não quero que se 
transforme em lembrança. 
 
 
A TERNURA RESSURGE NUMA FOTO COLORIDA A MÃO. 
E OS GALOS NÃO EXISTEM MAIS, 
PORÉM CONTINUAM CANTANDO 
 
 
Vendo esse retrato me sinto só. Aposto que se eu dissesse isto 
aos meus amigos aqui, morreriam de rir. E o que parece o chefe en-
contraria argumentos para me provar que solidão está fora de lu-
gar. Não são tempos para ela. Diria: estamos todos sozinhos, nin-
guém reclama. Só o senhor. 
Pode ser, mas não tenho nada a ver com os outros. A minha soli-
dão pesa. Pense em outras coisas, veja a situação à sua volta, ve-
ja que não é possível ter mais sentimentos subjetivos. Imagino que 
me diria isso, parece um homem prático, concreto em suas propos-
tas. Bem, pura cogitação. 
Entendo porque ele deseja eliminar as lembranças. Alguma coisa 
ficou para trás, irrecuperável, e esta privação dói dentro dele. 
Para eliminar o sofrimento, elimina-se a memória. Uma cirurgia a-
parentemente simples, única solução. Só que eu não consigo, tudo é 
vivo dentro de mim. Agitado. 
Adelaide está em alguma parte. Escondida no seu próprio medo. 
Cada dia que passava, ela se assustava mais. Uma vez chegou a me 
pedir que não fosse trabalhar, que não me separasse dela. Não sa-
bia explicar por quê, assim que eu fechava a porta, de manhã, ela 
entrava em pânico. 
Custava muito a se recompor. Fechava as portas e janelas, pas-
sava trancas. Não era apenas pelo calor. As pessoas em volta dela 
eram completamente estranhas, desconhecidas. "Vou ao supermercado 
e não vejo um só rosto familiar, onde estão os nossos vizinhos, 
amigos, parentes?" 
Durante certo tempo comentamos a multidão que crescia, dia a 
dia, na cidade. Comentávamos, tranqüilamente, sem medo, sem reali-
zar o que estava se passando. Era uma constatação dos dias que 
corriam. Não me preocupava de onde tais pessoas vinham, ou porque 
estavam vindo. Ou quem eram. 
As ruas iam se enchendo, cada vez mais intransitáveis. Vieram 
os primeiros grandes problemas de circulação. E de repente, os 
meus rostos, aqueles que eu via diariamente, quase que às mesmas 
horas, em situações idênticas, passaram a desaparecer. Como se es-
vaíssem em plena neblina. 
Névoa, penumbra, eram sensações que me tomavam, quando encarava 
a multidão, compacta, fechada, mais fechada. Andávamos ombro a om-
bro, rosto a rosto, e ninguém se encarava. Olhavam para os lados 
ou para o chão. E então, apareceram os mutilados, os carecas. Os 
deficientes, os de olhos pendurados. 
Poucos, a princípio. Depois engrossaram fileiras. A polícia a-
panhava, levava. No entanto pareciam se multiplicar. Quando crian-
ça, li uma história, havia uns bichinhos, uns tais shmoos, que a-
doravam os homens. Morriam ao ser acariciados, e se reproduziam de 
segundo em segundo. 
Pois isto me lembrou os cegos, os carecas, os mutilados, os pe-
le-brancas escamosos que tomaram a cidade. Os Civiltares fizeram o 
que puderam, até instalaram as barreiras eletrônicas que nos sepa-
ram hoje dos Acampamentos Paupérrimos. Tais coisas eu não podia 
contar a Adelaide. 
Ou aumentaria o seu pavor. Que era instintivo. Porque ela não 
via nada. Saía pouco. E o bairro ainda não tinha sido tomado. Tais 
climas se espalham, como fluidos, dominam a atmosfera. Tocam as 
pessoas, se instalam nelas, como a umidade, o frio, o calor. Domi-
nam, simplesmente. 
Agora sei. Nossas noites longas e silenciosas eram de aturdi-
mento. Ficávamos na cama, de mãos dadas, contemplando o teto, ou-
vindo os barulhos da rua. Houve época em que eles se arrastavam 
gemendo, gritando, insultando, pedindo. Vinham os Civiltares e ba-
tiam, prendiam, amarravam. 
Não ousávamos nem mesmo olhar à janela. Não era piedade. Puro 
medo. Igual aos vizinhos do prédio, da quadra. No dia seguinte, 
encontrávamos as manchas de sangue e pus pelo chão. Ou aquele fa-
relo pardo, parecendo farinha seca e que, sabíamos, era a pele es-
camosa dos inválidos. 
Tínhamos nojo, muita gente vomitava em plena rua. Adelaide con-
fessava que não podia olhar para aquilo. Ninguém dizia nada. Ne-
nhum mexerico, comentário. Somente o silêncio cúmplice, que nos 
enchia de culpa. Porque estávamos protegidos atrás de nossas por-
tas e janelas. Nos imaginando seguros. 
Não ter com quem dividir esta angústia me deixa mais sozinho. É 
uma atitude egoísta, eu sei. E não posso fazer nada, assim me sin-
to. Havia antigamente, e nem sei que tempo é esse antigamente, a 
possibilidade de divisão. Dor e alegria eram repartidas, porque se 
vivia em comunidade. 
Estávamos juntos, podíamos contar uns com os outros, e isto 
tornava tudo mais fácil, suportável. Bastava abrir a porta, tocar 
campainhas, correr a um portão, tocar um telefone, as pessoas se 
juntavam, partilhavam. Adelaide percebeu a perda de tudo isto bem 
antes de mim. 
O sentimento de solidão era menor, não estávamos encerrados a-
trás de quatro paredes, portas trancadas, corredores vazios. Os 
ruídos exteriores eram normais, não traziam medo. As pessoas podi-
am se olhar, cara a cara, enfrentar-se sem receios, a língua seca, 
o coração disparado. 
Passam pelas minhas mãos as estatísticas de mortos. Todos os 
dias, com um prazer necrófilo, examino as causas. Claro, as esta-
tísticas são apenas daqueles que contam, os que moram dentro dos 
Círculos Oficiais Permitidos. Além das barreiras, é o desconheci-
do, propositalmente ignorado. 
Morre-se do coração. Infartos, derrames, todo tipo de com-
plicações cardiológicas aparece nas causa mortis. Ou seriam menti-
ras? Dissimulações. E por que gente com vinte anos, ou menos ain-
da, tem o coração estourado? Não dá para acreditar. E de que adi-
anta não acreditar? 
Certa tarde, nem tínhamos nos casados, mas a casa estava com-
prada. Adelaide e eu saímos. Para olhar vitrines. Era um sábado, 
as lojas estavam fechadas, ninguém na rua. Caminhávamos, eu no 
canto, Adelaide não gostava de ir pelo lado direito, andava sempre 
junto à guia. 
Encontramos o lambe-lambe com a cara tão desanimada que decidi-
mos tirar uma foto. Abraçados, nos beijando e um close de Adelai-
de. O homem entusiasmado ajeitou várias vezes o rosto dela, empur-
rando o queixo para cima, numa dessas poses de porta de circo ou 
vitrine de fotógrafo artístico. 
A foto ficou pronta na hora. O lambe-lambe pediu mais vinte mi-
nutos para colorir. Ele conseguiu o tom castanho dos cabelos e dos 
olhos, mas fez a boca vermelha demais. Ficou sendo a nossa foto 
predileta, talvez porque naquela tarde estivéssemos muito bem um 
com o outro. Em ótimo astral. 
Por muitos anos passamos naquele lugar e encontramos o lambe-
lambe, ali, sempre com o mesmo ar desanimado. Era o seu jeito, 
talvez uma forma de comover fregueses, ou então uma atitude peran-
te a vida. Nunca mais tiramos outra fotografia. Aquela nos satis-
fazia, era exata. Como gostaríamos de ser, sempre. 
Vejo esta foto agora e percebo como era firme a mão do lambe-
lambe e agudo o seu poder de observação. O olhar doce e sereno de 
Adelaide