nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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nunca mais foi retratado deste modo. Era ela, delicada e 
cordial, porém não passiva. Ao menos, não era passiva nos primei-
ros anos. 
Será que eu a transformei de tal modo? Ou foram as situações à 
nossa volta? Adelaide via o mundo de um modo diferente do meu, 
gostava de tranqüilidade, da estabilidade, preocupava-se com a se-
gurança. O mundo tinha valores sólidos que custavam a mudar. Po-
dia-se aceitá-los, seguros de que durariam ao menos uma vida. 
E quando mudavam, existia toda uma preparação, as pessoas eram 
condicionadas, nada explodia subitamente, assustando. Valores sim-
ples, às vezes. Algo assim como as festas populares onde as pesso-
as costumavam usar alguma coisa feita de couro novo, ou de pano 
azul. Ou queimar palha benta para a chuva acabar. 
Costumes simples, cerimônias, rituais, hábitos, coisas que per-
maneceram por séculos, passadas de avô, a pai, a filho, a neto, 
bisneto. Gestos familiares, espontâneos, falas, comidas. Permane-
ciam. Deixavam uma impressão de solidez, favoreciam a serenidade, 
eram certeza. Continuação. 
Naquela mesma tarde compramos um porta-retrato, muito simples, 
em madeira clara, sem pintura, nem verniz. O espaço para a foto 
era maior, porém Adelaide colocou um passe-partout branco, agora 
amarelecido. Mas as tintas da fotografia continuam firmes, em seu 
tom pastel. Tranqüilo. 
Falta a mão em meu ombro. Falta a ligeira reprimenda ao jantar, 
porque costumo tomar a sopa, com ruído. Em vez da Patética e dos 
discos clássicos tem o rádio de pilha com músicas sertanejas deste 
homem que invadiu a casa. Querem tirar tudo daqui, preciso salvar 
o retrato de Adelaide. 
Fico impressionado comigo, quero o retrato, me revolto com a 
idéia de que vão tirá-lo. Adelaide continua desaparecida e me sen-
to a remoer filosofias. Me irrito ante a perspectiva de perder a 
casa, os móveis, enquanto a perda maior, ela, me deixou insensível 
longo tempo. 
Ou foi pouco tempo? Não tenho noção de espaço, horas, dias, se-
manas. Quanto se passou entre eu descobrir o furo e Adelaide me 
deixar? Não sei. Nem tem importância. Tadeu Pereira (preciso pro-
curá-lo) tem razão. O que conta agora não são os dias e os meses, 
e sim situações e os acontecimentos. 
Por duas vezes pensei nestes homens que invadiram a casa. Com 
meu consentimento, reconheço. Não movo palha para expulsá-los, 
porque me fazem companhia. Aqui estamos, em comunidade. Precisamos 
uns dos outros e isto me reconforta. Acaso ou não, meu sobrinho me 
deixou gente inteligente. 
Podemos conversar, eles me trazem o mundo de fora. Um Brasil 
que existiu além das barreiras. Reconstituir os fatos. Adianta? E 
como disse o homem que costuma se sentar à ponta da mesa: "Lem-
branças, para quê?" Que transformação elas podem operar no mundo 
diante de nós? Nenhuma. 
O sol está nascendo, passei a noite neste sofá, não sei se co-
chilei, se fiquei ruminando. Apanho o retrato de Adelaide, enfio 
na gaveta da cômoda, entre camisas passadas, cuecas e meias. A ci-
dade ainda em silêncio, não se ouve nada vindo do corredor. Teriam 
desistido? 
\u2014 Hoje à noite vem uma caminhonete. Você tem a tarde toda para 
arrumar as coisas, disse o homem que me parece ser o chefe. 
\u2014 Assim, de repente? Pensei que tivesse uns dias. 
\u2014 É uma operação de guerra, meu amigo. Temos de ganhar tempo. 
\u2014 Guerra? Você exagera. 
\u2014 Pode ser. De qualquer modo, a caminhonete só pode vir hoje. 
Por favor, arrume tudo que tem de arrumar. 
\u2014 E como é que você sabe que a caminhonete vem? Ninguém telefo-
nou... 
\u2014 Enquanto você dormia, saí. Passei a noite fora, em busca dos 
contatos. Agora, fique vigiando, vou dormir. Tem café? 
A cozinha era uma bagunça, Adelaide morreria se estivesse aqui. 
Estou preocupado, pensando nesta mudança, nos móveis a selecionar. 
Gosto de tudo nesta casa, estou preso às mesas, cadeiras, piano, 
bibelôs, quadros, cômodas, armários, criados, mesas de centro, es-
tantes, colunas para vasos. 
Enfim, ligado a toda esta tranqueira que entulha cada cômodo. 
Os vasos vazios em cima das colunas. Adelaide jamais permitiu 
plantas de plásticos, tinha horror delas, por mais perfeitas que 
fossem. Chegaram a fabricá-las com cheiros naturais, o que as tor-
na espantosamente medonhas. 
Somente os muito ricos conseguem plantas naturais. São vendidas 
em galerias de arte, a preços insuportáveis. Uma planta vale mais 
do que as pinturas valiam, anos atrás. Nos leilões, trocam-se Pi-
cassos por samambaias, Portinaris por avencas. Duke Lee por gerâ-
nios. Oiticica por antúrios. 
Existem colecionadores, marchands. Estufas com ar-condicionado 
para o cultivo. Os donos dispõem de quantias extras de água. São 
privilegiados. Porque se descobrem alguém desperdiçando água, a-
deus. Pode contar com o Isolamento, é fatal. Evidente que a lei 
não se aplica a uns poucos. 
As colunas de vasos desta casa eram da bisavó de Adelaide. Es-
guias, de madeira escura, manchadas pela água. Quase em cada can-
to, existe uma. Eu disse um dia a ela, retire o vaso, coloque um 
bibelô, é triste um vaso sem nada, inútil. Ela se recusou, tinha 
suas idéias. As colunas ficaram. 
Apesar de factício, o café cheira bem. Neste mundo não existe 
nada mais desenvolvido que a indústria de cheiros artificiais. Pe-
na que não consigam eliminar essa atmosfera fedida que domina a 
cidade, a maior parte do tempo. Todavia, o gosto do café é nada, 
só cheiro mesmo. 
Tocam a campainha, o homem que costuma se sentar à Ponta da me-
sa vai atender. Demora-se. Vozes abafadas. Volta com um papel na 
mão, sorriso irônico. Ele não precisa dizer, sei que foram os vi-
zinhos outra vez. O que estarão tentando? O homem me estende o pa-
pel. 
\u2014 Uma intimação. 
\u2014 Para quê? 
\u2014 Para nos apresentarmos ao Distrito. 
\u2014 Fazer? 
\u2014 Um depoimento. Diz que precisamos levar nossas Carteiras Pro-
fissionais, provar que estamos empregados. 
\u2014 E se não provarmos? 
\u2014 E eu sei? Só que não vamos lá. É só a gente sair, os vizinhos 
arrombam a porta e se instalam. 
\u2014 E a intimação? 
\u2014 Deve existir milhares. Todo mundo denunciando todo mundo. E-
les expedem, mas não devem ter tempo de verificar. Temos que jogar 
com a sorte. O bom do caos é isso, a ausência de controle, em to-
dos os setores. O homem que está despachando intimações ganha para 
sentar-se à máquina e despachar. 
\u2014 É, mas você se esquece que os denunciantes devem estar em ci-
ma, fiscalizando. Eles fiscalizam de graça, portanto o governo não 
precisa manter fiscais. 
\u2014 Não adianta. Se você não é fiscal, não tem autorização para 
fiscalizar. Cada Departamento age dentro de sua competência. 
\u2014 Mas você pode comprar os fiscais. 
\u2014 Isso pode. Aliás, só funciona assim. Eles compram e a gente 
recompra. Quem pode mais, chora menos. 
\u2014 Então, não vamos. 
\u2014 Pode rasgar isso. 
\u2014 Quanto papel jogado fora. 
\u2014 É uma indústria organizadinha. Gente que vive de reciclar pa-
pel para o governo. Gente que imprime para o Esquema. Eles subor-
nam os oficiais, para que estes intimem. E gastam papel. É todo um 
ciclo, por isso ninguém liga, as intimações são pró-forma. 
\u2014 Tenho medo. Quando é coisa oficial, nunca se sabe. 
\u2014 Você está sempre com medo. Se solta, velho. Descontraia. 
\u2014 Não sei, as coisas corriam bem, normais. De repente, não te-
nho onde me segurar, fico nervoso, assustado. 
\u2014 Pois é, entendo bem. É toda a sua classe. Quando as grandes 
calamidades passaram a acontecer, ninguém ficou nervoso, ninguém 
moveu uma palha. Agora, estão assustados. 
\u2014 Você vive pregando sermão. Como se fosse o bom. Não me enche, 
tá bem? 
Aborrecido, dono da verdade, vomita regras, não suporto este 
sujeito por isto. E não porque se apossou de minha casa. Para cada 
situação tem um conceito, formula uma hipótese, sabe a resposta, 
emite uma sentença. E bobo sou eu que fico em dúvida, aceito o que 
ele me diz, me questiono. 
\u2014 A que horas vem a tal camionete? 
\u2014