nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.102 seguidores
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os próprios bolsos. Se quisessem saberiam governar. 
No entanto, o Esquema estava manipulado de modo que os postos se 
mantivessem entre eles inacessíveis a qualquer cidadão. Ora, estou 
chovendo no molhado, um professor de história sabe disto melhor do 
que eu. Afinal, sou apenas um operário esclarecido. Ao menos, me 
considero um produto daqueles homens ótimos e lúcidos, extermina-
dos no Período dos Mentirosos Crônicos. Meu pai desapareceu naque-
le tempo, engolido. Bem que os Operários Esclarecidos tentaram se 
movimentar, se arregimentar, abrir as cabeças dos trabalhadores. 
Os Mentirosos Crônicos castraram as lideranças, sufocaram os re-
beldes, amaciaram os dúbios, compraram os fracos, enganaram todo 
mundo. Novidade nisso? Nenhuma. Posso dizer que sou um Operário 
Esclarecido, porque não comecei como trabalhador comum. Fiz uni-
versidade, peguei meu diploma de sociologia e caí no vazio. Procu-
rando emprego, procurando. Cata daqui, pega de lá, acabei na orga-
nização do pessoal numa tecelagem média do Alto São Francisco. O 
rio tinha entrado em agonia, após anos de devastação em suas mar-
gens. Eliminada a cobertura vegetal, vieram as erosões, o escoa-
mento superficial aumentou, assim como o assoreamento dos rios, 
barragens e cursos de água. Quando o São Francisco se reduziu a um 
filete tentando sobreviver na areia quente, o povo ficou maluco. 
Com razão. Açudes secos, barragens vazias, o gado morto na caatin-
ga, o sol esquentando, crianças morrendo. Elas não resistiam. A 
Grande Época dos Dêís coincidiu com o fim das crianças no Nordes-
te. Elas foram exterminadas antes que o Esquema iniciasse o pro-
cesso geral da esterilização do povo, por causa dos acidentes com 
usinas nucleares. Havia dias em que a fábrica era um forno medo-
nho, pessoas desmaiando, sufocadas, suando em bicas, se desidra-
tando. Eu indagava onde íamos parar. Não havia possibilidade de se 
deter nada, era um processo bola de neve, desencadeado muitos e 
muitos anos atrás. Modificar o clima? De que jeito? Empurrar o sol 
para cima? Era o que dava vontade, para se livrar da quentura que 
arrancava a pele, ardia a cabeça, torrava os pés. A terra era a-
reia, ou pedras. Me batia o desespero, por não poder mover uma pa-
lha. Colocar de novo as montanhas no lugar, plantar a mata, puxar 
água do fundo da terra e transformá-la em rio? Tá brincando? Es-
tou, é o jeito. Chegar ao governo e denunciar. Denunciar o quê, 
estava tudo denunciado. E acaso não foram as denúncias que condu-
ziram aos Tempos Lamentáveis das Imensas Escamoteações, quando o 
Esquema mentia e enganava, fazia, desfazia e negava? Há anos os 
governantes se isolaram, inacessíveis, inabordáveis, imunes a 
qualquer contacto com a população. Adiantava falar com as pessoas, 
pobres coitadas, preocupadas, e como, com o trabalho, a comida, o 
dia a dia? Elas me perguntavam: "Está bem, o que a gente faz? Pára 
de trabalhar? Reclama com o patrão e é despedido? Organiza um mo-
vimento, assina um manifesto?" Tinham razão, quantos movimentos 
foram planejados e boicotados? E os milhares de manifestos que es-
tão arquivados, se é que estão, no túmulo da memória nacional? O 
problema era não provocar demissão. A perda do emprego significava 
morte para a família inteira. Estar na fábrica representava uma 
cota de água, mínima, um salário vergonhoso, a garantia da maloca 
em que se morava. A insegurança era imensa, quem estava desempre-
gado fazia tudo para arranjar um posto. Tudo. O que amanhecia de 
gente morta nos terrenos, nos subúrbios das cidades, era inacredi-
tável. Criaram-se patrulhas destinadas a recolher cada manhã os 
corpos. Percorriam os arrabaldes e traziam os cadáveres dos assas-
sinados com paus, pedras, peixeiras, tiros, socos, pontapés. Havia 
fossos em volta das fábricas, em torno de qualquer lugar onde hou-
vesse gente trabalhando. Valas, como na idade média, cercando cas-
telos. Os empregados eram escoltados para suas casas e até patru-
lhas se viam atacadas, porque vigia e segurança também eram pro-
fissões. Percorri a caatinga, manhãzinha, e sofria enjôo, ânsia de 
vômito, a cabeça latejava. Me lembro de um velho filme, célebre no 
passado, que a televisão reprisa, você deve ter visto. Chama-se E 
o Vento Levou e tem uma hora que a câmera sobe, numa estação fer-
roviária e mostra o chão coalhado de mortos. Cena fantástica, 
clássica no cinema. Jamais se tinha visto tanto morto junto. Coisa 
de filme, se dizia. Hoje sei, não é. (Ouço, pensou Souza, com o 
mesmo horror com que li a história da primeira cruzada sobre Jeru-
salém. Cada palavra de D'Agiles, o historiador, me ficou gravada. 
De repente, estava tudo reproduzido, não no ano 1099, mas na en-
trada do século vinte e um, No templo e no pórtico de Salomão ca-
valga-se com sangue até o joelho do cavaleiro e até nas rédeas do 
cavalo.) Depois de algum feriado, a violência era maior, não sei 
se pela bebida, se por causa do descuido. Ninguém suportava ficar 
em casa o tempo inteiro, sem sair nunca. Viver prisioneiro. Morar 
entre quatro paredes, ir para o emprego em furgões blindados, en-
cerrar-se na fábrica por doze horas, temer a chacina diária. Con-
viver a cada instante com a possibilidade de morrer, preparar-se. 
Fomos nos habituando, de tal modo que passamos a pactuar com a 
tragédia, aceitando-a como cotidiano. Me espanta essa capacidade 
de acomodação da mentalidade, sua adaptação ao horror. Acredito 
que a gente possua um componente de perversidade que nos leva a 
encarar como normal esse pavor, a desejá-lo, às vezes, desde que 
não nos toque. Uma porcentagem de perversidade que tem sido ali-
mentada pelo Esquema, essa coisa tão abstrata, que consegue se 
manter em meio à anarquia, ao caos estabelecido como ordem, à ano-
malia mascarada em progresso. Não me interrompa, me deixe falar, 
botar para fora, vomitar o que vi e engoli e aceitei. Me sentia 
como os judeus caminhando ordenadamente para os fornos crematórios 
de Auschwitz, Dachau. Conhecedores e impotentes, esperançosos, até 
a hora do forno, na expectativa de que o fogo se apagasse, o gás 
perdesse o efeito mortífero, os aliados chegassem para salvar. Aí 
é que me pergunto, podemos lutar pela salvação, isolados, indivi-
dualizados, ou temos que contar com auxílios exteriores, amparo? 
Fizeram tudo para massificar, ao mesmo tempo que isolaram cada 
pessoa em si, tornando-a ferozmente individualista, fechada para o 
outro, sem apoio e sem querer apoiar, medrosa da própria persona-
lidade. Você me acha louco, sinto no jeito com que me olha. Pode 
ser que seja. Prefiro estar. Minha vontade é que tudo isto seja 
mentira, delírio. A viagem pelas estradas, à noite, derreteu meu 
cérebro, fui deixando os miolos em fiapos pelo caminho. Tudo que 
tenho dentro é uma nuvenzinha leve, sombra do que foi uma cabeça 
que raciocinava, me fazia agir. Acho que procuro desculpas, para 
não carregar um grande peso. Eu olhava aquele Nordeste devastado, 
campo de batalha medieval. Horrorizado a cada novo dia, porque o 
sol se levantava sobre o sangue seco das pessoas mortas no escuro. 
Porque eram pessoas que tinham emprego. E cada morte representava 
uma vaga, disputada violentamente nos portões das fábricas, numa 
guerra surda, não disfarçada, consentida e incentivada pelas em-
presas, ignorada pelo Esquema. Na minha cabeça ressoavam as pala-
vras de Isaías: Torna insensível o coração deste povo, endurece-
lhe os ouvidos, e fecha-lhes os olhos, para que não venha ele a 
ver com os olhos, a ouvir com os ouvidos, e a entender com o cora-
ção, e se converta, e seja salvo. Então eu disse: Até quando Se-
nhor? Ele respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem 
sem habitantes, as casas fiquem sem moradores e a terra seja de 
todo assolada e o Senhor afaste dela os homens e no meio da terra 
seja grande o desamparo. Estava previsto. Oh! Povo meu! Os que te 
guiam te enganam, e destroem o caminho por onde deves seguir.