nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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Tudo 
ali, dois mil anos, escrito e repetido, finalmente realizado. Tire 
daí o que se refere ao senhor e a ficção científica se concreti-
zou. Engraçado é que fugimos de lá, viemos para cá, e encontramos 
a mesma coisa. Empregados contra os desempregados, na guerra mais 
violenta desde a do Paraguai. E sobre tudo o sol. A impressão é 
que ele desce milímetro a milímetro. Não sei se é possível, não 
sei nada de ciência. Possível ou não, a gente olhava para cima e a 
cabeça estourava, os olhos lacrimejavam. Começou a ficar impossí-
vel sair de casa. As pessoas passaram a usar chapéus, e não adian-
tava. Veio o tempo de guarda-chuvas. Alguém descobriu que o sol 
não atravessava guarda-chuvas de seda preta. Só os de seda. Outro 
pano não resistia. Dois, três dias de uso, o pano se esfarelava. 
Menos a sede preta. Ela resistia, protegia, formava uma sombra a-
gradável. Não me pergunte por quê. Não me pergunte nada. Ninguém 
me respondeu, ninguém responde coisa alguma neste país. Havia ou-
tra situação estranha, curiosa. As regiões de quentura. Verdadei-
ros bolsões em que era impossível ficar, passar, atravessar. Você 
ia andando, mergulhava naquele calor insuportável. Corria, tentan-
do escapar, porque às vezes o bolsão era pequeno, a gente se li-
vrava logo. No fundo, era um divertimento. Dramático, mas engraça-
do, porque subitamente alguém a sua frente punha-se a pererecar, 
gritar, voltava correndo. Voltavam todos, sabia-se que era um bol-
são. Mais tarde, quando fizemos a grande travessia, vimos que os 
bolsões existiam por toda a parte. Eram imensos, em certas regi-
ões, estendiam-se por quilômetros. Até que chegou o Tempo Intole-
rável. Não dava mais para se expor ao sol. Você saía à rua, em al-
guns segundos tinha o rosto depilado, a pele descascava, a queima-
dura retorcia. A luz lambia como raio laser. Como o tempo, o peri-
go nos bolsões de soalheira, como o povo chamava, aumentou terri-
velmente. Quem caía dentro, não se salvava. O sol atravessava como 
verruma, matava. Ao menos, era a imagem que a gente tinha, porque 
a pessoa dava um berro enorme, apertava a cabeça com as duas mãos, 
o olho saltava, a boca se abria em busca de ar. Num segundo, o in-
feliz caía, duro, sem contorcer. A gente via, a alguns passos, a 
pessoa murchando, secando, desidratada, a pele se desgrudava como 
folha seca, mais um pouco e os ossos dissolviam. Não acredita, não 
é? Nunca ouviu falar disso. Ninguém falou, a imprensa jamais noti-
ciou. Os cientistas foram estudar e ficaram perplexos. Apenas con-
seguiram determinar que os bolsões aumentavam gradualmente, em 
porcentagem semanal. Fizeram mapas, a população recebeu gráficos, 
mudaram o trânsito das ruas, as pessoas se deslocaram, alteraram 
estradas. As crianças brincavam, empurrando cachorros e gatos para 
dentro dos bolsões. Até que os animais se transformaram em comida 
e não se deixava mais desperdiçá-los. Os Civiltares utilizavam os 
bolsões como castigo. Jogavam presos, desafetos, inimigos, sub-
versivos, na Soalheira e esperavam. Desaparecido o corpo, sem tes-
temunhas, não há crime, diz a lei. Para conseguir confissões amea-
çavam as pessoas, no limite dos bolsões: Fala, ou te jogo aí. Fa-
lavam. Claro, os bolsões à noite desapareciam. Deve ser aquele fe-
nômeno comum ao deserto. Quente de dia, frio de noite. As famílias 
andavam pelas ruas, cercanias da cidade, em busca das cinzas de 
parentes que imaginavam consumidos. Não havia como reconhecer 
quem. Guiavam-se por conhecimentos relativos, baseando-se em dados 
frágeis: a mãe que tinha mandado o filho à venda, recomendando 
cuidado com o bolsão da praça. O pai que tinha ido ver um leilão 
de carne-seca nos arrabaldes. A filha que tinha ido à loja. A tia 
que tentava visitar uma avó. Namorada querendo se encontrar com 
namorado. Procura inútil, todo mundo sabia. Ninguém seguro que es-
tava levando para casa as cinzas certas. Podia ser um bezerro mor-
to, se bem que bezerro fosse coisa rara, preciosa. Na verdade, 
ninguém suportava ficar dentro de casa. Saíam à noite e se encon-
travam. Os amigos ajudavam na procura. Ninguém saía só, formavam-
se grandes grupos, com medo de ataques dos Caçadores Implacáveis 
de Empregados. Passeios temerosos, as pessoas sobressaltadas. Se 
alguém avistava um grupo, desviava-se logo. E o que se via, se pu-
desse ser visto do alto, era quase um balé, gente indo, vindo, 
desviando, voltando, encontrando outro grupo, se afastando, rode-
ando, andando de costas, girando. Maluquice, seu! Alguém suporta 
tensão destas? Até que ninguém mais saiu. De dia, ou de noite. Nem 
aqueles que tinham guarda-chuvas de seda preta. Não confiavam na 
invulnerabilidade. Também, não adiantava sair. Estava tudo fecha-
do. O padeiro não fazia pão, não existia farinha, nem mesmo a fac-
tícia. Os bares esgotaram estoques. A farmácia não tinha nem com-
primido. Os fornecedores não chegavam, previa-se que eram apanha-
dos pelos bolsões, em algum ponto da estrada. Os açudes esvazia-
ram. Quem trabalhava podia se abastecer na subsistência das fábri-
cas, no entanto mesmo estas, apesar de muito estoque, começaram a 
esvaziar. As pessoas se divertiam um pouco jogando pelas janelas 
os restos de comida, se é que sobrava, o lixo das casas, os pa-
péis, bobaginhas. Às vezes, o lixo se incendiava em pleno ar, an-
tes de cair. E então, não houve mais possibilidade de viver. O po-
vo resolveu fugir. A vida intolerável. Sabe o que a gente fazia 
quando estava apertado, barriga solta? Esperava a noite, ia lá fo-
ra. No dia seguinte, o sol incinerava. As noites eram escuras, a 
energia tinha se esgotado. Verdade, chegaram ao Nordeste alguns 
geradores de energia solar. Sabe com quem ficaram, não sabe? Com o 
que sobrou dos coronéis, das famílias que mandavam, daqueles liga-
dos às Multinter. Puxa, você deve estar pensando, não havia mais 
nada de bom? Tinha, a vontade daquele povo de viver, não se entre-
gar. Por isso, começou a sair. Uma decisão automática, inconscien-
te, maciça. Os grupos começaram a partir à noite, protegidos pelos 
Caça Empregados. Para eles, quanto mais gente se fosse, melhor. 
Instigavam, açulavam. 
\u2014 O quê? Açulavam? 
\u2014 É, açulavam. 
\u2014 Açulavam mesmo? 
\u2014 Está estranhando o quê? 
\u2014 Faz, no mínimo, sessenta anos que ninguém usa esta palavra, 
achei engraçado. 
\u2014 Ah, vê se me leva a sério. 
\u2014 Levo até demais. Mas que estranhei, estranhei. E daí? 
\u2014 Os Caça Empregados praticamente começaram a obrigar as pesso-
as a migrar. As pessoas esperavam a noite entrar e o calor diminu-
ir. Só alta madrugada refrescava mesmo e aí tudo gelava. Era um 
período relativamente curto, de três, quatro horas. Cada um levava 
sua mala, pacote, saco, gaiola. Havia caixotes que precisavam de 
dois, três para sustentar. Puxavam carrinhos com roupas, quadros, 
estatuetas, bugigangas. Incrível como as pessoas não se desprendem 
das coisas, se apegam a objetos, dependem deles, sentem-se insegu-
ras, apavoradas. A primeira leva foi trágica. Quando a manhã che-
gou, estava em plena estrada, a alguns quilômetros da vila. Veio o 
sol e todos estavam dentro de um bolsão. Perceberam que iam mor-
rer. Olharam em volta, procurando abrigo. A estrada cortava a caa-
tinga, a terra gretada. O asfalto derretido, em bolotas se espar-
ramava para os lados do que tinha sido a pista. Alguns voltaram 
correndo. Um ou dois chegaram e mereciam medalhas de ouro olímpi-
cas pela velocidade. Contaram. Os retirantes viam, aqui e ali uma 
casa, um abrigo abandonado. Se amontoavam, se acotovelavam, pula-
vam uns sobre os outros, disputando a réstia de sombra. Chegavam a 
derrubar a casa de pau-a-pique, tanta gente entrava. Outros cor-
riam, corriam, na esperança de sair do bolsão. Outros ainda colo-
cavam sobre a cabeça o que podiam. Roupa, telha, chapéu, tábua, 
quadro, guarda-chuva. O solo fervia, o chão queimava a sola dos 
pés. E o que se via era a dança mais incrível, todos pulando, os 
pés