nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
245 pág.

nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
Pré-visualização50 páginas
mal tocando o solo e se erguendo, como que impulsionados por 
molas. Pulavam e gritavam de dor. À medida que o dia crescia, a 
dança da morte ao sol aumentava em intensidade. Parecia um ataque 
histérico, um transe coletivo, o santo baixado em todo mundo. Lo-
go, ia diminuindo. O sol comia as roupas, os quadros, guarda-
chuvas que não eram de seda preta. Lambia os cabelos, a pele, as 
carnes, os ossos. Pelas nove da manhã sobravam montes de cinzas 
espalhados pela terra, misturados ao asfalto derretido. Quem tinha 
sobrevivido nos poucos abrigos, esperava a noite para recomeçar a 
marcha. Tinham visto as pessoas se consumirem. Sem orientação, to-
mavam as estradas que iam para o sul. Os gráficos dos Bolsões não 
adiantavam. Os indicados não se encontravam nos lugares, talvez 
fossem realmente móveis. Em compensação, surgiam outros. As pesso-
as sabiam que a caminhada seria cheia de voltas, teriam que con-
tornar as reservas das multinter, territórios proibidos a brasi-
leiros, você conhece bem o assunto. A esperança era que no Centro, 
no Leste e no Sul existissem cidades que o sol não tivesse atingi-
do. 
\u2014 Bom, mas os Bolsões também atingiam as Reservas, não atingi-
am? As empresas afinal não são tão poderosas assim que conseguis-
sem formar uma barreira contra o clima. 
\u2014 Não tenho a mínima idéia. Nunca entrei. Os que moravam lá e 
eram brasileiros foram obrigados a sair e não se sabe o que acon-
tece dentro. O mistério é esse. 
\u2014 Alguém sabe! 
\u2014 Pois é, me mostre esse alguém! Continuo? Está bem. Aos pou-
cos, a multidão engrossava com as correntes vindas de outras cida-
des. Se encontravam nos cruzamentos, no meio dos campos. Atraves-
savam aldeias, a população se juntava. Os doentes permaneciam, fi-
cavam acenando das janelas, das portas. Vi muitas famílias levando 
os velhos para o meio da rua, a pedido deles mesmos. Queriam espe-
rar o dia nascer. Não podiam caminhar, não queriam ficar sozinhos, 
decidiam pelo meio da rua. Colocavam os velhos em grupos, e eles, 
tranqüilos, se punham a conversar, as mulheres de terço na mão, 
esperando o sol. Alguns, não! Gritavam, esperneavam, tentavam a-
companhar o estirão. Muitos acompanharam até o fim, até chegar a 
esta cidade. Todo mundo dizia: "Vamos para a cidade estrela, lá dá 
para viver, comer, trabalhar." 
\u2014 Eu me lembro, meses atrás, quando era permitido, a televisão 
noticiou esta marcha. Filmaram os retirantes de helicóptero e era 
de impressionar a massa que se deslocava. Parecia visita do papa. 
Lembra-se das fotos da década de oitenta, quando o papa visitou o 
país? Aquela multidão que não acabava mais, acalmando. Meu deus, 
como o povo andava necessitado de líderes naquele tempo. Era um 
período de transição, não entendiam que a era dos líderes estava 
acabada, não surgiria mais nenhum. Sentiam-se órfãos, desampara-
dos, sem guia, condutor. 
\u2014 Você está desviando a conversa. 
\u2014 Não, foi só para me lembrar daquele episódio. O ajuntamento 
de povo era muito semelhante, a esperança a mesma. Os historiado-
res deram um nome a essa marcha. A Estirada Ciclópica. Só mesmo 
sociólogos sem o que fazer, intoxicados de ociosidade podiam in-
ventar expressão tão boba. Aliás, há dezenas de anos, as situações 
vêm sendo batizadas, rotuladas, catalogadas. Não nos referimos 
mais aos fatos pelos anos, mas pelo conjunto de situações que se 
abrigaram sob uma denominação. 
\u2014 Denominação, ou não, a marcha, o estirão, foi uma loucura, 
quem chegou é porque era muito forte. 
\u2014 Estou cansado desta conversa. Zonzo de calor. Vamos descer. 
\u2014 Não quer ouvir o resto? 
\u2014 Não. Não acredito muito. 
\u2014 Tenho cara de mentiroso? 
\u2014 Qual é a cara de um mentiroso? 
\u2014 É melhor não saber as coisas, não é? 
\u2014 De que adianta saber? Quero descer, estou suando, me sinto 
mole. 
\u2014 Não te entendo, juro que não. Falta tanto para contar. Não 
disse nada ainda sobre as pessoas com os globos dos olhos suspen-
sos. 
\u2014 Como os Jardins Suspensos da Babilônia? Ou os Desertos Sus-
pensos de São Paulo? 
\u2014 Vamos descer? Temos um monte de coisa a providenciar. Vê se 
providencia essa arrumação. 
Passamos pelos geradores solares. Cada prédio tem o seu, forne-
ce energia para elevadores, lâmpadas de corredores. Parte dessa 
energia, unida àquela que vem do gás do lixo, alimenta os aparta-
mentos. As antenas de televisão e os espelhos dos geradores são os 
símbolos desta civilização. 
\u2014 A neblina azul permanece. O dia vai ser de rachar. 
\u2014 Por que não estendem as cúpulas geodésicas climatizadas sobre 
toda a cidade? Ao menos seria uma forma de manter parte da popula-
ção em boas condições. 
\u2014 Para mim que você pergunta? 
\u2014 Tem uma coisa. Essa neblina é constante. Ela nos acompanhou o 
todo inteiro do estirão. Às vezes mais baixa, outras mais alta. 
Controlávamos a temperatura do dia, nos orientando pela altura da 
neblina. Nunca consegui saber o que significava. Cientificamente, 
quero dizer. Qual a explicação, a relação. Como ela se forma. Ain-
da descubro, pode deixar. 
\u2014 O que viemos fazer aqui? Passear no telhado? 
\u2014 Vim fazer uma inspeção, pode ser que a gente precise usar es-
te terraço, à noite. 
\u2014 Para uma festa de São João, com fogueira e tudo? 
\u2014 Se esquece que tem um homem morto na sua casa? Precisamos nos 
desfazer do corpo de algum modo, e com cuidado. 
\u2014 Quem matou? 
\u2014 Acredite, não foi nenhum de nós. Pode ter certeza. Não sou de 
esconder coisas. Imagina se numa situação destas faz diferença. 
\u2014 E então? 
\u2014 Agora que me desabafei, me sinto de bom humor. Tem coisas que 
não podemos guardar. Envenenam a gente. Aquelas lembranças me pro-
vocavam azia. Evitava pensar nelas. Sabe o que é? Estava tudo com-
primido na cabeça, eu não contava. E era necessário colocar para 
fora, compartilhar, dividir a dor como dizia uma canção de minha 
adolescência. Fui cantor, pode imaginar? 
\u2014 Cantor mesmo? Profissional? 
\u2014 Aos sábados, alegrava o auditório na rádio da minha cidade. 
Assim de meninas me procurando. Venci vários concursos de calou-
ros. Nunca chegou a me ver na televisão? Cantei no último concurso 
de Miss Bahia. 
\u2014 Programas de música não me interessavam. Eu via futebol, no-
ticiário. Minha mulher não perdia novelas. Debates também me pro-
vocavam. 
\u2014 Não, debates, não! 
\u2014 Eu me divertia. Apelidei aquele tempo de A Estéril Época dos 
Inúteis Debates. Falavam, falavam, e nada acontecia. O Esquema 
consentia, havia toda uma fachada, as pessoas se esgoelavam, de-
nunciavam, gritavam. E nada, tudo permanecia estático. Teve um au-
tor que li muito em minha juventude, Cassou, um francês. E ele di-
zia que todos os combates são causas perdidas. Mas que em cada 
combate, o que subsiste é o combate em si, que permanece proprie-
dade do combatente. Entendeu? 
\u2014 Não muito. Enquanto você pensava nessas coisas, o país ia an-
dando, de lado e para trás. 
Este sujeito não gosta de mim. Encontra sempre maneira de me 
colocar na parede, mostrar que estou errado. E ele, um santo, per-
feito. Descemos as escadas infectas. Sinto o suor, a roupa melada. 
Já que as fichas de água sobram, vou mergulhar num chuveiro. 
Tenho fome e uma dor aguda na nuca. Penso no dia que terei pela 
frente. Absolutamente nada a fazer. Me esqueço, é preciso arrumar 
os móveis, ver o que pode ir embora. Me assusto, estou indiferen-
te. São os meus móveis, um pedaço de minha vida que deve se acabar 
esta noite. 
Inútil. Não me comovo. Levar os móveis, os trecos, não me afe-
ta. Queria que me tocasse, me emocionasse. Ainda bem, melhor as-
sim. Nem vou escolher nada, eles levem o que quiserem. Talvez eu 
retire objetos que me lembrem de Adelaide. Onde estará? 
Não tenho idéia por onde começar a procurá-la. Será que venho 
contemporizando de propósito? Me sinto mal, não, não sou assim. Ou 
não quero enfrentar a verdade. Que é simples. 
Não procurei minha mulher. Deixei que se fosse, dei um tempo 
para que voltasse.