nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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dois ou três rios nos tubos, e olha que um deles 
era bruto riozão, mas domamos o bicho, fizemos uma cobertura boni-
ta, toda de cimento, enorme, mas enorme mesmo, o batelão ficou lá 
embaixo, a gente podia ouvir o barulhão pelos respiradouros, pare-
ce que ficou bravo de prenderem ele daquele jeito. Mas podia per-
der tanto espaço que existia em cima do rio? Era o que me expli-
cava meu chefe, nem devia ser só chefe, era homem para ser patrão 
mesmo, dono daquela companhia toda, ele tinha cabeça, boa cabeça, 
cuidava de tudo, direitinho, era um amor por aquelas máquinas, em-
pregado que não cuidasse direito da sua, levava cada uma, multa, 
suspensão, demissão, até mesmo pau, é isso, tinha lá uns camaradas 
gringos que davam cada pau nos empregados. 
Xi, o homem desandou. Tudo por um ovo visto na geladeira dez 
anos atrás. O que fazer para que desligue? Estou com fome, vou 
providenciar comida, apanhar uma dessas latas que enchem o quarto. 
Vontade de uma boa salada de palmito. Com tomate, alface, junto a 
um churrasquinho. 
Quero dar uma espiada no quartinho, ver o barbeiro, tenho medo 
que comece a cheirar. Deve estar se decompondo, com tal calor. O 
melhor seria entregá-lo aos Colhedores Noturnos. O problema é ex-
plicar a morte por faca, vão chamar os Civiltares, fazer a Perqui-
sição Necessária. E então. 
Aquele corpo me incomoda, queria retirá-lo depressa, ninguém 
gosta de cadáver nas proximidades. Nem nas proximidades, nem lon-
ge. Ainda mais uma pessoa que a gente conhecia, com quem convivia, 
e a descobre assassinada. Se bem que o barbeiro era um sujeito sa-
liente, desagradável. 
O que me deixa arrepiado, na verdade, não é o cadáver ali joga-
do. É pensar que um destes homens é assassino. Não tem outra ex-
plicação. Mas por que o barbeiro? Um homem aborrecido, apenas is-
so, só perturbava com seus pedidos, ansioso por uma mordomia, que-
ria mamar em todas. 
Todo mundo quer, é a única alternativa de sobrevivência. Vive-
mos dentro de uma charada, quem soluciona ganha o direito. Encon-
trar a forma de rachar o Esquema. Descobrir uma brecha. Nada é 
permitido, tudo é consentido. Foi a fórmula aplicada, para que o 
país não estourasse. 
Solução de emergência, proclama. Vivemos nela há dez anos, me-
nos ou mais, não sei. Acabei como Adelaide, me isolando da conta-
gem do tempo, alheio aos seus limites. Tudo se dissolveu na dese-
quilibrada soma de dias e semanas, horas e meses. As barreiras fo-
ram estouradas. 
De repente, me dou conta de que estou dentro de uma armadilha. 
Construída com inteligência, ou acidental? Dificílimo de se deter-
minar. Com os meios que têm em mãos, e o controle que exercem, e-
les podem ter provocado esta fissão nas fronteiras convencionais 
do tempo. 
Como recurso para dissimular as barreiras físicas, concretas, 
que ergueram em torno de nós. Os limites da cidade, as zonas neu-
tras impostas entre o Urbano e os Acampamentos Paupérrimos. As fi-
chas de circulação que impedem de transitar, penetrar nos bairros 
da redoma. 
As Bocas de Distrito que nos seguram. Sim, sim, tudo teve que 
ser organizado, a fim da vida seguir normal, o caos não se insta-
lar. Que idéia eles fazem do caos? Gostava de saber. Tenho que 
pensar nisso, recompor a minha cabeça, talvez discutir com Tadeu 
Pereira, é um homem lúcido. 
Está muito claro o objetivo. Eliminar a linha divisória que de-
marcava o tempo e ao mesmo tempo nos impor balizas estreitas a fe-
char nosso espaço físico. Aí é que estava a confusão, repousada em 
sutileza. E explicava a divisão que permanecia em nossas cabeças, 
incoerência obscura. 
\u2014 Ei, você não está prestando atenção. 
\u2014 Estou com fome. 
\u2014 Ainda não te contei o melhor. 
\u2014 Conta depois. 
\u2014 Não sei se vou estar com vontade depois. 
\u2014 Não sei se estou com vontade de ouvir agora. 
\u2014 Você é um velhote chato. 
\u2014 E daí? 
\u2014 Quero te contar das barragens que ajudei a fazer, lindo mes-
mo, fechamos quase todos os rios deste país, fizemos cada lago que 
parecia mar mesmo. 
Estou de costas, ele matraqueia. Saio da cozinha com salsichas 
num pão de estranha coloração marrom, enganosamente macio. Cada 
vez que mastigo sanduíches, minha ponte se desloca. Ainda bem que 
o gosto não é dos piores e o cheiro é de pão fresco. Artificial, 
mas gostoso. 
Vou para o quarto, pensei em eliminar a cama, ocupa muito espa-
ço. Posso dormir num sofá, arranjo um saco de campanha. Olhei para 
o baú, em cima do guarda-roupa. Olhei para lá, nem sei dizer por 
quê. Foi automático. O baú de vime já escuro. Ah! Estava aqui e 
não no quartinho da empregada! 
Velho baú inviolado. Me sinto como ele, repleto. Qual a serven-
tia do que foi empilhado dentro de mim? Para saber, é preciso sa-
car fora. Olhar, mandar ao lixo o desnecessário. Mas se o que está 
dentro foi sucata tantos anos, se jamais teve serventia, terá ago-
ra? 
Duvido. Trastes velhos se jogam ao fogo, só ocupam lugar. Posso 
abrir o baú de Adelaide, ver o que tem, por que ela guardou tão 
misteriosamente. Não que houvesse proibição. Apenas uma vez me 
disse: "São coisas minhas, preferia que você não mexesse". Obede-
ci, por que não? 
E então, enquanto subia na cadeira, uma decisão me veio à cabe-
ça. Fria, tranqüila. Resolvi limpar a casa inteira, arrasar as pa-
redes, esvaziar armários, eliminar duas presenças. Ao mesmo tempo, 
vi que seria desonesto com Adelaide se abrisse o seu baú secreto. 
Abrir para quê? O que posso descobrir nesses pacotes de papel 
pardo? Cartas a um amante? Um diário? Velhas fotografias? De que 
adianta penetrar neste passado de Adelaide, se ela mesma é passa-
do? Deixar o que está para trás. Se eu a reencontrasse, iria ser 
muito diferente. 
Claro, se ainda houvesse possibilidade. Um encontro real. Fico 
imaginando como levei anos preso a um cheiro de groselha, enquanto 
a vida verdadeira girava ao nosso redor. Tudo acontecia, se trans-
formava, e eu estava somente à espera da noite e do cheiro de gro-
selha. 
Imaginava que a vida fosse feita por estes detalhes. Uma colcha 
de retalhos, quebra-cabeças, lajotas que compunham um piso quando 
reunidas. Jamais tive capacidade para aprender o mundo como um to-
do, em sentido abrangente. Fui colecionando trechos, momentos, 
partículas, instantes. 
Quando concentrei tudo, deu em quê? Ao codificar minha vida, 
faltavam elementos essenciais. Abandonei o vital, iludido. Entre o 
cheiro de groselha que vinha perfumado da boca de minha mulher, à 
noite, e as mãos que tocavam piano, preferi a groselha. Puro enga-
no. 
Se eu me mantivesse acordado, talvez pudesse sentir, logo de-
pois, o seu hálito verdadeiro. O cheiro humano, efetivo, não pro-
duzido por uma droga factícia, comprada na farmácia. Convivi com a 
distorção, aceitei-a como realidade. Também, já perdemos o concei-
to de real. 
Não estou querendo me justificar. Só que tenho o direito de me 
admitir confuso, sem coordenadas onde me apoiar. Delírios, conti-
nuo pensando sem parar, abafado, os pés inchados. Nunca tive pé 
inchado. E de ontem para hoje os sapatos não me servem mais, aper-
tam. 
Fico a imaginar se tenho o direito de abrir o baú. Não é sim-
ples assim, basta levantar a tampa e arrancar os pacotes. Não é o 
problema se Adelaide vai voltar, ou não. Havia um acordo entre 
nós, e ele vai continuar. Um mínimo de lealdade. Destruir o baú, 
sem olhar dentro. 
Quantas vezes subi na cadeira e colocava ordenadamente os paco-
tes pardos que ela passava. As instruções eram precisas: "Este la-
do para cima, a fita para a esquerda". Por que será? O baú cheira-
va naftalina, todos os meses fazíamos uma revisão contra ratos e 
baratas. 
Ela entregava o pacote, me olhando. Se houve uma coisa bonita 
nela, era o jeito de me contemplar. Gratificante. Os olhos meio 
abaixados, mas vendo tudo. Parecia tímida, envergonhada. Pelo jei-
to de olhar gostei dela, naquele balcão em que derramei a groselha 
perfumada.