nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.103 seguidores
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Sempre tive pavor de quem me olha diretamente. Gente que enca-
ra, obriga a olhar também. Nunca consegui, desde criança, fazer 
aquela brincadeira de jogar a sério. Eu perdia sempre. Quando vi 
que ela me olhava baixo, me observando sem que eu percebesse, me 
apaixonei. 
Podem achar que minha cabeça é louca, mas é a que eu tenho, ú-
nica. Prefiro que ela fique aí, bem firme em cima do pescoço, pen-
sando suas coisas. Engraçado, minha vida com Adelaide teve uma sé-
rie de rituais, posso sentir o quanto estávamos presos a eles. 
Mantínhamos. 
Agora, por exemplo, me sinto só diante desse baú. Porque jamais 
mexi nele sem ter Adelaide ali embaixo, ao meu pé, me entregando 
os embrulhos. Quando eu descia, passava a mão nos ombros dela e 
íamos para a cozinha. Como se fôssemos para uma festa, comemora-
ção. 
Era uma comemoração, à nossa maneira. Vivíamos muito dependen-
tes um do outro, nos bastávamos. Estávamos bem, mesmo dentro do 
enorme silêncio que nos envolvia, vez ou outra. Na cozinha, fazía-
mos um chá preto (ela detestava o mate) e Adelaide abria a lata de 
bolinhos. 
As latas enchiam uma prateleira da cozinha. Cada dia, ela fazia 
um bolo novo, uma bolacha, biscoitinho. Redondos, retangulares, 
estrelados, quadrados, triangulares, furados no meio, com açúcar 
cristal em cima, com geléia no meio, recheados de queijo, ou goia-
bada. 
Cada lata, cuidadosamente vedada, para conservar os biscoitos 
sequinhos, crocantes. Eram abertas em dia certo, num rodízio. 
Quando vinham visitas, o que era muito raro, a mesa se enchia de 
bolachas de todos os tipos, caprichosamente arranjadas em prati-
nhos de sobremesa. 
Café, leite e chá preto. Quando estávamos noivos ainda, ela pe-
diu para que a casa tivesse um fogão a lenha. Sonho que tinha des-
de criança. Vinha desde o fogão da avó, sempre aceso, a chapa 
quente, aquele cheiro de madeira queimada e fumaça tomando a casa 
inteira. 
O que custava satisfazer as nostalgias? Se ela quis, assim foi 
feito. Morávamos num bairro, casa pequena, sempre gostosamente a-
quecida. No inverno, era só fechar tudo, deixar o calor invadir os 
cômodos. Imagine que loucura um fogão desses hoje em dia, dentro 
dessa fornalha. 
Eram diferentes os assados, as frituras, o arroz, o feijão pre-
to na panela de barro. Hum, que me dá água na boca! Nem é bom lem-
brar tais coisas. Aliás, nem adianta lembrar, mas que era bom, e-
ra. Tinha suas inconveniências. Arranjar lenha ficou cada vez mais 
difícil. 
Impossível. Uma hora, não teve mais. Na minha rua, no interior, 
criança ainda, eu via todos os dias a carrocinha do lenhador pas-
sando, fazendo entregas nas casas. O depósito era perto, a moleca-
da brincava entre as pilhas de paus. Fazíamos cabanas e trinchei-
ras. 
Roubávamos paus para as fogueiras de São João e Santo Antônio. 
Era uma operação complicada, nessa época, o lenhador ficava de o-
relha em pé, vigiava o depósito dia e noite. Formávamos um grupo 
de despistamento e outro que surrupiava a madeira, passando por 
baixo da cerca. 
Depois, a carroça começou a espaçar entregas. O depósito vivia 
quase vazio. As pessoas começavam a comprar fogão elétrico. Um di-
a, apareceram na cidade os bujões de gás. O lenhador vendeu burro, 
carroça, foi-se, o terreno virou depósito de materiais de constru-
ção. 
Meu pai que conhecia bem o negócio de mato e lenha disse, no 
dia que trouxeram nosso fogão a gás: "Agora, em volta da cidade, 
só tem pasto e cana. Não existem mais árvores, nem essa vegetação-
zinha raquítica de cerrado. A lenha vem cada vez de mais longe, 
fica muito cara". 
Adelaide não gostou, quando, após um ano e meio, tivemos que 
nos mudar. Iam construir um conjunto habitacional, estavam com-
prando tudo em volta. Ficamos pressionados. Resistimos. Os trata-
dores arrasaram a terra à nossa volta. Ficou a nossa casa, solitá-
ria num descampado. 
Caminhões e máquinas destruíram a rua. Carros-pipa trans-
formavam tudo num lodaçal. Colocavam tabuletas: Desculpem o incô-
modo, estamos trabalhando para o futuro da cidade. Britadeiras 
chegavam à noite para quebrar pedras descarregadas durante o dia, 
como que por acaso. 
Bate-estacas funcionavam permanentemente. Inútil telefonar para 
as administrações regionais. Gravações eletrônicas atendiam, ano-
tavam recados. Holofotes antiaéreos iluminavam as obras noturnas, 
varavam por dentro de casa. Para não internar Adelaide, vendi tu-
do. 
Nem foi venda. Trocamos por este apartamento. O que ela sentiu 
foi perder o fogão a lenha. "Quem sabe dá para fazer um no quarto 
de empregada?" Como se os condomínios não tivessem leis, não fos-
sem regidos por um conjunto de restrições. Ah, minha ingênua Ade-
laide. 
Continuou a fazer seus doces e bolos no fogão a gás. Mesmo 
quando o trigo e outros produtos se tornaram factícios. Verdade, 
diminuímos muito nossos pequenos prazeres, por causa do gás. Não 
que houvesse racionamento. Mas os preços? Quem podia pagar? A si-
tuação melhorou quando ela teve coragem. Para uma coisa simples. 
Coragem de pedir ao sobrinho que fornecesse fichas suplementa-
res. E como ele conhecia os bolinhos da tia, trouxe alegremente. 
Não é à toa que se trata de um Militecno competente, com sua casa 
bem montada. Sua casa? Olha só que coisa mais estranha venho de 
descobrir. Nem acredito, que não dá. 
 
 
SITUAÇÃO COMPLICADA PORQUE SOUZA 
NÃO ENTENDE AS MANOBRAS DO SOBRINHO 
QUE PARECE ESTAR ENROLANDO MUITO 
 
 
Não sei onde ando com a cabeça. A casa do meu sobrinho. Será 
que sou tão desligado assim? Então, Adelaide tinha toda a razão. 
Vai ver, é o sol. A gente amolece, nem se lembra das coisas. Neste 
abafamento, tudo perde a importância. O que interessa é uma som-
bra. 
Um pouco de ar fresco, agüinha gelada. Tenho os lábios racha-
dos, aliás todos nesta casa têm. Não dá para admitir isto. Nem sei 
onde é a casa do meu sobrinho. Ele jamais me convidou. Disse, um 
dia, que mora bem, Adelaide até desconfiava que fosse nos Palácios 
de Acrílico. 
Nem tenho o telefone, o endereço. Se precisasse dele, numa e-
mergência, não teria como chamar. Não, não deve ser nos Palácios 
de Acrílico, onde ficam os superfuncionários. O sobrinho é compe-
tente, mas ainda não chegou aos escalões dos invisíveis mordomiza-
dos, esta nova raça. 
Moleza sem tamanho, me encosto na cama, cochilo gostoso, o ven-
tilador movimenta ar quente, embarco, abro os olhos, tudo quieto, 
imagino um cheiro podre, calmo. 
 
 
\u2014 Como é? Vai dormir quantos dias? 
\u2014 Cochilei um pouco. 
\u2014 Um pouquinho só. Pensamos que tivesse morrido, dormiu um dia 
e meio. Vai ser preguiçoso no inferno, dormir pesado com um calor 
desses. 
\u2014 Um dia e meio. Está maluco, sempre fui de dormir pouco. 
\u2014 Teu sobrinho tá aí, veio providenciar as mudanças. 
Anos atrás me incomodaria ter dormido tanto, perdido tempo. A-
gora, se pudesse, mergulhava no sono e acordava o mês que vem, da-
qui a um ano. Hibernar, como os ursos. Hibernar, não. Veranizar, à 
espera de tempos frescos e confortáveis. É, parece que ainda não 
acordei. 
\u2014 Como é, tio, não arrumou as coisas? 
\u2014 Nem vou arrumar, levem o que quiserem. 
\u2014 A gente escolhe? 
\u2014 Antes preciso saber se não dá para ter minha casa de volta, 
eu sozinho. 
\u2014 Não dá, não. É sobre isso que eu quero falar. Vem mais gente. 
\u2014 Mais? 
\u2014 Quatro pessoas. Por alguns dias. 
\u2014 Que tráfico misterioso você pratica? Vai explicar? 
\u2014 Faço caridade, tio. Abrigo gente que podia morrer sem teto. 
\u2014 Ah, é? E por que não cuida daqueles que estão nos Acampamen-
tos. 
\u2014 Tio, vem me falar dos Acampamentos? Aquela gente está conde-
nada, não dá para contar com eles. Enquanto que estes homens são 
técnicos importantes. 
\u2014 Olha, tem um tipo aqui dentro, um que fica de rádio colado no 
ouvido, que não pode ser técnico nem importante, em lugar algum. É 
um perfeito imbecil. 
\u2014 Quem sabe ele finge? Quem sabe está de orelha em pé,