nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao
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nao veras pais nenhum ignacio de loyola brandao


DisciplinaComunicação Oral e Escrita237 materiais1.102 seguidores
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seguem pelo espaço das 
grandes avenidas. Controlam a multidão. As pás giram com zumbido 
ameaçador. Quando vejo esses besouros metálicos, me vem sensação 
paradoxal de morte e liberdade. Carregam metralhadoras e bombas de 
efeito desmoralizante. 
Lançam redes sobre ajuntamentos, expelem líquidos coloridos que 
paralisam, produzem fumaça tóxica. Têm mil e uma utilidades. No 
entanto, me fascinam. Essa capacidade de estar acima, onipotente. 
Este vôo desconjuntado de ave pré-histórica. Ele tem o poder de 
escapar, partir. 
Os helicópteros são auxiliados, em seu trabalho de controle co-
letivo, pelos respiradouros de gás. As bocas camufladas podem ser 
acionadas eletronicamente a bordo destes aparelhos. Basta utilizar 
os códigos, segundo a região que estejam rondando. Os respiradou-
ros são terríveis. 
Fiquei sem o Sônico, mas logo aparece alguém vendendo. Dos can-
tos de portas, das bocas de lobo, esquinas, tocas, de qualquer lu-
gar, os camelôs ressurgem. Reencontrarão os fiscais, serão perse-
guidos. Imagino, às vezes, que seja um grande jogo, gato e rato, 
para afastar monotonia. 
Tudo funciona como um ecossistema. Um moto-contínuo. Ah, o mo-
to-contínuo de meu parente, o Sebastião Bandeira. Pensando bem, 
teve gente interessante em minha família. Até que tenho a quem pu-
xar, com esta cabeça fantasiosa, um pouco febril demais, me dizia 
Adelaide. 
Adelaide me esperava à porta do prédio. Escondida no corredor 
de entrada, porque não dá para facilitar, com tanta gente desco-
nhecida e estranha. Ainda mais ela que é desconfiada, e medrosa. 
Adelaide se esconde ali, esperando o carteiro. Há anos, aguarda 
uma carta. 
\u2014 Chegou? 
\u2014 Não. 
\u2014 Ainda há de vir. 
\u2014 Estou perdendo a esperança. 
A minha pergunta é automática, como o gesto de acariciar seu 
ombro esquerdo. Suas respostas também. Há anos, trocamos estas 
quatro frases na porta e elas me parecem uma das provas de que há 
coisas imutáveis neste mundo. No dia em que esta carta impossível 
chegar, será o vazio. 
Entramos. Tomei banho, descansei. Como todos os dias. Tentei 
fazer tudo normalmente, Adelaide pressente mudanças mínimas no meu 
modo de ser. Pela entonação da voz, sabe se estou bem, preocupado 
ou alegre. Tem bom ouvido. A mesa estava posta, uma panela no fo-
go. Não quis me sentar. 
\u2014 Você precisa comer. 
\u2014 Não tenho fome. 
\u2014 Nunca almoça direito, precisa jantar. 
\u2014 Está muito quente. 
\u2014 Se não come por causa do calor, não vai comer nunca. 
Ficamos diante da televisão, esperando o início da novela. 
Quando surgiram os letreiros, mostrei o furo. Ela me olhou, in-
quieta. Esperando que eu explicasse, dissesse alguma coisa. Não é 
normal o marido voltar para casa com um furo na mão, como se nada 
tivesse acontecido. 
Adelaide começou a chorar, quando me viu quieto, indiferente. E 
eu parecia disposto a não explicar. Também, explicar o quê? Uma 
coisa que eu mesmo não entendia? Ela não é habituada a aceitar, 
sem que digam o porquê. Tem de ser tudo muito claro. A única exce-
ção é para a religião. 
\u2014 Dói muito? 
\u2014 Não dói nada. 
\u2014 Foi acidente? 
\u2014 Não. Apareceu. 
\u2014 Não, Souza. Uma coisa dessas não aparece. Alguma coisa acon-
teceu. O que foi? 
\u2014 Nada, estava no ônibus e a mão coçou. Quando coçou de novo, 
vi que o buraco estava começando. Quando desci na cidade, o furo 
estava pronto. 
\u2014 O que você está escondendo? 
\u2014 Nada. É a pura verdade, juro. 
\u2014 Você sempre me contou tudo, Souza. 
\u2014 E estou contando. 
Repisaríamos a história a noite toda. Ela remoeria as mesmas 
perguntas. Porque não tem sutilezas. Pensei em inventar uma des-
culpa, arranjar uma história. Nem precisava ser tão verossímil, 
apenas algo que fosse menos obscuro. Que tivesse uma base sólida, 
que parecesse palpável. 
\u2014 Mas não dói nada, nada? 
\u2014 Não. 
\u2014 Você foi ao médico? 
\u2014 Para quê? 
\u2014 Para examinar isso. Quem sabe o médico tem uma explicação. 
\u2014 Não quero explicações. 
\u2014 E fica aí com esse furo? 
\u2014 Fico. Não me incomoda. 
\u2014 É, mas a mim incomoda. 
\u2014 A você? 
\u2014 É, a mim! Vou ficar andando por aí com um homem que tem um 
furo na mão? O que vão dizer? 
\u2014 Ora, Adelaide. Quem é nesta cidade que vai prestar atenção 
num furo? Você tem visto o que anda de gente estranha nas ruas? 
\u2014 Falar nisso, hoje vieram dois carecas horrorosos pedir esmo-
la. 
\u2014 Esmola? Você denunciou? 
\u2014 Dá muita mão-de-obra. 
\u2014 Você sabe como é importante, Adelaide, esta denúncia. É para 
o bem deles. O Esquema cuida. 
\u2014 Estou cheia dessa gente toda, Souza. Nem atendo mais campai-
nha. 
\u2014 Quer dizer que têm vindo sempre? Por que não me contou? Como 
entram no prédio? 
\u2014 Alguém deixa a porta aberta. Ou entram, como os ladrões en-
tram nas casas. Só sei que eles têm vindo, todos os dias, todas as 
horas. 
\u2014 O Esquema não vai segurar, Adelaide. Cada dia, gente nova, 
diferente. Nem sabemos de onde vem. Vi hoje um dos tais carecas. 
Terrível. Parecia de outro planeta. Tive receio dele. Não sei o 
que vai ser, a cidade não comporta mais. Mal dá para andar. 
\u2014 Fazer o quê? Olha, com essa historiada toda, você se desviou 
do assunto. E o furo? 
\u2014 Já disse. Sei tanto quanto você. 
Ela foi ao banheiro, escovou os dentes. Agora, gargareja. O 
gro-gro-gro do líquido na garganta é desconsolador. Adelaide nunca 
dormiu sem fazer o gargarejo com o preparado à base de groselha. 
Pois é, groselha factícia, mas de cheirinho bom e fresco, como a-
quela de criança. 
Adelaide se metia na cama, aroma gostoso na boca. Por instan-
tes, todo o quarto cheirava. Era a compensação pelo gargarejo. Te-
nho aqui comigo que é por isso que todos estes anos jamais dormi-
mos sem um bom beijo. A groselha me tranqüilizava, devolvia Ade-
laide, tal como a conheci. 
Estávamos mudados. Velhos, talvez habituados demais um ao ou-
tro. Vivendo confortavelmente, sem sobressaltos, algumas emoções 
perdidas. Penso que foi a malícia de Adelaide que descobriu essa 
groselha. Como reação. Sabia que a sua imagem estava profundamente 
ligada ao refresco. 
Nos vimos, pela primeira vez, numa sorveteria, em tarde de ca-
lor. Além de muita gente, sempre fui estabanado. Entrei, bati em 
sua mão, o refresco vermelho se espalhou pelo balcão. 
O cheiro ocupou tudo e nos envolveu. Por dentro dessa nuvem de 
confusão, vi o sorriso. 
Isso mesmo, o sorriso dela flutuava naquele perfume de fruta. 
Na minha cabeça se fundiram duas imagens, o vermelho do refresco e 
o branco dos dentes. Este instante não se perdeu, é revivido cada 
noite, nossos rostos encostados aos lençóis, o cheiro de groselha 
no ar, à nossa volta. 
Entrei no banheiro, escovei os dentes. Um colírio para os olhos 
congestionados. A luz do quarto apagada, Adelaide me esperava à 
porta. Há trinta e dois anos, na hora de dormir, só entra junto 
comigo, vou até a cama com a mão em seu ombro. Faz bem aos dois 
este gesto. Temos a nossa tradição. 
Na porta do quarto, olhei para o baú, em cima do guarda-roupa. 
Olhei para lá, nem sei dizer porquê. Foi automático. O baú de vime 
já escuro. A última vez que foi aberto, Adelaide estava grávida. 
Ao menos, pensávamos que estivesse. A barriga crescia, as regras 
foram interrompidas, ela enjoava. 
"Psicológica", disse o médico, e não acreditamos. Estávamos tão 
confiantes. Aquele filho não era planejado, mas gostamos, fomos 
nos acostumando com a idéia. Até que certa madrugada, antes do 
sol, acordei com o piano e a Patética. Nunca tinha visto tanto de-
sespero colocado dentro da música. 
Nem mesmo Beethoven teria imaginado uma Patética mais dolorida. 
Juro, me deu vontade de chorar, ainda deitado. Só de ouvir os sons 
que vinham pelo corredor. Pode ser que eu tivesse intuído o que 
significava aquela música penosamente arrancada do piano. Uma dor 
viva, penetrante. 
Ela estava à banqueta, sem barriga alguma. Não consegui enten-
der. Algo se rompeu em minha cabeça. De um dia para o outro, no 
espaço de uma