Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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guiado pelo poeta Virgílio e pela amada Beatriz. Gilgamesh teve sua 
fantástica epopéia preservada em tabuletas sumerianas muito anteriores a Cristo, o que abre 
oportunidade para relembrar a enormidade de relatos fantásticos e culturalmente impactantes 
em copiosas mitologias e religiões. Os exemplos são infindáveis em qualquer época, 
sugerindo o profundo enraizamento do extraordinário na história da consciência humana; e do 
inconsciente, como lembraria Jung (1958/1988). 
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Embora muitas histórias sejam declaradamente ficcionais e outras tantas se espalhem 
anonimamente, copiosas outras remetem a alegadas vivências diretas. E, em anos recentes, o 
estudo científico de experiências extraordinárias tem se intensificado a partir de esforços 
cumulativos de diversas áreas, especialmente nas ciências humanas e da saúde. Entre os 
agregadores de esforços está a nomenclatura. Tal como definido na Introdução, as 
experiências anômalas se referem a experiências que destoam, em alguma instância, das 
experiências usuais ou do consenso cultural ou científico sobre a realidade, embora sem 
necessária relação com patologia (Cardeña et al., 2000). Ainda de acordo com os mesmos 
autores (p. 3-4), a palavra anômalo deriva do grego anomalos, que significa irregular, 
diferente ou desigual, em contraste a homalos, que exprime o que é igual ou comum. 
Assim, o número e a qualidade das pesquisas sobre experiências anômalas são 
crescentes, abarcando amplo espectro que varia do alegadamente sobrenatural ao bizarro 
dificilmente nominável, passando por episódios de conotação religiosa mais ou menos 
explícita. Entre as principais categorias de anomalias investigadas estão experiências 
alucinatórias12, sinestesias13, sonhos lúcidos14, experiências fora do corpo15, experiências 
psi16, lembranças de vidas passadas17, experiências de quase-morte18, curas anômalas19 e 
experiências místicas20. 
 
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 Experiências alucinatórias se referem a percepções de aparência sensorial sem que haja, externa ou 
fisicamente ao protagonista (dentro do consenso razoável em sua cultura), objetos condizentes com tais 
percepções. Assim, embora sejam bastante conhecidas pelos estudiosos de psicopatologia, as alucinações 
ainda são pouco conhecidas entre populações não-clínicas. Exemplos incluem visões de entidades, locais 
e cenas quaisquer, odores, audição de músicas ou sons quaisquer etc. (Cardeña et al., 2000, cap. 3). 
13
 Sinestesias são experiências em que determinada percepção sensorial emerge involuntariamente e 
associada a percepções sensoriais de outra ordem. Como exemplo, a audição de uma música pode ser 
acompanhada vividamente de uma cor ou sabor (Cardeña et al., 2000, cap. 4). 
14
 Sonhos lúcidos ocorrem quando a pessoa experimenta consciência de uma condição onírica presente, 
i.e., reconhece que está dormindo e sonhando naquele preciso momento, em contraposição à usual e 
involuntária sensação de realidade objetiva do sonho. Não raro, tal consciência permitiria interagir 
deliberadamente com os personagens, enredos e cenários oníricos (Cardeña et al., 2000, cap. 5). 
15
 Experiências fora do corpo são episódios em que a pessoa experimenta sua consciência ou mente 
situada fora de seu corpo físico. Tipicamente, após retornar desta condição, a pessoa reporta ter observado 
seu corpo jazendo inerte abaixo de onde sua consciência estaria, além de ter vagado por outros locais, não 
raro mencionando detalhes ambientais pretensamente impossíveis de serem sabidos, exceto por processos 
anômalos, dado que, fisicamente, a pessoa se encontrava dormindo, em coma ou em condições 
semelhantes de pretenso isolamento sensorial (Cardeña et al., 2000, cap. 6). 
16
 Psi é um construto hipotético utilizado em psicologia anomalística e na parapsicologia para aludir ao 
mediador de supostas interações anômalas de pessoas entre si e com o ambiente, aparentemente sem a 
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Todavia, a história da investigação das experiências anômalas é bastante anterior ao 
conceito anteriormente apresentado. Embora o tema ainda seja em algo marginal na presente 
psicologia, tal negligência nem sempre se verificou. O fisiologista francês Charles Richet 
(1850 - 1935) (citado por Amadou, 1966) elaborou o desenvolvimento histórico da 
parapsicologia21 em quatro fases, que permitem o vislumbre das variações de interesse e 
esforços sobre o objeto de estudo das anomalias (cf. maiores detalhes em Machado, 1996, 
2009). 
 
1. Período mítico (? \u2013 1778): Inicia-se com a própria humanidade, passando pela pré-
história, povos antigos, período medieval, renascentista e revolução científica, e termina com 
o surgimento de Franz Mesmer. O período é marcado por grande interesse e preocupação 
com questões concernentes ao \u201csobrenatural\u201d22, ligadas ao pensamento mágico, à literalidade 
dos ícones e sua poderosa influência sobre a vida cotidiana, à pouca distinção entre realidade 
 
participação decisiva de forças e processos físicos conhecidos, como percepção extrassensorial e 
psicocinese (Cardeña et al., 2000, cap. 7). 
17
 Lembranças de vidas passadas são recordações espontâneas ou resultantes do emprego de técnicas 
especiais (e.g., hipnose) que tipicamente são acompanhadas da convicção, por aqueles que as 
experimentam, de serem vivências pessoais ocorridas em uma encarnação anterior, i.e., em época 
pregressa em que seu espírito habitaria outro corpo e possuiria outra identidade. Tal impressão não anula 
a identidade e história de vida atuais, mas apenas as antecederia (Cardeña et al., 2000, cap. 10). 
18
 Experiências de quase-morte são episódios nos quais, concomitante a intenso perigo físico ou 
emocional, ou ainda a condições próximas ou efetivas de morte clínica, a pessoa experimenta conteúdos 
transcendentais que tipicamente incluem viajar por um túnel em direção a uma marcante luz, encontrar-se 
com pessoas outrora falecidas, rever momentos importantes de sua vida, receber mensagens espirituais, 
entre outros (Cardeña et al., 2000, cap. 9). 
19
 Curas anômalas se referem a pretensas atenuações ou remissões de doenças a partir de processos não-
convencionais como intervenções espirituais, manipulação de energias corporais ou outros processos que 
parecem escapar ao que é cientificamente conhecido (Cardeña et al., 2000, cap.11). 
20
 Experiências místicas são episódios de contornos transcendentais nos quais o protagonista experimenta 
estados alterados de consciência tipicamente (mas não de forma exclusiva) marcados por sensação de 
integração entre o ego individual e o ambiente ou todo o universo, além de paz profunda, sensação de 
lucidez extrema e outras vivências de difícil descrição. Historicamente, as experiências místicas 
contribuíram para o surgimento de muitas religiões (Cardeña et al., 2000, cap.12). 
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 Parapsicologia constitui um termo historicamente reincidente e consolidado na cultura para remeter ao 
estudo (ou tentativa de estudo) científico de experiências humanas inusuais, abarcando significativa 
parcela dos episódios hoje agrupados enquanto experiências anômalas, como fenômenos psi e contatos 
com entidades sobrenaturais (Amadou, 1966). O foco na experiência humana conduzia à psicologia 
enquanto um dos pontos de partida para o estudo do tema, enquanto o prefixo \u201cpara\u201d figura um lembrete 
de que são esforços à margem dos habituais estudos psicológicos. 
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 Isto embora a distinção entre natural e sobrenatural não estivesse clara em períodos anteriores à 
Revolução Científica do século XVII (Machado, 1996). O termo \u201csobrenatural\u201d é utilizado aqui em seu 
sentido amplo. 
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e fantasia, a poderes sobre-humanos, à fusão