Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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com a religião, ao conhecimento divinamente 
presenteado aos humanos através de sonhos, aparições, oráculos e rituais etc. 
Durante o Renascimento, surgiu um interesse erudito por temas ligados à magia, como 
alquimia, astrologia e encantamentos. Com a Revolução Científica, o racionalismo se 
ofereceu como alternativa ao pensamento mágico e lançou bases para o período seguinte de 
compreensão das anomalias. 
 
2. Período magnético (1778-1847): A fase é marcada pelo embate entre a racionalidade 
e o pensamento mágico, tendo a primeira como um famoso representante o médico alemão 
Franz Mesmer (1734-1815). No epicentro das discussões estavam curas praticadas através de 
rituais de fé e \u201cmagnetização\u201d, i.e., a manipulação de um alegado magnetismo naturalmente 
existente nas pessoas, cujo desequilíbrio causaria doenças, segundo Mesmer. 
A postulação da existência de um \u201cmagnetismo animal\u201d refletia uma transição parcial 
entre explicações sobrenaturais e naturais para curas e aptidões psíquicas. As curas efetuadas 
por Mesmer e seguidores, além de outros fenômenos ligados a estados alterados de 
consciência, acabaram por embasar estudos posteriores sobre hipnose, placebo, histeria e o 
poder da sugestão. Embora alterações de consciência e comunicação com espíritos já 
aparecessem conectadas com práticas derivadas de Mesmer, o tema ganhou particular atenção 
na fase seguinte, com as primeiras manifestações espíritas da família Fox. 
 
3. Período espírita (1847-1872): A fase é marcada por manifestações anômalas de 
grande popularidade, que sugeriam o contato entre os protagonistas e espíritos de pessoas 
outrora falecidas. As manifestações incluíam formas diversas de pretensa comunicação, tais 
como escrita automática, levitação de objetos, sons e materializações. Um fenômeno 
particularmente famoso e \u201cparadigmático\u201d era conhecido como \u201cmesa girante\u201d, no qual 
pessoas se organizavam ao redor de uma mesa e essa, inexplicavelmente, exibiria 
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movimentos incomuns e dotados de intencionalidade. Ocorreu neste período o grande 
interesse de Allan Kardec em entrevistar médiuns e lançar os fundamentos do Espiritismo 
atualmente popular no Brasil e em outros países. 
Como marco inicial do período, as notórias irmãs Fox, de Hydesville, Nova York, 
popularizaram o tema do contato com desencarnados, embora controvérsias importantes 
sobre fraudes nas manifestações as tenham marcado. Gradualmente, pesquisadores e eruditos 
começaram a se interessar pela investigação sistemáticas das alegações de contatos espirituais 
e paranormais em geral, tendo como um ponto de partida histórico as tentativas de William 
Crookes. 
 
4. Período científico (1872 \u2013 atual): Inicia-se com Crookes, em 1872, e se estenderia às 
presentes pesquisas. Este período possui fases distintas, como etapas preparatórias ou \u201cpré-
científicas\u201d (Amadou, 1966, p. 57) e as pesquisas sistemáticas do casal Rhine na 
Universidade de Duke, nos Estados Unidos, por volta de 1930. 
Munidos de interesse e de abordagens sistemáticas sobre os episódios, Myers e 
Sidgwick, professores da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, fundaram a Society for 
Psychical Research em Londres, em 1882, a qual agregou diversos eruditos ao longo de sua 
história (Machado, 1996), entre os quais Arthur Conan Doyle, Sigmund Freud, Carl Gustav 
Jung, Monteiro Lobato, William James e o casal Rhine. 
Como características distintivas do período, têm-se os esforços por estudos sob rigor 
experimental, a testagem de hipóteses (pretensamente) erigidas sob o critério da parcimônia, a 
emergência de teorias historicamente influentes na psicologia, a ênfase em explicações 
intrapsíquicas (e.g., patologias, características de personalidade), a gradual (e ainda em 
construção) busca por explicações que também atentem para dimensões psicossociais 
(Zangari & Maraldi, 2009) e o interesse tanto por dimensões ontológicas quanto 
fenomenológicas das experiências. 
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Atualmente, a psicologia anomalística se desenvolve enquanto área de estudo. Núcleos 
de pesquisa científica sobre experiências anômalas têm surgido ao redor do mundo, entre os 
quais a Anomalistic Psychology Research Unit, na Universidade de Londres, Inglaterra, o 
Center for Research on Consciousness and Anomalous Psychology, na Universidade de 
Lund, Suécia, e o Laboratório de Psicologia Anomalística e Processos Psicossociais, na 
Universidade de São Paulo, cada qual multiplicando pesquisadores na área através de 
orientações de pós-graduação, eventos acadêmicos etc. 
Por sua vez, é crescente o número de artigos científicos da área publicados em 
periódicos indexados de psicologia e ciências afins, além de obras historicamente influentes, 
como o handbook Varieties of Anomalous Experience: Examining the Scientific Evidence 
(Cardeña et al., 2000), publicado pela Associação Americana de Psicologia (APA) e a ser 
lançado no Brasil em português ainda em 2011. A obra compila e discute criticamente os 
achados, agrupados em capítulos especificamente dedicados a algumas categorias de 
experiências investigadas pela psicologia anomalística, anteriormente mencionadas. Questões 
metodológicas e conceituais do estudo das anomalias também receberam capítulos 
específicos. 
 
Com a área de pesquisa em crescimento, cumpre sedimentar algumas noções 
iniciais para a pesquisa. Diante dos desafios e da heterodoxia das experiências anômalas 
enquanto objeto de estudo científico, Almeida e Lofuto (2003) sugerem diretrizes 
metodológicas para sua investigação, entre elas: ousar, estudar os fenômenos sem 
compartilhar as crenças envolvidas, levar a sério as implicações dessas experiências e 
não subestimar as razões pelas quais tantas pessoas as professam, evitar o preconceito 
dogmático e a patologização automática do diferente, e distinguir experiências e suas 
interpretações. Assim, torna-se possível conduzir investigações rigorosas sem (ou com 
menores chances de) assumir teorias pseudocientíficas, reconhecer a relevância intra e 
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intersubjetiva das experiências e buscar métodos condizentes com as (por vezes 
radicais) especificidades do objeto de estudo. Como lembrete adicional, relativo à 
revisão de literatura, os autores sugerem a importância de incluir obras produzidas por 
protagonistas das experiências e/ou por grupos de pessoas a elas relacionadas. Essa 
importância reside no fato de que tal literatura apresenta, em primeira mão, a 
perspectiva dos protagonistas e seu círculo social, a despeito do caráter não-científico e 
vieses subjetivos frequentes nos textos. Assim, numerosas variáveis psicossociais 
podem ser ali evidenciadas e exploradas, incluindo percepções, crenças, memórias, 
pressupostos e diversos outros elementos interessantes à análise psicológica23. 
De modo complementar, antes sugeri (Martins, 2010a) que a condução de 
entrevistas no contexto das anomalias necessita atentar para especificidades referentes 
aos comprometedores vieses da patologização, preconceito e ênfase no intrapsíquico, ao 
reconhecimento da alteridade representada pelas experiências, aos desafios à 
subjetividade do entrevistador, à postura diante do entrevistado, aos papéis sociais 
desempenhados por pesquisador e pesquisado, à preparação para a entrevista, ao 
dinamismo da memória, ao retorno ao local da experiência e à consideração das 
dificuldades e imprevistos. Assim, a despeito da estranheza ou mesmo do caráter 
afrontoso das alegações em pauta, a relação estabelecida entre entrevistador e 
entrevistado poderá ser mais franca, ética e produtiva. O entrevistador poderá relativizar 
ou suspender (ainda que temporariamente) suas crenças para adentrar no referencial do 
entrevistado e empregar conhecimento prévio