Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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Voadores\u201d (1947-1989): Enquanto os relatos sobre 
fenômenos aéreos incomuns se acumulavam, especialmente na América do Norte, ao longo 
da década de 1940, um relato em particular ocasionou grande interesse público devido à 
pretensa idoneidade e conhecimento técnico de seu autor sobre fenômenos naturais e 
artificiais celestes. Isso permitiria, na opinião de muitos, rebater a crítica já em vigor de que 
todos os que alegavam visões de óvnis seriam loucos, bêbados, ignorantes ou mentirosos. 
Assim, em 24 de junho de 1947, o piloto civil Kenneth Arnold alegou ter avistado nove 
objetos voadores incomuns sobre o Monte Rainier, em Washington, Estados Unidos. Ao 
descrever que os objetos voavam de modo trepidante, como \u201cdiscos atirados sobre a água\u201d, 
foi disseminado o termo \u201cdisco voador\u201d e inaugurado o que se convencionou chamar de \u201cA 
Era Moderna dos Discos Voadores\u201d (Suenaga, 1999), em oposição ao período anteriormente 
descrito e suas narrativas menos sistemáticas. 
O alarde em torno do ícone \u201cdisco voador\u201d atingiu escala global ainda na década de 
1940, verificando-se o afloramento intenso de narrativas em países de todos os continentes, 
 
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 Para utilizar uma expressão comum entre os contatados, que sustentam haver \u201chumanidades\u201d outras 
disseminadas pelo universo, algumas das quais seriam as responsáveis pelos óvnis. 
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inclusive no Brasil, que logo se tornou uma das nações mais \u201creceptivas\u201d ao \u201cnovo\u201d 
fenômeno cultural (Santos, 2009; Suenaga, 1999). 
Governos e forças armadas de diversos países ocidentais nutriram interesse pelos 
episódios ao mínimo desde a década de 1940, quando era comum se cogitar que os objetos 
vistos seriam veículos secretos russos, em incursões de espionagem e mesmo ataque (Santos, 
2009; Suenaga, 1999). Neste período, surgiram os primeiros empreendimentos sistemáticos 
de investigação das experiências, tanto por iniciativa de Forças Armadas de diversos países 
(e.g., o Projeto Livro Azul [1951-1969], da Força Aérea Norte Americana, e o Sistema de 
Investigação de Objetos Aéreos Não-Identificados [1969-1972], da Aeronáutica Brasileira) 
quanto civis, formais ou não (e.g., o Comitê Condon, da Universidade do Colorado, Estados 
Unidos [1969], e o Centro de Investigação Civil de Objetos Aéreos Não-Identificados, 
em Minas Gerais [1952-±199930]). 
Em obra clássica sobre o tema, escrita na efervescência deste período, Jung 
(1958/1988) reconheceu os óvnis como um mito também propriamente moderno, embora 
sem perder o simbolismo arquetípico. Jung assim os considerou em função das variáveis do 
momento histórico que seriam cruciais para a elaboração tecnológica e beligerante de 
estímulos celestes ambíguos, i.e., o enfraquecimento da religião e a insegurança coletiva em 
função da recém-acabada Segunda Guerra Mundial, da nova tecnologia bélica nuclear e da 
emergência da Guerra-Fria. Vale comentar que, de modo semelhante, Bullard (1989) 
considerou os óvnis como a quintessência das lendas modernas, ao reconhecer nos relatos a 
adaptação de tendências folclóricas universais aos contornos da modernidade tecnológica. 
Acumularam-se, neste período, episódios que se tornariam clássicos na literatura 
popular sobre óvnis, cuja exposição e discussão crítica pormenorizada tornariam a leitura 
exaustiva. Os episódios, aqui com pretensões meramente ilustrativas e nomeados conforme se 
 
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 Não consegui apurar com exatidão a data de encerramento das atividades do CICOANI. Assim, 
arbitrariamente tomei como referência o ano em que se deu, até onde pude apurar, o último evento 
público do qual participou o fundador e principal membro do grupo, o psicólogo Hulvio Brant Aleixo. 
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tornaram famosos, fazem menção a pretensas quedas de óvnis e resgates de seus tripulantes 
(e.g., os casos Roswell, 1947, Deserto de Kalahari, 1989, e Varginha, 1996), abduções (e.g., 
os casos Villas Boas, 1957, Hill, 1961 e Walton, 1975), visões de pretensos óvnis aterrissados 
e tripulantes realizando atividades no ambiente, como coleta de amostras (e.g., os casos 
Sagrada Família, 1963, Zamora, 1964, e Maria Cintra, 1968), entre muitas variações e um 
número muito maior de casos representativos e notórios de cada categoria. 
Conforme menções a entidades aparentemente não-humanas e a episódios mais 
complexos emergiam e se acumulavam, aliados ao imaginário sobre vida extraterrestre já 
constatado no período histórico anterior, a noção de que os óvnis não seriam terrenos se 
popularizou progressivamente. Por sua vez, a mídia massificada, outro elemento 
contemporâneo, demonstrou superlativo interesse pelas experiências e narrativas, de modo a 
ajudar a imprimir no imaginário coletivo em todo o planeta a noção que se tem hoje sobre 
\u201cdiscos voadores\u201d enquanto extraterrestres (Santos, 2009; Suenaga, 1999). A ficção científica 
também desempenhou seu papel, absorvendo e multiplicando vigorosamente os ícones disco 
voador, extraterrestres e afins (Kuhn, 1990; Lucanio, 1987). 
Edificou-se, ao longo das décadas, uma polarização na compreensão das experiências. 
De um lado, entusiastas alcunhados de ufólogos, ufófilos e outras variantes tendiam a 
defender a literalidade das experiências, de modo a tomar como conclusão mais plausível sua 
origem não-terrestre e implementar investigações que, em sua maioria, embora esforçadas e 
bem-intencionadas, podiam ser classificadas como pseudocientíficas (Reis & Rodrigues, 
2009; Sagan, 1996). Como \u201calterego\u201d dos ufólogos (cf. Bullard, 1989), céticos, muitos deles 
ligados ao meio acadêmico, tendiam a desacreditar a importância dos episódios e explicá-los 
rapidamente enquanto farsas ou erros de interpretação de fenômenos conhecidos pela ciência, 
i.e., aviões, balões, astros observados em condições incomuns, alucinações, mentiras simples 
etc., de modo que as experiências óvni não constituiriam enigma algum e não poderiam 
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prover qualquer ganho importante ao conhecimento científico (Sagan, 1996). A dicotomia 
ainda é facilmente verificável, o que inclui debates acalorados e, não raro, pouco educados. 
Embora, de fato, a maior parte das visões de óvnis e alienígenas possa ser enquadrada 
enquanto farsas e, principalmente, erros de interpretação de fenômenos conhecidos pela 
ciência (e.g., Saliba, 1995), uma proporção menor (mas não insignificante) de episódios com 
aparente grau de mistério parece exigir explicações mais complexas (cf. Appelle et al., 2000; 
Dewan, 2006b; Jung, 1958/1988; Martins, 2010b). Ademais, ao longo do período, tornou-se 
claro também que mesmo episódios ordinariamente explicáveis poderiam constituir objetos 
de estudo interessantes sobre vieses cognitivos, crenças e crenças compartilhadas, percepção, 
memória e outros temas de forma alguma esgotados na psicologia e ciências afins (cf. maiores 
detalhes no capítulo 2 sobre a relevância do estudo das experiências óvni). Assim, estudos 
acadêmicos começaram a se tornar mais numerosos. 
Desse modo, sugiro que a polarização da compreensão das experiências ora 
excessivamente entusiasmada, ora aprioristicamente desabonadora, edificou um hiato entre 
aqueles que tinham contato em primeira mão com os protagonistas das experiências (i.e., os 
ufólogos) e aqueles que possuíam conhecimento sistemático para se debruçar sobre o tema 
(i.e., os cientistas), mas que, em sua ampla maioria, pareciam não conceber motivos para o 
esforço. Como um corolário adicional, muitos protagonistas de experiências óvni 
desenvolveram resistência em compartilhar suas experiências com membros do meio 
acadêmico (Mack, 1994; Martins, 2010a), o que constitui ainda hoje um obstáculo a mais 
para a aproximação entre ciência e experiências