Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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fornecer automaticamente explicações satisfatórias. Desde modo, as pessoas agem 
como \u201ccientistas ingênuos\u201d, buscando nexos causais para as experiências de vida a partir de 
sua idiossincrasia e da cultura. Assim, as atribuições se nutrem de crenças prévias, ideários 
difundidos na cultura, emoções, expectativas e outras formas de cognição social. Apenas 
como exemplos ilustrativos de crenças socialmente partilhadas, muitas atribuições partem da 
premissa de que \u201ccada um tem aquilo que merece\u201d ou então de que \u201cnada acontece por 
acaso\u201d. Assim, muitas experiências de vida tendem a ser explicadas, com graus diversos de 
complexidade, a partir dessas premissas por aqueles que compartilham delas. Por sua vez, as 
atribuições causais para os eventos atípicos possuem funções como conferir sentido, controle 
e previsibilidade à realidade, diminuir a ambiguidade, simplificar a experiência, possibilitar 
inferências e fortalecer a auto-imagem das pessoas perante si mesmas e a sociedade (cf. ampla 
revisão em Dela-Coleta & Dela-Coleta, 2006). 
Segundo o pioneiro da TAC Fritz Heider (1958), que se concentrou em compreender os 
julgamentos feitos acerca dos comportamentos, há dois tipos básicos de atribuição de 
causalidade: (1) atribuição interna, i.e., quando é relacionada a disposições de personalidade e 
outras centradas na pessoa, e (2) atribuição externa, que compreende a situação como 
emergente de um contexto onde estão os indivíduos. Assim, a depender de diversas variáveis, 
as pessoas tendem mais a fazer atribuições internas ou externas, ou seja, a atribuir a causa de 
determinado evento às pessoas envolvidas ou ao contexto. Heider sugeriu a preferência em 
nossa cultura por atribuições internas, o que será discutido adiante quando compararmos as 
atribuições feitas pelos protagonistas de experiências óvni e por voluntários do grupo 
controle. 
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Os trabalhos pioneiros de Franz Heider inspiraram outros autores, que pretenderam 
formular um corpo teórico robusto e unificador sobre os mecanismos e processos envolvidos 
na atribuição de causalidade. Entre eles, Kelley (1967, citado por Machado, 2009) propôs o 
modelo de covariação, no qual as atribuições são feitas a partir do confronto entre três fontes 
de informação: (1) consenso, referente ao modo típico das pessoas se comportarem diante de 
um mesmo estímulo, (2) distintividade, que diz do modo como a pessoa cujo comportamento 
está sendo julgado se porta em outras situações, em comparação àquela na qual exibe o 
referido comportamento, e (3) consistência, referente à frequência da associação entre o 
comportamento observado da pessoa em foco e o mesmo estímulo em situações diversas. 
Ainda com Kelley, atribuições internas tendem a ser feitas quando o consenso e a 
distintividade são baixos, mas alta a consistência, ao passo que atribuições externas se seguem 
tipicamente à alta das três fontes. E, finalmente, atribuições situacionais tendem a ser feitas 
quando a consistência é baixa e as demais formas de atribuição não podem ser reconhecidas 
com clareza. Ou seja, a causa incide sobre uma circunstância incomum, o que é de grande 
interesse potencial para o estudo de atribuições relativas a experiências óvni, dado sua 
recorrente dimensão de encontro com o desconhecido. 
Complementarmente, as atribuições internas tendem a depender da \u201csaliência 
perceptual\u201d, da percepção mais fácil e imediata daquilo que está disponível a nossos sentidos. 
Assim, as pessoas e situações parecem ser aquilo que apreendemos prontamente acerca delas. 
Contudo, tais informações não são assimiladas estática e \u201cfielmente\u201d, mas passam a compor 
um mosaico de influências e vetores relativos à manutenção de nossa auto-estima, atalhos 
mentais, valores, medos, esperanças, aprendizados, entre outros componentes passíveis de 
conduzir a atribuições \u201cdistorcidas\u201d, reconstrutoras do objeto em pauta (cf. Heider, 1958; 
Machado, 2009). 
A esse respeito, Ross (1977) cunhou o termo erro fundamental de atribuição para se 
referir a situações nas quais julgamentos sociais se inclinam sobremaneira a causas internas 
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do indivíduo e subestimam ou ignoram o contexto em que ele se insere. Tal erro será adiante 
retomado quando discutirei as atribuições feitas pela cultura em geral e pelos membros do 
grupo controle em particular sobre os protagonistas de experiências óvni. Da mesma forma, 
terão lugar discussões sobre as atribuições de protagonistas em relação aos céticos e aos 
membros da cultura em geral. De fato, entre as motivações desta pesquisa sempre esteve 
compreender mecanismos e processos pelos quais as pessoas, sejam céticas, crédulas ou 
protagonistas, compreendem as experiências óvni e as crenças favoráveis e contrárias, 
fazendo-o muitas vezes de forma enfática, em meio a opiniões diversas e emoção intensa. 
Contudo, como faceta complementar do erro fundamental de atribuição, as atribuições 
das pessoas acerca do próprio comportamento tendem a ser situacionais, o que guardaria 
relação, entre outras variáveis aqui mencionadas, com a saliência perceptual, pela qual as 
pessoas percebem mais facilmente o próprio contexto que suas próprias implicações nele 
(Machado, 2009). 
Após esse primeiro movimento de atribuição interna, pode ocorrer um confronto entre 
essa e o contexto, em busca de ajuste e confirmação, embora tal iniciativa não seja, muitas 
vezes, uma prioridade. Isso porque tende a exigir esforço consciente, enquanto a atribuição 
interna tende a ser mecânica, imediata (Machado, 2009). 
Embora seus objetos de estudo mais \u201ctradicionais\u201d sejam os comportamentos do 
próprio sujeito e os alheios, a TAC tem servido como referencial para a abordagem de temas 
diversos, dentre eles, as experiências religiosas e as experiências anômalas. Spilka et al. 
(1985) estão entre os que discutem ampliações, aplicações e achados da TAC para a 
psicologia da religião. Ao buscarem a unificação dos estudos anteriores e proporem uma 
Teoria Geral da Atribuição, os autores apontam também que os sistemas de crenças religiosos 
frequentemente se inserem em um quadro maior de visão de mundo das pessoas, cujas 
variáveis e processos podem ser identificados e preditos na elaboração de situações ou 
experiências particulares. Ainda segundo Spilka et al. (1985), 
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A Teoria da Atribuição também se aplica à percepção de eventos do 
mundo exterior tais como flutuações econômicas, acidentes e guerras. Por 
essa razão, alguns têm ido além da análise de experiências pessoais... para 
considerar as atribuições religiosas como parte do conjunto de esforços 
explanatórios de uma pessoa.... a religião provê um amplo "sistema de 
significado" para interpretar toda a gama de eventos da vida, não apenas 
como uma estrutura que serviria para rotular estados emocionais internos43 
(p.2). 
 
Em seus esforços para a construção para a Teoria Geral da Atribuição, Spilka et al. 
(1985) agregaram diferentes influências. Entre essas se destacam a Teoria da Emoção 
(Schachter, 1971), A Teoria da Autopercepção (Bem, 1972) e a Teoria da Atribuição para a 
Motivação (Weiner, 1972). Em termos bastante breves, a Teoria da Emoção aponta para a 
insuficiência dos correspondentes fisiológicos para o reconhecimento da emoção, ao que o 
componente interpretativo, atributivo, desempenha um papel crucial. Já a Teoria da 
Autopercepção preconiza que o autoconceito depende da avaliação do indivíduo quanto a 
seus pensamentos, sentimentos e ações, que se realiza por atribuições a partir de auto-
observação ao longo da vida e do contexto em que a pessoa se comporta. Por sua vez, a 
Teoria da Atribuição para a Motivação defende o papel de tendências \u201cinternas\u201d e \u201cexternas\u201d 
da personalidade, de modo que pessoas