Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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a mais importante de 
experiências anômalas tipicamente contemporâneas, em termos de mobilização social e 
revitalização de elementos mitológicos (Bullard, 1989; Dewan, 2006b), a saber, visões de 
objetos voadores não-identificados (óvnis), entidades tidas como extraterrestres e experiências 
afins. Ao longo do texto, episódios do gênero serão chamados simplesmente de \u201cexperiências 
óvni\u201d, exceto quando houver necessidade de maior especificação. 
Desde a década de 1940, as experiências óvni aumentam em número, complexidade e 
notoriedade nos meios urbanos e rurais em todo o mundo, com respeito apenas relativo por 
fronteiras culturais e com grande disseminação no Brasil (e.g., Suenaga, 1999), embora se 
careça de dados formais sobre a prevalência nacional. Quanto à sua prevalência global, 
pesquisas majoritariamente encontraram índices de 10% (cf. predominância em Schuessler, 
2000), com extremos de 5% e 25% (Dewan, 2006a; Hough & Rogers, 2007-2008; 
Schuessler, 2000) de protagonistas entre a população em vários países. Em muitos episódios, 
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especialmente os mais complexos (e.g., alegados sequestros por alienígenas), os protagonistas 
podem apresentar extenso leque de patologias físicas e psíquicas aparentemente posteriores e 
não raro graves (Appelle, Lynn & Newman, 2000; Bullard, 1989; McLeod, Corbisier & 
Mack, 1996; Suenaga, 1999). Com frequência, são também estigmatizadas como loucos, 
endemoninhados ou charlatães. Podem ainda ser veneradas como líderes religiosos e figuras 
messiânicas (Lewis, 1995; Suenaga, 1999). A coletividade também é atingida, na forma de 
agitação popular, comoção religiosa e mesmo pânico generalizado (Lewis, 1995; Suenaga, 
1999). 
O acrônimo óvni (tal como seus equivalentes idiomáticos) designa, em diversas 
culturas, luzes e objetos incomuns, alegadamente vistos no céu e mesmo no solo, com 
frequência (embora não exclusivamente) entendidos como veículos espaciais pilotados por 
seres extraterrestres. Conotações menos populares os definem como formas de vida em si 
mesmos (terrestres ou não), veículos sobrenaturais que transportam espíritos, demônios ou 
anjos, armas secretas militares, entre outras possibilidades. 
Assim, esta dissertação apresenta minha pesquisa de mestrado, na qual investiguei 
quantitativamente o perfil psicológico de pessoas que alegam experiências óvni, das mais 
\u201csimples\u201d (i.e., visões de objetos ou luzes distantes e fugidias) às mais \u201ccomplexas\u201d e 
delongadas (i.e., sequestros, contatos amistosos, orientações de cunho espiritual). Tal perfil 
psicológico abrange características de personalidade e saúde mental, investigados com 
instrumentos psicológicos adequados ao contexto brasileiro e sob referenciais teóricos adiante 
explicitados. Complementarmente, investiguei as experiências óvni em si mesmas, a partir de 
um enfoque qualitativo que procurou atrelar uma compreensão dos episódios e seus 
significados tal como vivenciados, processos pelos quais cada voluntário concluiu pela 
origem extraordinária das experiências e a contextualização cultural das mesmas. Portanto, 
almejo abordar dimensões fenomenológicas e ontológicas das experiências óvni, tanto ao 
investigar variáveis que são objeto de controvérsia na literatura enquanto possíveis causas, 
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como ao buscar compreender a perspectiva dos protagonistas inseridos em dinâmicas 
culturais e mesmo biológicas. 
Escolhi o termo óvni para esta dissertação por ser ele mais inclusivo que outros comuns 
no Brasil para nomear eventos semelhantes ou associados, entre os quais cito alguns que 
encontrei em incursões de campo1: Mãe do Ouro, Fogo Corredor, Alamoa, Mboi-guaçu, 
Disco Voador, Moema, Boitatá, Chupa-chupa, Alma Penada, João Galafuz, Carro-fantasma, 
entre outros tantos que sugerem a riqueza cultural ligada a essas experiências. A razão para se 
agrupar tão extenso leque de entidades folclóricas sob o mesmo rótulo está tanto na 
similaridade de aparência e comportamento apreendida pelos protagonistas (detectável via 
redução fenomenológica2) quanto no comum uso de dois ou mais desses termos, em um 
mesmo contexto cultural, para descrever um mesmo episódio. Logo, tal aproximação já é 
exercida no cotidiano, justificando sua pertinência. 
Como fenômeno correlato, um número significativo de protagonistas alega a presença 
associada de entidades de aparência viva, rotuladas por eles, conforme referenciais culturais 
prévios, enquanto extraterrestres, ultraterrestres (i.e., seres de outras dimensões), 
intraterrestres (i.e., seres oriundos de civilizações avançadas que viveriam no interior do 
planeta Terra), militares, demônios, anjos, robôs e entidades folclóricas e religiosas em geral. 
O termo alienígena, além de também frequente, parece mais inclusivo ao abarcar, pela 
acepção original da palavra, aquilo que é estranho ou estrangeiro, o que me motiva a usá-lo 
 
1
 São termos mencionados por protagonistas de experiências diretas e não apenas em reproduções de 
\u201ccausos\u201d ou lendas urbanas que se propagam muitas vezes sem a necessidade de relatos em primeira mão. 
2
 Deste modo, as experiências alcunhadas dos mais diferentes modos, de acordo com a cultura local, 
descrevem quase invariavelmente luzes anômalas de dimensões similares (ou pequenas, do tamanho de 
uma bola de basquete ou menores, ou, quando no outro extremo, tipicamente de dimensões próximas às 
de um automóvel ou maiores), voo errático e silencioso (ou com sutil barulho, costumeiramente 
comparado a um chiado). Embora as descrições sejam aproximadas, as interpretações variam 
drasticamente. Deste modo, como exemplo, enquanto a Mãe do Ouro surgiria para revelar locais com 
ouro escondido, o Chupa-chupa desejaria drenar sangue e fluídos vitais de suas vítimas. Por sua vez, 
redução fenomenológica é o processo pelo qual se suspende temporariamente os juízos teóricos sobre o 
objeto de interesse, em prol da busca por sua essência tal como experienciada pelo sujeito do 
conhecimento (Forghieri, 1993). 
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com frequência. Trechos breves, retirados de entrevistas concedidas a mim durante a coleta de 
dados, fornecem ilustrações de experiências óvni, aqui a título meramente introdutório: 
 
Era um objeto brilhante, em forma de charuto, bem grande... bem 
luminosa, uma luz amarelada... com movimentos de pulsação.... Depois de 
um tempo, essa luz lança uns feixes pra baixo... uns quatro feixes, em 
direção à terra.... Isso gerou um misto de pânico e atenção das pessoas 
que estavam comigo, uma menina que estava [no local] começa a chorar 
(participante E1.5). 
 
Tinham dois seres cinza me olhando e que faziam um som estranho... que 
parecia [som de] abelhas [tenta reproduzir o som, à semelhança de um 
zumbido grave].... Eles eram cinza, um cinza claro, olhos pretos grandes, 
eles olhavam um para o outro lentamente.... hoje eu sei que... eram seres 
extraterrestres mesmo (participante E2.10). 
 
Eu vi um objeto bem grande... com as luzes acesas.... Era em forma de 
disco.... Aí eu vi um jato que parecia que ia descer em Confins [Aeroporto 
Internacional Tancredo Neves, em Minas Gerais].... Na hora que o jato 
aproximou dele [do óvni], ele apagou as luzes... ficou tipo uma estrela.... O 
jato passou e as luzes acenderam de novo (participante E1.4). 
 
Por quatro oportunidades, eu estive fora do planeta a bordo de naves 
espaciais alienígenas.... plenamente consciente, acordado.... A primeira 
viagem a bordo de uma espaçonave... nós [os alienígenas e ele] fomos até 
a Lua; houve uma alunissagem.... Havia algumas janelas [na nave], que, 
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de dentro pra fora, dava a nítida impressão de que era vidro. Agora, de 
fora pra dentro, era metal.... A terceira vez que eu