Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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por um curto intervalo de tempo após concluírem que o 
fenômeno não poderia ser explicado em termos prosaicos, protagonistas alegam 
experimentar dúvidas automáticas e mesmo dissonância cognitiva67 pelo choque entre 
os dados insólitos alegadamente fornecidos pelos sentidos e a impressão da 
impossibilidade de ocorrência do episódio. O conflito interno pode ser bem ilustrado 
pelos comentário da participante E1.32: \u201cA gente duvida, mesmo com todo o 
conhecimento que a gente tá adquirindo [conhecimentos esotéricos], a gente duvida 
 
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 Dissonância cognitiva se refere ao conflito intrapsíquico entre experiências e/ou cognições antagônicas, 
com decorrente angústia e tentativa de amainá-la (Festinger et al., 1956). 
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assim: \u2018Será mesmo?\u2019.... Me perguntava muito: \u2018Será que é verdade? Será que eu vi?\u201d 
O participante E2.4 completa: 
 
Até 2002, eu tive alguns contatos com seres extradimensionais, mas foram 
contatos assim que eu mesmo não sabia se era coisa real ou se era fruto 
da minha imaginação. Parecia ser um contato meio telepático, eu via, mas 
não via, eu via o cara meio transparente.... mas eu não tinha certeza. Eu 
cheguei a procurar um psiquiatra, achando que eu estava ficando louco. 
 
Assim, sugiro como hipótese a ser testada em novas investigações que somente 
após esses dois momentos (i.e., a tentativa de explicar a experiência em termos 
prosaicos e o conflito cognitivo) viria a perdurável convicção sobre a realidade objetiva 
da experiência, ainda que altamente incomum ou bizarra. E mesmo diante de tal 
convicção, tende a permanecer uma postura em algo crítica diante do que seria o 
fenômeno e diante das experiências de terceiros (como em Marçolla & Mahfoud, 2002). 
Após ressalvas entremeadas em toda a sua entrevista sobre a estranheza de suas 
experiências e sua incerteza em relação a este ou aquele aspecto, e mesmo em relação à 
sua saúde mental, a contatada E2.7 fornece indício de uma desconfiança que coexistiria 
com a convicção sobre a realidade objetiva das experiências: 
 
Estou esperando a gravação [da entrevista] acabar pra eu te falar 
mais.... Então [para justificar a decisão de relatar a próxima parte], já 
que você vai me dar um diagnóstico [através do MINI PLUS; cf. 
capítulo 10] e de repente é importante eu ter esse diagnóstico... 
\u201cvamos tratar [clinicamente] dessa história toda e acabar com 
isso\u201d.... é claro o cenário deles [os alienígenas que a contataram] 
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assistindo, completamente claro.... Dentro da minha percepção, 
dentro da minha \u201cviagem na maionese\u201d, esse [alienígena] está aqui. 
 
Por seu turno, a contatada E2.6 se mostrou bastante ansiosa pelos resultados dos 
testes, revelando alívio e gratidão pela ausência de indicadores formais de transtorno 
mental. Ainda diante de experiências mais \u201csimples\u201d e a despeito da convicção 
subjetiva sobre a realidade concreta do que foi visto, a participante E1.35 expõe suas 
ressalvas sobre o que seria o óvni (semelhante a Marçolla & Mahfoud, 2002): 
 
Todo mundo ficou falando \u201cÉ o disco! É o disco!\u201d. E eu fiquei 
curiosa assim, mas mais medo que curiosidade.... Ó, pelo que meus 
avós contavam, eu duvidava muito. Mas, depois que eu vi.... fiquei a 
noite inteira pensando \u201cnossa senhora, não é que eu vi o disco 
mesmo?\u201d.... É uma coisa diferente.... eu acho que [disco] é um nome, 
uma coisa estranha.... eu não posso explicar.... realmente eu não sei 
explicar, eu só sei falar o que eu vi. 
 
Ademais, como alguns exemplos dados ao longo do texto já sugeriram, os 
protagonistas tendem a demonstrar emoções coerentes com o teor do depoimento (e.g, temor, 
desconfiança, entusiasmo), em sintonia com o desenrolar dos pretensos fatos, além de 
ansiedade (diretamente proporcional à intensidade subjetiva da experiência) diante de 
dificuldades em encontrar explicações coerentes para o ocorrido. Como exemplo 
representativo adicional, a participante E1.20 narra \u201cEu olhei pra aquilo e falei \u2018será que eu 
estou sonhando? Não, eu não estou sonhando. Isso é verdade!\u2019 Aí eu comecei a ficar 
apavorada.... Meu corpo começou a tremer, de medo que eu fiquei\u201d. 
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Quanto à presença de comorbidades, a Tabela 14 (cf. capítulo 11) sugere o quanto 
entidades nosológicas clássicas não parecem compor um quadro maior do qual as 
experiências anômalas, caso fossem patológicas, fariam parte. Já a Tabela 3 (cf. capítulo 11) 
complementa a sugestão ao evidenciar a minoritária prevalência de doenças importantes 
relatadas à ocasião do episódio. Dentre as doenças mencionadas, apenas dois voluntários em 
cada grupo reportaram algo que poderia, a princípio, desempenhar papel significativo 
enquanto ocasionador de uma experiência óvni: epilepsia (Holden & French, 2002) e miopia 
leve, ambos com um caso por grupo. Quanto aos dois casos de epilepsia, os sintomas estariam 
alegadamente controlados pelo uso de medicação. 
Desse modo, ao considerar indicadores qualitativos de saúde mental e ajustamento 
social, como os nove critérios elaborados por Menezes Júnior e Moreira-Almeida (2009), as 
experiências óvni parecem tender muito mais às experiências anômalas saudáveis que a 
transtornos mentais de conteúdo bizarro. Como discutido em Martins (2010b), as exceções à 
conotação saudável das experiências tenderiam poderiam recair sobre as abduções e contatos 
amistosos, que podem se apresentar não apenas contrárias ao que muitos considerariam um 
\u201cbom senso\u201d mínimo, mas, o mais importante, seriam não raro reincidentes, intrusivas e 
angustiantes em algumas fases da vida. Contudo, diante da sugerida elaboração saudável 
posterior, sua dimensão enquanto patológica pode ser problematizada. 
Retomando a adequação cultural das experiências, aspecto esse importante para sua 
elaboração saudável (Menezes Júnior e Moreira-Almeida, 2009; OMS, 1993), significativa 
maioria dos protagonistas reportou amplas e consistentes reações negativas advindas de 
parentes, amigos, desconhecidos, membros de suas congregações religiosas etc. (cf. Tabela 3, 
capítulo 11). Nas palavras representativas da voluntária E2.2, proferidas em tom 
aparentemente entristecido, 
 
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Essas coisas de infância marcam mais, eu via muita luz, eu via muito 
fenômeno no céu, mas minha família, eles criticavam, assim: \u201cAh, você 
está inventando, isso não existe, você está impressionada\u201d, quando eu 
chamava alguém pra ver... as pessoas assim não davam crédito e às vezes 
isso me incomodava um pouco isso, sabe? Então eram fenômenos assim 
que não tinham a menor importância [para os familiares], mas eu via 
[abana a cabeça negativamente]. 
 
As reações negativas se mostram, inclusive, amplamente introjetadas pelos 
protagonistas, que as preveem e tendem a ser seletivos ao compartilhar as experiências. Como 
um exemplo dado pelo participante E1.4, \u201c estavam passando carros na hora [da 
experiência] e deu vontade de parar as pessoas [para que pudessem ver o óvni], mas.... se o 
\u2018negócio\u2019 sumir, vão pensar que eu estou doido, né?\u201dAssim, a estigmatização social dos 
protagonistas, expressa desde a jocosidade levemente desconfortável até a patologização 
literal, fornece elementos iniciais favoráveis à hipótese da pouca adequação cultural das 
experiências, que tende a ser revertida apenas no seio de grupos específicos e menores, como 
grupos de contatados e abduzidos, clínicas holísticas, grupos esotéricos etc. 
 
12.3. Atribuição de causalidade 
 
Somado às mencionadas nuances do senso crítico exercido pelos protagonistas, 
aspectos relevantes às discussões vindouras sobre atribuição de causalidade são o pluralismo e 
mesmo o sincretismo evidenciados na elaboração dos episódios. Mesmo