Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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conseguira, sendo que a resposta usualmente surpreendia o ouvinte. 
Embora muitas vezes não fornecessem indicações de protagonistas, as pessoas por mim 
interpeladas casualmente não raro indicavam protagonistas de outras formas de experiências 
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anômalas, sem que eu houvesse sugerido tal coisa, evidenciando uma interessante associação 
cultural. Assim, emergiram espontaneamente relatos de experiências paranormais diversas, 
como sonhos premonitórios, experiências místicas etc. 
Outro detalhe interessante às discussões vindouras foi a desconfiança de alguns 
ufólogos por mim procurados no intuito de obter voluntários. Não raro fui submetido a 
numerosas e repetitivas perguntas sobre minhas intenções, além de ter sido objeto de uma 
investigação informal por parte desses ufólogos acerca de minhas atividades profissionais. 
Ainda assim, com bem poucas exceções, houve recusa desses ufólogos em intermediar minha 
aproximação com protagonistas de experiências óvni conhecidos por eles. Assim, o processo 
de negociação quanto às participações na pesquisa foi significativamente mais laborioso e 
infrutífero com ufólogos que com os próprios protagonistas de experiências óvni, estes 
prontamente interessados em participar na quase totalidade das vezes. A desconfiança desses 
ufólogos, ao menos em seus termos, residia no receio de que eu rotulasse os protagonistas 
como portadores de transtornos mentais, mentirosos, fantasistas etc. Essa dificuldade também 
me fez recordar uma conhecida tendência de alguns ufólogos em serem um tanto protetores 
em relação aos que usualmente chamam de \u201cseus casos\u201d (Reis & Rodrigues, 2009). 
Ainda quanto aos ufólogos, cabe ressaltar que a convicção deles acerca das explicações 
extraordinárias para os episódios que eles acompanharam (ou \u201cdescobriram\u201d, sic) parece ser 
significativamente maior que a dos próprios protagonistas. Assim, por exemplo, enquanto 
alguns ufólogos asseveram a realidade das abduções, contatos e da agenda dos alienígenas, os 
respectivos protagonistas tenderam a limitar sua convicção plena apenas ao que teria sido 
experienciado, como exemplificado ao longo deste capítulo, sem partilhar a mesma convicção 
em relação às explicações. Houve ocasião para uma discussão em algo tensa e hostil entre o 
convicto ufólogo e o desconfiado contatado quanto à realidade concreta de uma pretensa 
abdução na infância deste último. 
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Quanto ao convívio com os grupos de abduzidos e contatados, pude observar muitos 
elementos interessantes, alguns dos quais supracitados. A referida busca pela pureza primitiva 
era corriqueiramente expressa, de modo que a \u201cracionalidade\u201d tendia fortemente a ser 
entendida como ruim ou contrária à evolução espiritual, como no exemplo da protagonista 
E1.14 citado neste capítulo. Assim, acreditar enquanto uma entrega irrefletida era algo 
frequentemente aconselhado, em lugar de posturas como reflexão crítica, ceticismo e busca 
laboriosa por conexões causais. Diversas vezes, membros desses grupos me disseram que, 
embora a pesquisa fosse importante, eu mesmo deveria abandonar tais perspectivas racionais 
e me \u201centregar, sem resistência\u201d (sic) à intuição e à crença. Nas palavras exatas do membro 
de um desses grupos, \u201cé crer pra ver\u201d. 
De forma relacionada, o antes mencionado princípio da parcimônia, ou Navalha de 
Ockham, não parecia possuir entre eles sentido semelhante àquele dos meios científicos, 
céticos e mesmo da cultura maior ao qual aquele grupo está circunscrito. Assim, eventos 
normalmente interpretados enquanto usuais ou de pouca importância tendem a ser vistos 
como extraordinários ou alusivos a algo excepcional, constituindo uma postura paranormófila 
(cf. capítulo 1). Como exemplos, círculos de uma luminosidade opaca em fotografias, 
usualmente entendidos como reflexos do flash da câmera em partículas suspensas de poeira e 
água, diversas vezes foram considerados \u201cprovas\u201d (sic) da presença de \u201cseres sutis\u201d ou 
\u201csondas extraterrestres\u201d (sic). O que seria usualmente tido como óbvias pareidolias foi 
entendido como rostos alienígenas não apenas em tamanho \u201cnatural\u201d (sic), mas também 
plasmados intencionalmente, como um sinal, na face de grandiosas montanhas ou quaisquer 
outros elementos do ambiente. Episódios que usualmente seriam entendidos como sonhos e 
imagens mentais simples foram considerados manifestações dos alienígenas amigáveis ou 
positivos, entre copiosos exemplos. 
Pude presenciar também situações em que eventos que poderiam, sob referenciais 
externos a esses grupos, ser interpretados como simples e corriqueiros foram objeto de 
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gradual transformação através das conversações cotidianas, a ponto de se tornarem narrativas 
que mesmo fora do grupo seriam prontamente consideradas extraordinárias. Assim, 
experiências que seriam consideradas prosaicas em outros contextos parecem ganhar força 
enquanto anômalas a partir de um interjogo de variáveis psicossociais como crenças prévias, 
validação intersubjetiva e pressões sociais cumulativas. 
Complementarmente, em algumas poucas oportunidades, houve suave hostilidade em 
relação a mim enquanto pesquisador, como quando, sem que eu houvesse dito algo, emergiu 
um questionamento emocionado de um grupo de contatados sobre o porquê da resistência 
científica em aceitar a veracidade de relatos e outras impressões subjetivas. 
 Vários desses grupos me convidaram para participar de suas atividades e tornar-me 
membro. Assim, a título de observação participante, como em outras ocasiões que permitiram 
as observações acima, compartilhei de alguns encontros e rituais, os quais incluíam práticas 
de relaxamento, consciência corporal, uso de cristais, exercício da intuição, terapia informal 
de grupo, massagens e práticas congêneres. O ambiente era usualmente tranquilo e amistoso, 
marcado pelo convívio de média ou longa data entre pessoas que partilhavam preceitos 
básicos que pareciam alicerçá-las enquanto grupo, como crença em reencarnação, cristais, 
canalização de mensagens extraterrestres etc. Através da convivência com esses grupos, que, 
em um dos casos, chegou a ser diária ao longo de alguns meses, pude observar que 
praticamente todos os seus membros, incluindo pessoas que não tiveram experiência óvni, 
possuem, assim como se revelou típico entre os voluntários do grupo E2, um longo histórico 
de busca pessoal por um sistema de crenças que julgassem satisfatório. Assim, relataram 
terem sido católicos, evangélicos, espíritas, candomblecistas, umbandistas e/ou 
frequentadores de diversos grupos, até que somente após encontrarem o grupo atual, teriam se 
reconhecido satisfeitos. 
Acerca dos contatados, uma tendência interessante, embora não universal, foi me 
questionar, após as entrevistas gravadas, em relação a outros voluntários que alegassem 
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encontro com as mesmas entidades extraterrestres. Quando eu, em resposta, mencionava a 
existência de outros relatos sobre Ashtar Sheran e outros seres descritos pelos então 
questionadores, não raro houve alguma desconfiança e depreciação, por parte de quem 
perguntou, em relação a tais protagonistas, algo como: \u201ccuidado, porque tem muita gente que 
\u2018viaja\u2019\u201d ou \u201cnessa área tem muito doido\u201d. 
Em algumas ocasiões, o que observei apenas entre contatados, emergiram dizeres que 
sublinham a antes referida dimensão egossintônica de suas experiências: \u201cEu sei de algumas 
coisas que só umas dez pessoas no planeta sabem\u201d. Ou \u201ceu não sou normal. Quantas 
pessoas você conhece que já viajaram numa nave pra fora da Terra?\u201d. Ou ainda \u201ceu sei 
praticamente tudo sobre UFOs: propulsão, origem, objetivos...\u201d. Contudo, de modo 
interessante, alguns desses contatados que alegavam amplo conhecimento de causa sobre