Leonardo Breno Martins   Contactos imediatos   Investigando
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Leonardo Breno Martins Contactos imediatos Investigando


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of anomalous experiences 
may tell us a great deal about more typical human experience in the same way that understanding the 
processes underlying visual illusions can tell us a great deal about normal visual perception\u201d. 
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 A maioria das experiências de abdução parece durar, na perspectiva dos protagonistas, entre uma e três 
horas; algumas vezes, durariam mais (cf. capítulo 5). 
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 Cf. grupo experimental E2, capítulo 10. 
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para a compreensão de aspectos da experiência religiosa, das relações entre tradições 
religiosas e a modernidade e das necessidades e conflitos internos humanos. Saliba não 
sugere um esgotamento do tema religião via estudo das experiências óvni; apenas 
salienta, à semelhança de William James (1902/1991), o quanto um fenômeno extremo 
(no caso, as experiências óvni) pode contribuir de modo destacado para a compreensão 
de uma categoria maior de fenômeno (no caso, a experiência religiosa) no qual pode ser 
ao menos parcialmente inserido. 
As comparações entre experiências óvni e outras anomalias podem ser produtivas 
e relevantes não apenas pelo compartilhado rótulo de experiências anômalas, mas 
porque costumeiramente os protagonistas das primeiras as correlacionam a 
crenças/experiências espirituais e a alegados fenômenos parapsicológicos (e.g., 
Suenaga, 1999). Como exemplos, protagonistas de experiências de abdução ou de 
episódios mais simples que mencionam alienígenas tendem a relatar que a comunicação 
com as entidades é predominantemente telepática. Tal aptidão, em alguns protagonistas, 
chegaria a permanecer ao longo dos dias imediatamente posteriores à experiência. Desse 
modo, alegam poder \u201cler pensamentos\u201d de familiares e amigos durante os dois ou três 
dias subsequentes, quando então a aptidão se esvairia gradualmente e desapareceria. 
Ademais, outros fenômenos tendem a ser mencionados durante as experiências óvni e 
mesmo ao longo da vida do protagonista, como outras formas de percepção 
extrasssensorial e psicocinese. Muitos protagonistas defendem uma conexão causal 
entre as experiências, de modo que as inteligências responsáveis pelos óvnis os teriam 
escolhido por possuírem tais aptidões ou os \u201cpresentearam\u201d com elas. Por fim, 
recentemente, alguns abduzidos têm mencionado lembranças de tais sequestros 
paralelamente a lembranças de \u201cvidas passadas\u201d, de modo coerente com a crença de que 
as abduções constituiriam um programa de monitoramento que perfaria múltiplas vidas 
do protagonista. Assim, o estudo das experiências óvni possui diversas conexões, tanto 
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potenciais quanto efetivas, com as experiências anômalas em geral e aquelas relativas à 
\u201cparanormalidade\u201d e à hipótese da sobrevivência após a morte, podendo contribuir para 
sua compreensão geral. 
Quanto à psicopatologia, embora a literatura tipicamente não aponte correlações 
entre as experiências óvni e as entidades nosológicas clássicas, as pesquisas são repletas 
de achados contraditórios quanto a traços isolados, o que demanda novos estudos 
(Appelle et al., 2000; French, Santomauro, Hamilton, Fox & Thalbourne, 2008; Hough & 
Rogers, 2007-2008; McLeod et al., 1996). Já patologias e sintomas isolados 
pretensamente posteriores e derivados das experiências óvni (cf. Appelle et al., 2000; 
Bullard, 1989; McLeod et al., 1996; Suenaga, 1999) também constituem objetos de 
estudo interessantes, devido à incerteza sobre como e porque ocorrem. Assim, embora 
persista uma noção cultural de causalidade interna (e.g., mentiras, alucinações), perdura 
na literatura a ausência de respaldo sólido para tal noção e de explicações satisfatórias 
para as experiências. 
Outro campo emergente e relacionado é o estudo psicológico da interface entre o 
natural e o sobrenatural enquanto significação (Marçolla & Mahfoud, 2002), pois as 
experiências remetem a eventos cotidianos, físicos, muitas vezes associados à natureza, ao 
mesmo tempo em que parecem originárias de um \u201coutro mundo\u201d, demoníaco, celestial, 
espiritual, mágico, com paralelos na religião, no folclore e no misticismo (Bullard, 1989; 
Dewan, 2006b; Jung, 1988; Marçolla & Mahfoud, 2002; Suenaga, 1999). Tais narrativas 
anômalas parecem, pois, demarcar uma ríspida passagem da dimensão sobrenatural para o 
plano concreto do indivíduo (corpo e psiquismo) e da coletividade (efeitos em massa) 
imediatamente confrontados, agredidos, abençoados, desafiados, caracterizando uma espécie 
mais radical de experiência e significação que demandam compreensão. 
Adicionalmente, McLeod et al. (1996) sugerem benefícios à psicologia no estudo de 
narrativas de sequestro por óvnis, conhecidos na cultura como abduções, no que tange à 
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intersubjetividade na construção de realidades complexas, à memória em situações de emoção 
extrema e a estados alterados de consciência, assim como se beneficiaria substancial número 
de pessoas que passam por tais experiências e recebem diagnósticos e tratamentos 
equivocados de profissionais de saúde. E, em sintonia com Appelle et al. (2000), alertam que 
o pouco conhecimento sobre os mecanismos associados às experiências óvni, como aqueles a 
serem investigados na presente pesquisa, conduz ao risco de que terapeutas endossem a 
produção de falsas memórias em seus clientes. É importante destacar tal possibilidade através 
de técnicas controversas e/ou reforço subjetivo, com implicações relevantes no curso de vida 
ulterior daquele que passa a se identificar como um abduzido. É cada vez mais comum que 
pessoas que crêem terem sido abduzidas, quer tenham ou não memórias conscientes da 
experiência, procurem ufólogos ou terapeutas praticantes de hipnose para se submeterem a 
regressões de memória. Com frequência, emergem das sessões de regressão memórias 
complexas e muitas vezes dolorosas e reincidentes de abduções a bordo de óvnis (Appelle et 
al., 2000; Hopkins, 1995; Jacobs, 1998, 2002; Mack, 1994; Moura, 1996), que podem a ser 
incorporadas pelos protagonistas de modo pouco crítico e emocionalmente intenso. 
Diante das experiências óvni, Dewan (2006b) aponta ganhos significativos para a 
psicologia quanto ao estudo da relação entre crença, cognição e experiência, das 
convergências e divergências entre testemunhas de eventos incomuns, das mudanças de visão 
de mundo e de outros aspectos da percepção de ocorrências anômalas. A partir do referencial 
cognitivo-comportamental, Pereira (2007) sugere a relevância do tema para o estudo 
psicossocial sobre as crenças. 
Considerando as experiências óvni enquanto emergência de conteúdos inconscientes 
em favor do processo de individuação11, Jung (1958/1988) justificou seu interesse por elas 
afirmando sua \u201cgrande importância\u201d, ao sinalizarem uma mudança na psique coletiva da 
 
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 Individuação é o processo um tanto raro pelo qual ocorreria o desenvolvimento e amadurecimento 
psicológico, através da integração dos conteúdos inconscientes capazes de se tornarem conscientes. 
Assim, o psiquismo sofreria uma radical transformação e se tornaria uma totalidade (Jung, 1971/1991, ¶ 
430). 
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humanidade (¶ 589), e se inquietou com os aspectos intra e intersubjetivos dos episódios: 
\u201cestou preocupado com a sorte daqueles que são surpreendidos por esses acontecimentos sem 
estarem preparados para tal, ficando à mercê daquilo que não podem compreender\u201d (¶ 590). 
Interessante notar que as preocupações de Jung datam de uma época em que o fenômeno 
psicossocial dos óvnis estava apenas em estágio embrionário. 
O ícone óvni é favorável a desempenhar funções subjetivas importantes, especialmente 
diante do anseio espiritual por vezes não satisfeito na ciência e na religião, o que pode 
contribuir para ocasionar experiências. Essas funções