Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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enquanto provocava a ira dos 
seus inimigos, dizendo-lhes sem rodeios as mais escaldantes verdades, depois de ter, dessa forma, 
desencadeado a guerra, não preparou nada para levá-la avante, ou pelo menos, defender-se. Com isto 
Cristo nos fez ver quanto seja perigoso na Terra dizer a verdade, quando, depois de termo-nos engajados 
na batalha, não permaneçamos suficientemente armados para sustentá-la e vencê-la. Dizer a verdade, 
então, é um luxo reservado aos fortes e negado aos fracos. E Cristo, depois de se ter colocado em posição 
tão perigosa, abandonou-se nas mãos dos seus inimigos, que outra coisa não desejavam para assim 
liquidá-lo. Aparentemente, de duas coisas uma: ou Cristo não conhecia as leis biológicas do nível 
evolutivo humano que são de luta para um sobrepujamento recíproco, ou, então,
 
queria dissuadir-nos de 
dizer a verdade, mostrando-nos com o seu exemplo quanto o dizê-lo em tal ambiente seja perigoso e 
como, portanto, seja mais aconselhável calar-se ou mentir, o fato é que Cristo desafiou as leis da vida de 
nosso plano e estas o mataram. 
Todavia, estas duas hipóteses \u2014 a primeira baseada na ignorância e a segunda na falta de senso 
moral \u2014 não se sustentam enquanto evidentemente inconciliáveis com a figura do Cristo. Poder-se-ia 
apresentar, ainda, uma terceira hipótese: que Ele fosse movido por uma firme vontade de suicídio. Sem 
dúvida, vê-se de sua conduta que ele agira em plena consciência e completa liberdade de escolha. Ele bem 
conhecia a aflição que o esperava; entretanto, nada fez para evitá-la. Perante Pilatos Ele se calou. 
Acusado, Ele não se defendeu enquanto, antecedentemente, com a sua decidida conduta provocara a Sua 
condenação. Com efeito, entregou-se sem reagir aos soldados que o prenderam e proibiu a Pedro de 
defendê-Lo. Estes fatos pareceriam confirmar uma vontade de suicídio, deduzível do fato de ter assumido 
posições que Ele sabia perigosíssimas. Entretanto, poder-se-ia dizer que Cristo atirou sobre Si mesmo o 
Seu martírio, quase o tenha procurado, e tenha sido Ele próprio o primeiro a querê-lo. 
Então, se Cristo o quis, isto significa que aquele martírio tinha sido para Ele uma importância 
decisiva que o justifica, anulando assim a hipótese do suicídio. Ele não aceitou passivamente, mas 
escolheu aquele caminho. Por que? Não se pode dizer que Ele fosse um fraco e que os fortes e os 
malvados se tenham disso aproveitado para fazer Dele uma vitima. Ele os desafiou frontalmente com a 
coragem desmascarando-os abertamente. E, quando foi acusado não se pode dizer que Ele não teria 
sabido defender-se, desde que o quisesse. Ele teria podido ser Rei do seu povo, ou libertador político. 
Tudo parecia conspirar em Seu apoio neste sentido, pois as multidões O seguiam e O aclamavam. Mas 
Ele escolheu, pelo contrário, uma coroa de espinhos, entrelaçada de insultos e de aflição. O que significa 
tal loucura? Ou melhor, como podia ser louco um homem que deu provas de tanta sapiência? 
Cristo, completamente rebelde à vontade do mundo,
 
constantemente se refere, pelo contrário, a 
vontade do Pai e a esta se submete com extrema decisão. Deste lado havia algo a que o Cristo estava 
vinculado e que o impelia para a cruz. Era este o impulso, que o empurrava para aquela direção? Ele não 
era um inconsciente, ignaro do fim ao qual ia sendo levado, e no entanto não parava. Há na conduta de 
Cristo algo misterioso, um motivo recôndito que devemos descobrir e que não é daqueles que comumente 
movem os homens. 
A primeira coisa que salta aos olhos de um atento observador de Cristo-homem é a sua coragem 
viril, sua revolucionária potência inovadora, sua capacidade de arrastar as massas. Ele se comporta como 
Rei que, consciente das conseqüências, desafia os poderosos desse nível, tanto no campo religioso como 
no político e deve como Rei ser tratado mesmo quando se faça isso pelo avesso, com uma coroa de 
espinhos e sobre a cruz com os dizeres: "Rei dos Judeus". Até Satanás o trata como Rei, oferecendo-lhe 
um Reino e Cristo o repele como tentador. 
Cristo não se deixa levar até a paixão por inércia. Ele não é dominado pelas circunstâncias 
adversas, parece, pelo contrário, que as conheça e as secunda como se soubesse que o assalto das forças 
do mal, o leva a realização de seus próprios uns. Cristo obedece ao Pai, mas nisso é como se comandasse, 
porque obedece a si mesmo, pelo fato de que a sua vontade coincide com a do Pai. Os poderosos da Terra 
que querem matar o Cristo ficam assim logrados por um mal-entendido, porque em vez de fazerem seu 
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próprio jogo, acabam por fazer o de seu inimigo, Cristo, que os utiliza assim para alcançar seus próprios 
escopos, para eles totalmente desconhecidos. Temos aqui um exemplo da utilização das forças do mal 
postas a serviço das forças do bem: trata-se aqui, de um caso cuja negatividade acaba se tornando um 
instrumento das forças positivas no seu trabalho de reconstrução. 
Postos, então, de lado os sujeitos humanos que contribuíram \u2014 quais pobres inconscientes \u2014
para o desenrolar-se de forças por eles desconhecidas da paixão de Cristo, não resta como causa de tudo 
senão a vontade do Pai, da qual Cristo havia feito Sua própria vontade. O Pai não O obriga de modo 
nenhum, mas é Cristo que tem consciência da necessidade de obedecer-Lhe. É o próprio Cristo que 
perante a ordem estabelecida pela Lei, reconhece a absoluta necessidade de Seu sacrifício e o cumpre com 
conhecimento de causa. Assim: de um lado, permanece firme um princípio de ordem, do outro emerge a 
necessidade de um sacrifício. Havia, pois, uma conta entre os dois, e Cristo devia pagá-la à justiça do Pai. 
Era, então, esta que exigia tal pagamento e cumpria ao Cristo efetuá-lo, cônscio de Seu dever? 
Qual era então a dívida que Cristo devia pagar à Lei? Diz-se que sejam os pecados dos homens 
que Cristo endossava, deixando só a eles a tarefa de cometê-los. Mas se o pagamento de Cristo era 
efetuado para cumprir um ato de justiça perante a Lei, como é possível que o mesmo redundasse num ato 
de injustiça qual o de pagar, com seu próprio sofrimento, as culpas dos outros? Assim sendo, o Pai por 
aquele Seu princípio de justiça deveria ter exigido o pagamento por parte dos homens, porque as culpas 
eram deles e não de Cristo. Como, ao contrário, exatamente para aplicar o Seu princípio de justiça, o Pai 
exigiria que aquelas culpas fossem pagas por um outro que é um inocente? Como pode Deus contradizer-
se até este ponto? Num regime de ordem não é lícito nem ao amor sobrepor-se à justiça para violar 
aquela ordem. Em tal caso não se trata mais de amor, mas de anarquia, rebelião e desordem, de tipo AS. 
Uma tentativa de salvar Cristo do martírio não vem do Pai que até chega ao ponto de o 
abandonar no momento do martírio quando estava na cruz. Uma tentativa dessas não vem do Pai,
 
amigo, 
mas de Satanás inimigo. E Cristo repele aquela tentativa à guisa de uma tentação. O que significa este 
fato, que só as forças do mal se preocupam por salvar Cristo do martírio? Significa que aquela era uma 
salvação falsa enquanto a verdadeira consistia na cruz. E Cristo responde: "Queres que eu não beba o 
cálice que o Pai me reservou?" Assim, Satanás, o inimigo, propunha-lhe evitar o martírio que o Pai, o 
amigo, lhe oferecia. Portanto a salvação de Cristo estava na paixão. 
Aquela paixão significa um choque entre S e AS, entre a positividade do primeiro (Deus), que 
quer superar e vencer a negatividade do segundo (anti-Deus). Mas o choque se dá em pleno AS, isto e, a 
nível de negatividade, lá onde esta é forte, bem plantada em sua própria casa. Isto explica porque a paixão 
de Cristo no plano humano, isto é, a nível de AS, foi massacre bestial. E ainda se explica como, logo 
depois de termos saído do campo de negatividade