Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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do AS para ingressar no de positividade do S, aquela 
mesma paixão se torna gloriosa apoteose. A paixão de Cristo é, então, devida a um último assalto do AS 
contra um elemento que lhe foge para reingressar no S, ao mesmo tempo em que constitui a libertação 
deste ser em relação ao AS, assim como o seu triunfo no S. E esta a razão da estraciante crucificação, 
assim como da glória da ressurreição. A primeira representa o método próprio do AS que se acirra contra 
o homem que está para retornar purificado ao seio de Deus. Mas a zona de domínio do AS está delimitada 
e logo que Cristo lhe ultrapasse os confins, aquele AS perde todo o poder sobre Ele. Neste momento 
Cristo volta a ser cidadão do S, como ser de um Universo de outro tipo 
Eis que a paixão de Cristo nos mostra o maior fenômeno da existência que tenha sido 
experimentalmente vivido: o da superação evolutiva do AS e da evasão do mesmo para reingressar, 
vitorioso, no S. O fenômeno é bilateral, pois interessa simultaneamente ao AS e ao S, enquanto se realiza, 
ao negativo no primeiro e ao positivo no segundo. Cristo alcançava uma posição de avançadíssimo nível 
biológico, que nós todos deveremos atingir. Assim ele nos pôde mostrar a técnica de realização da 
passagem dos mais altos planos do AS para o S. Eis qual é o significado da paixão de Cristo: o do retorno 
do ser a Deus, depois de ter percorrido todo o ciclo involução-evolução. Com tal perspectiva, podia o 
Cristo recusar-se à paixão, quando sabia que com ela caminhava não para a morte, mas a uma vida bem 
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mais esplendorosa? 
Então Cristo é um elemento de nosso tipo AS, mas tão avançado no caminho que todos 
percorremos, a ponto de superar o nosso mundo e poder assim reingressar no S. Com isso Ele nos mostra 
aquilo que todos nós, cedo ou mais tarde, deveremos fazer. Daí o valor do seu exemplo, por ser o de um 
indivíduo situado nas nossas mesmas condições, que todavia realiza uma passagem normal em posição de 
perfeito enquadramento dentro da ordem da Lei. Isto não é mito, e sim realidade. Daí o seu valor positivo. 
Provavelmente Cristo tenha feito parte de uma humanidade tão evoluída a ponto de estar próximo do S, e 
dela descera à nossa humanidade involuída para sujeitar-se a uma prova purificadora muito mais feroz de 
quanto não comportasse Sua demasiadamente elevada humanidade. 
Talvez a culpa que Cristo tinha de pagar, consistisse no fato de ter exercido um grande poder 
nessa outra humanidade, mas em sentido egoísta, de tal modo a ter de repelir, com terror, qualquer 
soberania de tipo AS para usar todas as suas forças em sentido altruísta. Assim se explicam as 
humilhações a que ele foi submetido quando de Sua paixão: Sua paciência em suportá-las e seu espírito 
de sacrifício, oferecendo-se qual cordeiro expiatório para pagar as culpas dos outros, o que Lhe conferiu a 
qualificação de Redentor. Ora é evidente que a um indivíduo que se oferece como cordeiro, num mundo 
como o nosso baseado sobre um princípio de luta, não possa ter outra sorte senão a de ser liquidado. Num 
ambiente em que é lei que quem vale é o forte que sabe vencer o mais fraco, não pode ocorrer outra coisa. 
Cristo, com o seu método da não-resistência e amor para com o próximo se rebela contra tal 
mundo e pretende revirá-lo, ou melhor endireitá-lo em forma de S. Então o AS reage e emborca o Cristo 
Rei, crucificando-O como um malfeitor. O povo, pelo contrário, queria um Rei terreno, prepotente e 
dominador, de tipo AS. E nada faltava para que isso pudesse verificar-se. Bem poderia isso ter-se 
realizado no dia do ingresso triunfal de Cristo em Jerusalém, quando Ele estava no meio da multidão que 
o aclamava. Mas Ele recusou-se a ser um Messias nacional de tipo político, preferindo ser um Messias 
universal de tipo espiritual. O reino que Ele queria realizar não era deste mundo. Então o povo, quando se 
viu desiludido repeliu Cristo que pouco antes havia aclamado. Também Satanás oferece a Cristo o seu 
reino e Cristo não o aceitou. 
Temos aqui duas vontades e dois tipos de domínio opostos e Cristo estava no meio da luta, entre 
ambos, entre o AS que queria vencer o S, e o S que queria vencer o AS. Compreende-se, daí, o alcance 
apocalíptico do ato de Cristo. Seu exemplo nos transfere de relance dentro do maior fenômeno do 
universo \u2014 o da evolução \u2014 para ensinar-nos que o verdadeiro escopo da vida não consiste em gozar 
dos frutos do AS a não ser como um meio para alcançar sua verdadeira meta, que eqüivale a fugir daquele 
AS, mediante uma contra-revolta que se endireita no S. Cristo quis imprimir um sentido escatológico à 
fadiga de enfrentar a labuta de nosso caminho evolutivo no tempo, apontando-nos um outro e bem mais 
alto aspecto da vida e um seu mais profundo significado, consistente na supremacia do espirito sobre a 
matéria, proposta como ressurreição final do existir. 
De tudo isto o mundo de então nada compreendeu. Este viu em Cristo um Rei vencido e como 
tal o desprezou. Cristo, personificando o ideal do S, emborcava o modelo do AS. Entre os cálculos que o 
mundo fazia para os seus interesses e o grande discurso que Cristo entabulava com o Pai, não havia ponte 
de comunicação, nem possibilidade de entendimento. De um lado as paixões humanas, de outro a Lei. O 
jogo é entre estas duas psicologias demasiado diversas. Cada qual age a seu modo, com sua respectiva 
forma mental. Neste choque entre AS e S vemos os dois métodos, um ao lado do outro, que se mostram 
mais evidentes no momento da transição do AS ao S, que se verifica na hora da paixão de Cristo. São dois 
mundos, dois modos de existir que naquele momento se tocam. Astúcia, mentira, prepotência, injustiça, 
ignorância e ferocidade de um lado; sinceridade retilínea, bondade, justiça, sabedoria, amor, do outro 
lado. Naquela hora da paixão pôde-se ver como age o cidadão do AS e o que o homem é capaz de fazer. 
Poderia, porventura se imaginar mais cruel maltrato para um justo? Atraiçoado com um beijo, 
vendido ao preço de um escravo, tratado como malfeitor, abandonado pelos discípulos, insultado, 
torturado, morto, tudo isso por ter pregado bondade e justiça e não ter praticado senão o bem. Vê-se nisto 
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a volúpia do AS, de destruir tudo o que é S, sobretudo quando este ousa penetrar no seu Reino. O AS 
acirrou-se contra Cristo com pressa febril, porque sabia que os momentos em que a vítima deveria ficar 
prisioneira no campo do AS, estavam contados, depois dos quais a mesma ter-lhe-ia escapado para 
sempre. Mas mesmo Cristo o sabe e permite que as forças do mal desabafem e cumpram a sua função 
purificadora, para que em tudo se realize a vontade da Lei. Tudo é previsto, pré-ordenado, medido. Assim 
o AS permanece sempre servo do S, encarregado de cumprir a função que o S lhe faz executar e não mais. 
Pobre AS! Construído de cabeça para baixo, não pode funcionar senão para obter resultados opostos aos 
que desejaria. E o emborcamento de que ele nasceu o constrangera a agir em tal sentido, até ser destruído 
pelas suas próprias mãos para maior glória de Deus. 
Com o enforcamento de Judas o AS nos faz ver como ele recompensa os seus sequazes. Os 
métodos do AS se revelam no modo de comportar-se do Sumo Sacerdote Caifás, do sogro Anás, do 
Sinédrio, de Pilatos, da multidão dos Saduceus e dos Fariseus que assistem ao julgamento, de Herodes 
etc. Mas, perante este bando de indignos, com quanta evidência o comportamento de Cristo em cada 
momento de Sua passagem sobre a Terra dá testemunho com a palavra e com a ação \u2014 dos métodos que 
caracterizam o SI Todavia, que podiam entender aqueles homens? Assim Cristo foi tratado como um 
louco. E quando ele explicou