Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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um progressivo manifestar-se de 
inteligência e espiritualidade. Com a evolução elas se revelam sempre mais potentes, até que a maturação 
do fenômeno conduz fatalmente a um ponto de ruptura: Nesse momento acontece que o princípio do S, 
embora tendo ficado sepultado com a Queda, permanecera, contudo, sempre vivo e ativo em sua estrutura 
íntima no centro do AS, e reaparece, enfim, em toda sua potência originária. Neste momento o ser não é 
mais um elemento do AS, mas do S, isto é, resulta constituído da pura Substancia de Deus, como era na 
hora da Criação primigênia. Por isso, Cristo pôde ser o Homem-Deus, ou seja, o homem que voltou a ser 
Deus, enquanto na sua passagem sobre a Terra era cidadão de dois mundos, o AS e o S, lutando para 
libertar-se do primeiro e reingressar definitivamente no segundo. Só assim, olhando-O com tais critérios 
racionais objetivos poder-se-á compreender o fenômeno do Homem-Deus. 
Na realidade Cristo foi o antecipador de uma experiência profundamente humana, como o 
desprender-se do mundo por ter superado os métodos deste, no plano evolutivo. A humanidade não 
compreendeu e por isso não pode explicar-se este caso de Cristo. Mas intuiu sua importância, tanto que, 
construindo sobre o mesmo um mito gigantesco, O colocou no centro do universo. Isto prova que no 
fenômeno deve haver algo real e biologicamente muito importante, capaz de explicar tal reconhecimento. 
Tão vastos consensos nascem somente das profundas raízes da vida e não podem produzir-se 
artificialmente ou coativamente. Tais impulsos instintivos derivam de forças biológicas que levam a 
reconhecer a importância do fenômeno e a aceitá-lo; ainda que confusamente e sem discernimento 
fizeram sentir em Cristo o Deus reencontrado. Não se trata portanto de uma simples deificação de um 
homem, como costumavam fazer os pagãos, mas do reconhecimento de um fato biologicamente 
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fundamental, como o reencontro de Deus por parte do homem. E qual fato poderia ser mais importante do 
que este em que se resolve o processo evolutivo de tal forma que, chegados ao ápice da evolução, 
regressa-se ao S, alcançando assim a meta final a que tende a vida? 
Cristo não representa apenas a fraqueza de nossa carne, o que o torna semelhante ao homem, 
mas também e sobretudo a força do espírito que é potência divina. Cristo constitui o endireitamento de 
tudo o que foi emborcado pela Queda e constitui ainda o regresso ao Pai e a reconstrução da ordem 
violada. A crucificação não se explica como uma vingança imposta por um Deus egoísta que recebeu uma 
ofensa e exige que a mesma seja paga por um inocente. A crucificação explica-se como a desesperada 
resistência da negatividade do AS contra um ser que lhe escapa porque pertence quase todo à positividade 
do S. A crucificação revela os métodos destrutivos próprios do AS que quer aniquilar o que até aquele 
momento lhe pertenceu, antes que cedê-lo ao S. O AS não quer que se abra aquela única porta que 
permite a seus súditos voarem para o S. Quanto maior o número dos seres que se evadem para o S tanto 
mais este se reforça,
 
e quantos mais ficam no AS tanto menos este se enfraquece. O AS sabe que estas 
evasões significam o seu fim e portanto as teme e as dificulta. 
Compreende-se deste modo toda a lógica da Paixão de Cristo, choque apocalíptico de forças 
opostas,
 
no momento final do ciclo involutivo-evolutivo que redime a Queda. O AS se manifesta com o 
seu feroz assalto feito de dor (crucificação), o S com o seu luminoso triunfo na esfera da vida 
(ressurreição). Temos duas explosões opostas, uma ao negativo, a outra ao positivo. Com isto cada um 
dos dois universos revela a sua natureza. O primeiro manifesta-se infligindo derrota e morte, o segundo 
com a vitória da vida. Colocados frente a frente em seu antagonismo, crucificação e ressurreição dão-nos 
em síntese a solução do drama da Queda e a realização do prodígio da Salvação. 
Por que existe tal psicologia agressiva no AS? Porque o evoluído que lhe escapa para reentrar 
no S é para ele um traidor, um rebelde. Quem doa a Deus é um inimigo do Anti-Deus,
 
é um perjuro que 
passa para o lado oposto, um pecador indigno que há de ser punido. Por isso o AS desencadeia suas 
tempestades contra quem se torna culpável de rebelião ao método de viver de tipo AS. Satanás tenta 
Cristo nos momentos em que O reputa mais fraco. Mas Cristo tem a luz do S e não se deixa pegar. Quem 
chegou aquela altura não pode mais ser enganado. Mas Satanás se vingará duramente. 
No último momento da Paixão, Cristo ficou Sozinho. "Meu Deus,
 
meu Deus, porque me 
abandonaste?" A fadiga da superação devia ser toda de Cristo. Mas logo depois eis o "Consumatum est" 
("Tudo se cumpriu"). Sucede, então, o desligamento do AS, que perde todo o poder sobre Cristo. Daquele 
momento em diante Ele é livre e encontra-se no S. A ressurreição significa um ressurgimento para uma 
nova vida que se substitui à velha, continuando sob outra forma, segundo outro tipo de existência, 
espiritual em vez de material. Eis que Cristo realmente morreu porque uma vida cessou para Ele, e 
ressuscitou de verdade porque iniciou uma nova vida. Eis, pois, como até perante a Sua morte e 
ressurreição podemos reputar-nos ortodoxos, enquanto as admitimos ambas, mas num sentido mais 
razoável e portanto mais aceitável. Nós também podemos afirmar que Cristo voltou ao Pai, porque o Pai é 
Deus, e Deus é o S, e retornou de verdade porque tinha percorrido todo o ciclo involução-evolução, 
voltou ao Pai do qual se tinha afastado com a Queda. 
Somos ortodoxos também, pelo fato de afirmarmos que Cristo foi Redentor, pois Ele foi 
mestre de redenção, da qual fundou uma escola ainda viva, que é o Cristianismo. De fato é freqüentando 
aquela escola e seguindo o exemplo de Cristo que cada qual pode redimir-se com o seu esforço. Foi por 
isso que as forças do AS se acirraram em modo especial contra Cristo, porque Ele era um gigante que 
abria e alargava uma estrada, o construtor de uma ponte para atravessar, o general de um exercito de 
rebeldes contra o AS, do qual eles fugiam para salvar-se no S. Assim podemos também afirmar que Cristo 
foi o Salvador, porque ensinou a alcançar a salvação, realizando o cataclismo do endireitamento corretivo 
do cataclismo da Queda. Naquele momento Cristo venceu Satanás, o S venceu o AS, a evolução, tendo 
amadurecido, desembocou no Céu, nova pátria, à espera da hora do retorno. 
E que significa reingressar no S? Significa sair da zona de atração do AS, para entrar na do S, 
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significa sair do campo gravitacional de signo negativo para entrar no campo gravitacional de signo 
positivo. Quando isto acontece a posição originária resulta emborcada, perante o AS, mas endireitada 
perante o S. O mesmo fenômeno se dá no plano físico, com o afastar-se de um planeta para aproximar-se 
de outro. Ficamos então sujeitos a outras forças, porque ingressamos em sua zona de ação. Passa-se então 
da ordem de impulsos anti-Lei à ordem de impulsos inerentes a Lei. Daí em diante só estes entram em 
função e o dualismo desaparece. Isto porque, então, em vez de volver ao centro anti-Lei, dirigimo-nos 
exclusivamente para o centro Lei. 
Com isto, muda para cada ser o ponto de referência em relação ao qual ele funciona. No 
primeiro caso o trabalho se cumpre em campo e posição de signo negativo, sendo cada um impelido por 
impulsos de tipo oposto do outro campo. Isto significa dor, como corretivo do erro para pagamento da 
dívida contraída com a revolta perante a justiça da Lei; e dado que o centro de atração está em baixo, é 
inevitável que, para vencer aquela atração, se deva voltar a