Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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subir com o próprio esforço o caminho 
percorrido em descida com a Queda. No segundo caso a existência se verifica em campo e posição de 
signo positivo, sendo cada ser sustentado por forças de tipo oposto aquelas do outro campo. Isto significa 
conhecimento que permite evitar o erro e a dor; significa paz, porque a dívida contraída perante a justiça 
da Lei com a revolta foi paga; significa, enfim \u2014 porque agora o signo de atração fica no alto \u2014 
continuar, segundo aquela atração, a dirigir-se espontaneamente e alegremente em direção ao mesmo. 
Os dois campos existem em posições opostas. No caso do AS, sobre o ser que deve a suas 
custas redimir-se, pesa o esforço de vencer a atração do pólo negativo do AS, para atingir o S. No caso 
do S, basta que o ser se abandone,
 
docilmente, às
 
forças do mesmo, porque elas, em vez de trabalharem, 
com as precedentes, a seu dano, trabalham em sentido oposto, em sua vantagem. Então o esforço 
ascensional do ser não é mais necessário, porque o percurso da evolução se cumpriu; no S o esforço do 
transformismo e a luta do dualismo cessaram. Então o indivíduo não se encontra mais em campo inimigo 
a mercê de impulsos contrários, mas em campo amigo à mercê de impulsos que o secundam. 
No primeiro caso o trabalho para salvar-se deve vencer todas as resistências de um ambiente 
negativo, contrário à salvação, sem dispor de outras forças senão as do indivíduo que deve salvar-se com 
o seu esforço. Trata-se, pois, de uma vida de desesperados e de uma dura redenção. No segundo caso a 
salvação é realizada num ambiente construído para ela e só repleto de impulsos positivos. O primeiro é 
um ambiente de antagonismos e resistências, o segundo de concórdia e colaboração. 
Eis, pois, em que consiste a passagem do AS ao S, isto é, o fenômeno vivido por Cristo para 
nos mostrar as vias da salvação. Se Cristo escolheu como missão encarnar-se no nível evolutivo do 
homem, isto nos revela o Seu desejo de mostrar-nos a técnica da passagem do AS para o S. Sem dúvida 
alguma, a figura do Cristo nos revela uma natureza bem diferente da do homem comum e superior à dos 
mais elevados exemplares da raça humana. Mas justamente isso nos prova que Ele havia alcançado o 
limite máximo da evolução, o que lhe tornava possível sair do AS. Isto significa que Ele viveu um 
fenômeno que nos concerne a todos, por representar o limite conclusivo do ciclo involutivo-evolutivo, 
ponto final da salvação que todos deveremos alcançar para reingressarmos no S. 
 
 
 
 
Cristo 
 
Segunda Parte 
 
Evangelho e Problemas Sociais 
 
 
Cristo Pietro Ubaldi 
 
 41 
 
 
IX 
 
A JUSTIÇA SOCIAL 
 
 
Rico e pobre. A justiça social segundo o Evangelho e as leis biológicas. A 
evolução em direção ao estado orgânico. Funções, abusos e liquidação do rico. 
 
 
 
Procuramos, até aqui, entender a figura do Cristo. Procuremos agora entender o Evangelho,
 
sobretudo em relação aos problemas que ele levanta no campo social. Comecemos pelo problema, hoje 
tão vivo, do rico e do pobre, até agora não resolvido e que está na base de todas as agitações sociais. Ve-
jamos como o Evangelho o enfrenta e resolve. A tal propósito o pensamento de Cristo perante a riqueza é 
tão claramente expresso que não deixa dúvidas: "Cada um de vós que não renunciar a tudo o que possui,
 
não pode ser meu discípulo". \u2014 "Se quiseres ser perfeito, vai, vende tudo aquilo que tens, dá aos pobres e 
terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me. \u2014 Sim, vo-lo repito: é mais fácil um camelo passar pelo 
buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus". \u2014 "Não acumuleis tesouros na terra, 
onde a ferrugem e o caruncho os consomem, e os ladrões os desenterram e os roubam; mas, pelo 
contrário, acumulai tesouros no céu". 
Cristo continua confirmando: "Bem-aventurados vós que sois pobres, porque é vosso o Reino 
de Deus. Bem-aventurados vós que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados Vós que 
agora chorais, porque rireis (....). Naquele dia alegrai-vos, estremecei de alegria, porque eis que uma 
grande recompensa vos esta reservada no Céu (....). Mas ai de vós, ricos, porque ia tivestes a vossa 
consolação. Ai de vós que fostes saciados, porque tereis fome. Ai de vós, que agora rides, porque ficareis 
na dor e nas lagrimas". 
O homem moderno que vive em diversas condições de ambiente social pode achar estranha e 
excessiva esta linguagem. No entanto ao se pensar naquilo que era o mundo no tempo do Cristo, deve-se 
reconhecer que uma tão dura condenação correspondia à justiça. Então a riqueza era fruto de rapina e 
delitos, enquanto que, por evolução, hoje ela é sempre mais produto da inteligência e da laboriosidade 
Naquela época o pobre era um escravo de muito baixo nível cultural e econômico. Hoje ele é um 
trabalhador, freqüentemente técnico e especializado, armado de direitos e protegido por todas as 
previdências sociais; no seu nível, constitui até uma roda do grande organismo coletivo da produção. 
Um homem pratico moderno poderá achar confusa, no Evangelho, aquela mistura de problemas 
espirituais com os econômicos, que são, pelo contrario, cada um objeto de uma competência diversa, a do 
teólogo-moralista e a do economista. Mas é necessário compreender que nos tempos de Cristo a estrutura 
social era muito mais simples, pelo que eram mais fáceis estas aproximações entre extremos tão 
afastados, tais como o são a religião e a distribuição e administração da riqueza. Hoje estes dois extremos 
esta o demasiadamente sujeitos, cada um, a uma sua técnica específica para que se possam misturar. Os 
dois campos se tocam, mas não se podem sobrepor e confundir. Levando isso em conta, o Evangelho há 
de ser entendido e não tomado ao pé da letra, dado que hoje os problemas por ele tratados no campo 
econômico apresentam-se em forma definida com mais exatidão e caracterizados por uma complexidade 
então desconhecida. 
O Evangelho ressente-se de um simplismo só tolerável perante a economia elementar do seu 
tempo. Hoje não vivemos na sociedade caótica de então. Tudo, hoje, tende a ser disciplinado por um 
exato cálculo de direitos e deveres em regime de reciprocidade, próprio do estado orgânico que a 
Cristo Pietro Ubaldi 
 
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sociedade tende progressivamente a alcançar. Para compreender os trechos do Evangelho acima referidos, 
comecemos por observar o problema da distribuição da riqueza na forma mais simples que ela assume na 
humanidade em seu estado primitivo e instintivo, não ainda controlado e disciplinado pela inteligência do 
homem. 
Neste nível evolutivo a posse, não ainda legalizada em forma de propriedade reconhecida, e o 
resultado de uma rapina, é o sinal de uma vitória violenta contra todas as dificuldades do ambiente e as 
resistências de forças opostas. A posse é o produto de um esforço, de um perigo que se soube afrontar e 
superar, e prova de um valor; razão pela qual, perante as leis da vida, aquela posse representa um prêmio 
merecido. Neste sentido aquela posse corresponde a um principio de justiça, pelo menos ao princípio de 
justiça em tal nível de evolução. É certo que aquela posse é produto de uma violência, porque 
gratuitamente não se consegue; mas ela presume no indivíduo uma força e uma astúcia, que naquele 
ambiente são as qualidades que dão direito à vida, reservada aos vencedores na luta. Como tais, eles têm 
mais direito do que todos os outros a sobrevivência, porque em relação aquele plano representam o 
melhor biótipo. Ninguém pode contestar ao leão a legitimidade do seu direito, matando os animais que 
quer, para devorá-los; direito baseado no fato de que esse leão soube capturá-los, e sabe