Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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das 
limitações que a pobreza impõe. 
Para fugir à inexorável condenação do Evangelho sem deixar de possuir, o mesmo há de ser 
interpretado no sentido que o ser rico não impeça permanecer como o pobre de espírito para o qual Cristo 
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vaticina o Reino dos Céus. Pobre de espírito quer dizer permanecer mentalmente desprendido daquilo que 
se continua a possuir materialmente. Ora, um tal estado de alma constitui-se, contudo, num fato interior 
que por ser invisível e portanto incontrolável, bem pode permitir que alguém se finja de desprendido a 
ponto de fazer-se de pobre de espírito, sem o ser verdadeiramente e sem renunciar a nada na realidade. Há 
no entanto a Lei para a qual o que tem valor são os fatos e não as palavras, a substância e não as 
aparências e em virtude da qual a hipocrisia não impede que tais erros se paguem. 
 A vida dá, pois, ao homem o direito de ter, mas este direito é condicionado pelo cumprimento 
dos fins da Lei. Em virtude desta, torna-se, portanto, ilícita toda posse da qual não se faça bom uso. A Lei 
quer a propriedade, mas disciplinada, ou seja, só a legítima do administrador responsável que dê prova de 
sabedoria. Trata-se, assim, de uma propriedade condicionada, pois, na realidade, não vai além de um 
usufruto temporário, que dura apenas enquanto se viva, enquanto é concebido para servir de instrumento à 
realização de nossa evolução. E este modo de conceber a propriedade fica evidentemente aos antípodas do 
modo corrente. 
A vida não quer a propriedade monopolizante, exploração do próximo, mas uma propriedade 
função-social para o bem coletivo. É só a propriedade do primeiro tipo que o comunismo pode destruir, 
porque maléfica, em nome da justiça social. Mas se o comunismo tivesse encontrado uma propriedade do 
segundo tipo \u2014 a qual ela deverá realizar-se nos estados democráticos da futura civilização \u2014 então o 
comunismo pouco poderia contra ela, mesmo se em nome da justiça social. 
A evolução conduz à destruição somente da propriedade que traz dano coletivo pelo mau uso 
que dela se faça, não destrói, ao contrário, consolida e aperfeiçoa a propriedade que seja útil à sociedade 
pelo correto uso que dela se faça. A vida, no seu sábio utilitarismo, não quer \u2014 porque contraproducente 
\u2014 a falta de retidão nos negócios, na manipulação do dinheiro, porque não quer o dano social que, via de 
regra, é provocado pelo improdutivo devorador de bens. 
É por isso que \u2014 até nos países capitalistas quanto mais se evolui, tanto mais o ilimitado direito 
de propriedade sofre restrições em favor dos interesses da coletividade. Sucede então que a ostentação de 
um luxo exagerado provoca reações, quando ao lado disso se vê a miséria que impera, fonte de muitos 
sofrimentos. Os países democráticos respeitam o direito da propriedade, admitem as diferenças 
econômicas, fruto de trabalho e de capacidade diversa, com uma economia de consumo que levam 
também a um maior bem estar. Mas os mesmos países, quanto mais se civilizam tanto mais são levados a 
proteger-se para que o dinheiro seja bem gasto, tanto pelo indivíduo como pela coletividade, porque cada 
desperdício acaba por tornar-se uma pedra coletiva a ser compensada com maior trabalho de todos. 
A tendência da evolução não é a da abolição da propriedade, critério contraproducente, porque 
solapa o interesse individual, sem o qual o homem não trabalha. Este é ainda um individualista 
egocêntrico, imaturo para saber viver espontaneamente no estado de coletividade orgânica. Assim ele não 
pode chegar àquele nível senão à força, com formas de coação policialesca, contraproducente porque 
cheia de atritos, opressões e resistências. Logo a tendência da evolução é, pelo contrário, a de aperfeiçoar 
a propriedade, levando-a a formas mais profícuas para o bem estar e progresso de todos, sem 
açambarcamentos e privilégios individuais, até com sacrifício do indivíduo, compensados, contudo, por 
vantagens coletivas que são também suas. A evolução conduz sempre a um melhoramento, a uma cres-
cente utilidade e é por este fato que a vida,
 
que é utilitária, aceita a propriedade. 
O comunismo quis antecipar demasiadamente os tempos presumindo no indivíduo uma 
maturidade que não existe, uma consciência coletiva que o torne apto a viver no estado orgânico, uma 
consciência ainda a conquistar, da qual se está ainda longe. Eis então que o comunismo pode cumprir uma 
função útil à vida \u2014 enquanto sob forma de imposição ou de coação \u2014 serve de escola que ensina a viver 
em forma coletiva e enquanto com a antecipação de um futuro hoje utópico, pode servir para lançar no 
mundo democrático idéias de justiça social que neste eram desconhecidas. 
Assim a evolução utiliza também o comunismo para nos avizinhar das suas notas mais remotas, 
que não são nem as dele nem as do capitalismo: a não-abolição da propriedade e a não-ilimitada 
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liberdade, mas conservação e disciplinamento daquela propriedade. Tende-se, assim, ao caso limite no 
qual o proprietário não é senão um administrador dos bens que possui, responsável pela sua gestão peran-
te a coletividade. Chega-se deste modo ao conceito de uma propriedade que não é mais mero direito 
individual, mas função social sem que com isso essa propriedade seja abolida como no comunismo, sain-
do das mãos do indivíduo que a possui. 
Então o direito de propriedade é correto como princípio de responsabilidade, pelo qual aquele 
direito permanece, porém disciplinado por uma responsabilidade tanto maior quanto maior é a 
propriedade. É o conceito de função social que investe sempre mais as várias atividades individuais, como 
já tínhamos visto estar acontecendo para o exercício da autoridade. Chegar-se-á, assim, a confiar a 
suprema direção de nossa vida não mais apenas, como hoje acontece, aos valores econômicos, mas 
também aos valores morais. Então o dinheiro será colocado no seu justo lugar, o que lhe cabe enquanto 
instrumento de vida e de civilização, de progresso cultural e espiritual, de ascensão biológica, como quer 
a, Lei de Deus, em direção a sempre mais elevados níveis de evolução. 
 
 
 
 
XII 
 
 
O IDEAL NA TERRA 
 
 
O ideal e a realidade da vida. A moral da hipocrisia. A autoridade, função 
de utilidade coletiva. A pobreza,
 
mal social. Organizar o trabalho produtivo das 
massas. 
 
 
 
Para melhor compreendermos os três precedentes capítulos,
 
vamos dar um exemplo prático. Um 
jovem,
 
filho de pais milionários, poderia viver de bens hereditários. Decidiu, ao contrario, viver 
exclusivamente de seu trabalho, para manter sua família. Com isso, renunciou à herança. O tempo e as 
energias que sobravam do seu trabalho queria aplicá-los numa obra de caráter intelectual, não 
remunerado, com o mesmo desprendimento de quem cumpre uma missão. Estava,
 
portanto, em paz com a 
sua consciência. Ele tencionara aplicar as palavras do Evangelho: "Procurai em primeiro lugar o Reino de 
Deus e a sua justiça, e todo o resto vos será dado por acréscimo. Não vos preocupeis, pois, pelo dia de 
amanha". 
Abandonando os seus bens, aquele homem rico acreditava receber algum prêmio do Céu,
 
mas 
achou-se pobre a lutar pela vida. Se permanecesse rico, ter-lhe-iam sobrado bem mais energias, tempo e 
meios que agora lhe faltavam, para perseguir seu ideal. Ora, por querer seguir o Evangelho ao pé da letra, 
ele havia caído num estado oposto, àquele espiritual anteriormente divisado. Seria, por isso, um falido? 
Ele se desprendera das riquezas e desdenhava sua importância, porque não lhes faltava coisa 
alguma. Todavia, com a experiência da pobreza,
 
foi