Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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ideal fosse assumido de vez em toda sua 
plenitude, só poderia funcionar como negação da vida, como ela é, no seu atual nível humano, com 
efeitos contrários à própria lei evolutiva. 
Por isso não devemos escandalizar-nos se os cristãos \u2014 a Igreja incluída \u2014 não aplicam o 
Evangelho ao pé da letra. Este, com efeito, se refere aos maus ricos que fazem mau uso de sua riqueza. E 
se no passado houve abusos, é porque nada melhor se podia pretender de uma humanidade de baixo nível 
moral, entregue a um contínuo estado de luta e que, para sobreviver deveria dispor de uma consciência 
muito elástica. As leis biológicas não brincam e não hesitam em matar quem não lhes obedece. Segundo. 
elas o miserável é um vencido que não tem direito à vida. As vezes somos tomados por um sentido de 
piedade ao vermo-nos quais pobres cidadãos do AS, mergulhando na animalidade, ao percebermos o 
drama do ideal caído na Terra onde tudo o nega e o sufoca, e ao sentir quanto custa vivê-lo contra as 
resistências de nosso mundo involuído para sairmos do pântano e subirmos de novo para regressar a 
Deus. 
Eis que a pobreza pode embrutecer até o espírito. Conforme as leis biológicas a pobreza não é 
uma virtude, mas um defeito, o estado atrasado e doentio de uma coletividade que não soube vencê-la 
Esta é a realidade que a vida contrapõe ao ideal. A pobreza é miséria que conduz para baixo, enquanto a 
riqueza pode ser base de civilização. Assim o voto que devemos formular para o bem da sociedade não é 
o da pobreza, fomentadora do parasitismo, mas a realização de trabalho produtivo, o único que a ajuda a 
progredir. A pobreza pode ser uma desgraça que merece ajuda, mas pode também ser o produto de 
ineptidão, preguiça ou má vontade, uma posição merecida de quem se recusa à fadiga da luta pela vida. 
O mundo moderno muda completamente de atitude perante o problema da pobreza. Não tendo 
sabido resolvê-la no passado, o homem se tinha adaptado a considerá-la como uma fatalidade. O 
Evangelho chegou ao extremo de propô-la como uma virtude. Com tais interpretações disfarçava-se o 
mal, evitando, assim, de encará-lo. Os pobres paralisados pela sua própria inércia e ignorância, pela inuti-
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lidade do esforço, se tinham conformado com aquelas tristes condições, tidas como inevitáveis. 
Recorria-se, então, a paliativos, ou seja a esperança das compensações do além túmulo. E a 
esmola? Esta não resolve, porque deixa o pobre na sua miséria, enquanto aplaca a consciência do rico, 
consentindo-lhe a continuar gozando de suas riquezas e até fazer-se de benfeitor. Para manter este estado 
de coisas também o Evangelho contribuiu, e esta é uma das razões de sua aceitação no passado. Que coisa 
melhor do que uma religião que contenta os pobres apenas com promessas de justiça numa outra vida? 
O problema estava assim resolvido podendo os ricos preservar seus privilégios além da fama de 
pessoas piedosas e de homens de bem. Que esplêndida solução O mal não é eliminado, mas conquanto 
não cause aborrecimento,
 
tudo vai bem. 
Hoje tudo está mudando porque a vida se fundamenta sobre outros princípios. Outrora, as 
diretrizes sociais eram determinadas pelo indivíduo vencedor da luta, o qual as estabelecia em função do 
próprio interesse. O indivíduo que conseguira subir, vencendo seus rivais, exercia seu domínio sobre 
todos, que, por serem menos fortes, não tinham outra chance senão obedecer. Por isso vigorava o 
princípio de autoridade que exprimia tal método de vida. Era o triunfo do individualismo. A sociedade era 
organizada hierarquicamente, conforme o principio do comando e da obediência. 
Quem comandava não devia prestar contas senão aos seus superiores e tinha sempre razão 
perante os seus inferiores. E, ainda hoje, subsiste tal mentalidade entre os indivíduos menos evoluídos. 
Diverso é, porém, o princípio que hoje começa a prevalecer. Toda autoridade, todo poder \u2014 e 
também o poder econômico do rico \u2014 não é mais um direito conquistado pelo indivíduo, com a violência 
e imposto aos vencidos, mas é uma função social outorgada pela coletividade, que lha delegou \u2014 é, pois, 
um encargo que lhe pode ser retirado desde que ele se mostre incapaz de cumprir aquela sua função. 
Assim, ao princípio individualista e egocêntrico substitui-se o coletivista da cooperação. Trata-se ainda de 
um utilitarismo não mais individual, mas da sociedade, pelo qual não se destrói, mas se potencializa o 
próprio utilitarismo do indivíduo. Isto sucede porque aquela sociedade passa do estado mais ou menos 
caótico do passado ao estado orgânico, em que cada elemento deixa de lutar contra os outros, juntando 
seus esforços ao deles para a maior vantagem de todos. Então até o trabalho se torna uma função social, 
uma atividade de interesse coletivo e não mais de tipo exclusivista ou separatista. Com isto o próprio 
indivíduo acaba ganhando, porque é compensado em seu sacrifício pelos outros, com o sacrifício dos 
outros em seu favor. 
Trata-se portanto de um método nada antivital, aliás, altamente vantajoso para todos. Por isso, 
logo assimilado pela vida, quando dá prova de saber compreender que o maior poder é o maior alcance de 
seus esforços desde que sejam coordenados com os de todos os outros. Também com tal método chega-se 
a uma hierarquia, a qual, porém,
 
não se baseia em nenhuma coação, mas na coordenação livremente aceita 
por todos dada a sua utilidade coletiva. Assim sendo, na coletividade não é admitido quem não cumpre a 
função que lhe compete e é expulso quem diz ser o que não é e diz fazer o que não faz. Há uma ação de 
rejeição por parte do organismo social, contra os elementos para ele inúteis ou danosos. Então cai o 
tradicional sistema da hipocrisia, caem as máscaras, porque o fingimento não tarda a produzir posições 
falsas que pesam sobre a coletividade que portanto as rejeita. Nasce assim uma nova moral, consistente 
em não cometer aquele pecado social de prejudicar o próximo. 
Num tal regime o pobre não é um estranho ignorado que basta manter quieto e longe, pois é um 
componente daquele organismo social que pertence a cada um, porque cada um é parte integrante dele. 
Segundo a velha psicologia o que era da coletividade era de todos, e por isso reputava-se como não per-
tencente a ninguém. Desse modo,
 
não podia haver interesse em defendê-lo. Com a nova psicologia o que 
é da coletividade é a de cada um, portanto também constitui um bem meu porque eu sou parte dela. 
Interessando a todos defendê-la. Eis, então, porque hoje a pobreza não é mais um fato particular mas um 
mal social que toca a todos, um mal da coletividade, merecedor de sérios cuidados. Não é possível ser 
individualmente rico num pais de pobres. Logo, a pobreza hoje, é um defeito dos povos e não virtude, 
sendo indispensável que se lute para eliminar este defeito. Ora, em vez de consolações de além-túmulo e 
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vãs esmolas ou semelhantes anestésicos, hoje se organizam as massas educando-as ao trabalho produtivo 
que lhes proporciona a independência econômica e as torna auto-suficientes por elevar o seu nível de vida 
ou, quando isto não seja possível, recorrendo ao meio extremo da esterilização ou pelo menos do controle 
da natalidade, para que a lepra da miséria não prolifere expandindo-se sem fim. 
 Diz um provérbio chinês: "Se quiseres ajudar um homem, não lhe ofereças um peixe, mas 
ensina-o a pescar . Eis os dois métodos: o da beneficência e o do trabalho para todos. Mas no passado o 
trabalho era obrigação de servos faltando uma mais eficiente tecnologia de organização econômica, um 
adequado desenvolvimento mental capaz de levar ao rendimento atual. O problema não