Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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porque tem mais direitos, dispõe de 
maiores meios e de maiores conhecimentos, ao mesmo tempo em que lhe cabe cumprir a importantíssima 
função social de dirigir e impelir para a frente, materialmente e espiritualmente, todos os outros. 
Hoje começa-se a compreender que o método do assalto à riqueza para roubá-la aos seus 
detentores é contraproducente porque estes sabem defender-se,
 
que a tentativa não só é de êxito duvidoso 
mas leva,
 
inevitavelmente, a uma luta arriscada e deletéria para todos. No passado, quando havia dois cães 
disputando o mesmo osso, um dos dois matava o outro e comia o osso sozinho. Hoje tende-se a reduzir o 
dano com a busca de um segundo osso, de modo a evitar que cada cão tenha de matar o outro ou correr o 
risco de ser por ele morto. Hoje, pelo contrário converte-se razoavelmente tal esforço no sentido da 
produtividade. Este sistema convém ao pobre, porque por via pacífica pode o mesmo chegar ao bem estar, 
com menos esforço e sem muito arriscar, assim como convém ao rico que, indo ao encontro do pobre e 
ajudando-o a trabalhar e produzir, não corre o risco de ser por este liquidado. Impõem as leis da vida que 
para a solução de um problema se escolha o caminho do menor esforço e de maior rendimento. Procura-se 
assim alcançar o maior resultado possível aquilatando o esforço de maneira a evitar um maior dispêndio 
de energias. Como vimos,
 
tende-se, assim, nos países mais civilizados, a substituir, na conquista da 
riqueza, o método do assalto com a violência pelo método pacífico da organização do trabalho e 
produção. A vida, sendo utilitária, já tende por sua conta a esta transformação que abranda a luta, prova 
esta de que a evolução conduz a um melhoramento. Vê-se, então, como o preceito evangélico: "ama o teu 
próximo" tenha antecipado os tempos modernos. 
Tal treinamento da vida no plano humano tende a agrupamentos em unidades sempre maiores, o 
que implica em levar a sociedade para o estado orgânico. Eis que o Evangelho, ensinando, pela máxima 
do amor recíproco, o sistema da cooperação, tende ao mesmo resultado. Tudo isto confirma a lei de 
evolução, a qual leva inelutavelmente a sua atuação. Nesta mesma linha de desenvolvimento da vida, 
inseriu-se o Cristo quando \u2014 com base no princípio do Amor \u2014 iniciou o seu movimento de justiça 
social, impulsionando os homens em direção a um estado de recíproca compreensão e colaboração, ou 
seja para um estado orgânico e unitário da sociedade. É sobre esta mesma linha de evolução que se 
colocam os ricos hoje em dia, pois numa prova de maior perspicácia, compreenderam que para eles é bem 
mais conveniente proceder com justiça para com os pobres, favorecendo o movimento da sua ascensão, 
do que ficar expostos a sofrer periodicamente o impacto de revoluções sangrentas, como direta resposta às 
injustiças perpetradas. Verifica-se que hoje a luta contra a miséria não é mais entregue à iniciativa 
esporádica de algum filantropo, pois compreendeu-se que o mal tem de ser curado. Mesmo sem pôr em 
dúvida o poder da Divina Providencia, prefere-se, hoje, procurar resolver o importante problema pelo 
caminho da organização social que prevê, provê, educa e regula a reprodução demográfica, dirige e faz 
render o trabalho. Eis que hoje encontrando-se o homem num grau mais avançado de evolução pode 
realizar uma maior aproximação do que as antecedentes, na execução do princípio de justiça, numa forma 
que não era viável nos tempos de Cristo. O Evangelho marca, assim, uma primeira etapa deste caminho, a 
qual outras mais avançadas se sucederiam por lei de evolução. É assim que a Lei e os métodos do S se 
realizam cada vez mais na Terra. Cristo moderou seu programa de ação renovadora pelas capacidades de 
atuação do mundo de então. Que Ele tivesse enveredado pelo caminho certo comprovam-no as posteriores 
etapas do progresso fazendo com que Suas idéias germinassem e operassem as mais elevadas conquistas 
sociais de nossa era, impensáveis sem aquela semente. 
Não se pode negar que todo o movimento moderno em favor da justiça social encontre o seu 
primeiro germe no Evangelho. No jogo das compensações que levou avante o programa desta grande 
meta, Cristo introduziu com a sua pregação o fator espiritual na vida pública. A prescindir do fato de ser 
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este fator alcançável a longo prazo, ninguém poderá negar que o mesmo redundou em poderoso momento 
para o desabrochar da teoria da justiça social, sobre bases que \u2014 apesar de metafísicas e sobrenaturais \u2014 
penetravam contudo na mente do povo. Com efeito, Cristo oferecia um novo poder aos deserdados 
apontando-lhes um Deus que estava ao seu lado, para defendê-los e fazer-lhes justiça. Os Romanos 
tinham a seu próprio serviço os Deuses pagãos dentro de uma religião concebida para uso da classe 
dirigente. Em Cristo os escravos encontraram um Deus próprio, um Deus protetor de todos os pobres para 
compensa-los da prevaricação dos patrões e dos ricos. Assim a afirmação que estes devem ajudar aqueles 
torna-se um princípio religioso, um mandamento de Deus, coisa que, mesmo se irrealizável, já
 
representava um direito absoluto. Formou-se assim e ficou, mesmo que ao estado potencial, uma carga 
mental de impulsos reativos tendentes a realizar (como se dará mais tarde) os ditames de Cristo em 
matéria de justiça social. Eles estabelecem o dever, por parte dos ricos, de dar e o direito, por parte dos 
pobres, de receber. 
Esta idéia é como uma semente deixada cair na Terra e assim entrou na vida que depois a 
desenvolveu, uma semente destinada a converter-se em arvore e a dar frutos mais tarde. Com isto traçou o 
Cristo uma trajetória em cuja órbita a humanidade se colocou e continuara a mover-se até o seu ponto de 
chegada que é a realização da justiça social. Também esta é um fenômeno da evolução, um transformismo 
em contínuo desenvolvimento. Tudo é história, não certamente um fato estático, mas um incessante 
transformismo, pois qualquer imobilidade seria arrastada pela corrente vital e universal. Assim sendo é 
fatal e conforme a Lei de Deus que as religiões nasçam e morram sendo substituídas por outras. 
Eis como se desenvolve a primeira idéia evangélica da justiça social. Uma vez declarado o 
dever dos ricos de dar, e o direito dos pobres de receber, é breve o passo desta afirmação por outra, em 
que o rico não cumpra o seu dever de dar, o pobre poderá fazer valer o seu direito de receber, de modo 
que aquele dever seja cumprido. Por isso, hoje vemos surgir a Igreja dos pobres como surgiu o 
comunismo. No passado o pobre era um subdesenvolvido incapaz de fazer valer os seus direitos,
 
sem 
outra alternativa além da esperança do Céu com a qual as classes possuidoras de bens o consolavam. Hoje 
o pobre despertou, e por ser mais evoluído, tomou consciência dos seus direitos proclamados por Cristo, e 
esta pronto a fazê-los valer na Terra, sem se ocupar em demasia do Céu. Perante este desenvolvimento, 
Cristo pode ser considerado o iniciador de um movimento milenário de redenção das massas. 
Breve é também a distância que separa esta afirmação da outra, pela qual, uma vez reconhecido 
no indivíduo o direito à justiça social e o de fazê-lo valer, deduz disto o direito de recorrer a revolução, 
no caso em que tal direito seja conculcado. Verifica-se, assim, que a transição da fase teórica à fase 
prática procede "pari passu" com a aquisição por evolução das qualidades necessárias para a atuação 
daquele princípio. 
Sucede isso conforme os planos da vida, porque não se pode admitir que as afirmações do 
Evangelho tivessem que permanecer apenas como compensações teóricas realizáveis a longo prazo no 
longínquo reino dos Céus. Impunham as leis da vida que \u2014 uma vez alcançadas as condições necessárias 
\u2014 aquelas afirmações do Evangelho