Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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tivessem que se realizar. Se assim não fosse, dever-se-ia recorrer ao 
absurdo de admitir que elas não passassem de um falatório vazio para enganar os ingênuos. 
Exigem, com efeito, as leis da vida que a evolução se faça em direção ao melhor e que não se 
deixe de despender o esforço necessário a sua realização. O homem deve bater-se para subir. Eis então 
que os princípios do Evangelho hão de combinar-se com tais leis e métodos, o que significa que não 
podem deixar de se prolongar num verdadeiro trabalho de conquista. A vida não admite afirmações 
teóricas de direitos a não ser como um antecedente ao qual há de
 
suceder sua realização prática. A vida é 
positiva e construtiva e nunca se desenrola em vão. Eis que o Evangelho permanece no seu posto e no seu 
tempo assim como as reivindicações operadas pelo homem moderno no campo da justiça social ficam no 
seu posto em nossos dias. Então o Evangelho há de ser entendido como verdadeiro, também hoje, nesta 
sua fase de desenvolvimento em que o mesmo problema por ele abordado é de novo enfrentado na fase 
definitiva de sua realização. É assim que o pobre de hoje pode encontrar no Evangelho uma autorização a 
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conquista do seu bem estar, urna legitimação do seu esforço para subir. No fundo ele afirma o seu direito 
a vida, que hoje ele pode fazer valer, por ter alcançado a sua capacidade de conquista e o seu valor 
lutador, o mesmo que as leis do seu nível biológico exigem para lhe concederem um direito. Neste nível a 
justiça tem que ser conquistada porque ela é um princípio do S que, para realizar-se, deve vencer as 
resistências do AS, e cumpre ao homem realizar o esforço necessário para conquistar esta vitória. Cada 
ideal para impor-se na Terra deve fazer as contas com as leis do AS. É esta a lei da vida. 
No passado o homem era tão seguro de si que no seu orgulho se julgava a única criatura de 
Deus, objetivo da Criação, Rei do Universo. Tal homem se julgava tão importante a ponto de se imaginar 
que o único Filho de Deus teria assumido a sua forma corpórea para fazer-se matar por ele. E isto o 
homem teria feito para fazer-se por Ele redimir gratuitamente das suas próprias culpas e assim ser salvo à 
 
custa de outrem. Tal homem julgava que tudo tivesse sido criado \u2014 plantas, animais e até as estrelas \u2014 
somente a serviço dele; os primeiros para alimentá-lo e as segundas para alegrar-lhe a vista. Se as 
galinhas tivessem sido mais fortes a ponto de subjugar o homem, elas teriam acreditado que Deus tivesse 
criado o homem para servir-lhes de alimento. 
Hoje esta velha forma mental está desmoronando, para dar lugar a outros descortinos. Cada 
período histórico representa uma fase de desenvolvimento e pode imaginar-se como uma faixa contendo 
um preponderante numero de exemplares de um determinado tipo biológico. Nos tempos de Roma e das 
invasões bárbaras prevaleceu o guerreiro, primeiro para construir o Império, depois para invadi-lo. Na 
Idade Média temos a era dos santos, posteriormente no Renascimento, a dos literatos e dos pintores; no 
século XIX a dos músicos. Hoje a vida atravessa a faixa da ciência. Esta estabelece o predomínio da 
positividade e da organicidade, erguendo uma forma mental prática e construtiva em cada campo, que vai 
das expedições espaciais à organização do trabalho, produção, comércio, economia das Nações, direitos e 
deveres na justiça social etc. Quem sabe quão mais avançada faixa alcançara a vida nos séculos futuros! 
Concluindo, o verdadeiro Evangelho, o mais completo é aquele representado não só pela forma 
que assumiu nos tempos de Cristo, mas por todas as formas que o mesmo vem assumindo no decorrer dos 
anos, e que são oferecidas ela vida que caminha. Esta tem seus fins e para alcançá-los adota princípios e 
métodos diversos, veste-se de varias formas, adaptando-se aos tempos e as condições de ambiente. O seu 
objetivo é realizar a justiça social, porque isso significa a realização do princípio da justiça da Lei, que 
representa o S, em direção ao qual avança a evolução. Cristo expressou esta tendência na forma ideal e 
pacífica das compensações ultraterrenas, enquanto as outras revoluções, até a comunista, expressaram a 
mesma tendência na forma tangível e violenta de compensações terrenas. Trata-se, contudo, do mesmo 
princípio de justiça social que se vai realizando sempre mais, como quer a vida, passando assim do Céu à 
Terra, da teoria a pratica. 
Tal fenômeno não é contradição mas transformação, porque entre as formas sucessivas 
permanece um fio condutor constante que do mesmo é a alma, o cerne, que neste caso é a vida que avança 
em direção a uma meta estabelecida, assumindo formas diversificadas em cada fase do seu 
desenvolvimento. Via de regra olha-se para a forma e não para a substância do fenômeno. Mas este 
permanece o mesmo. E sempre a justiça social que avança, trata-se sempre da progressiva realização do 
mesmo princípio. O mesmo sucede com a pessoa humana. Ali existe o eu individual que é a alma do 
fenômeno e funciona como fio condutor constante, sempre o mesmo, embora mude sua formar de criança 
a adulto, a velho. Também neste caso há um só fenômeno representado pela vida que caminha, pois o 
menino, o adulto e o velho são as três fases da mesma verdade em evolução. 
Estamos no mundo do relativo e ninguém pode subtrair-se ao transformismo. Então de toda a 
verdade não vemos senão momentos sucessivos, e ela é dada pela soma de todas as verdades relativas, 
cada uma das quais se vai transformando na seguinte, é verdadeira em .relação ao seu tempo e ambiente, 
mas não é verdadeira em outro tempo e em outro ambiente. E quando ao longo do caminho da evolução 
uma verdade fica superada, a vida a rejeita porque não lhe serve mais. 
 
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XIV 
 
A ECONOMIA DO EVANGELHO
 
 
O Evangelho e a Lei. Aparente inaplicabilidade da doutrina de Cristo à 
realidade da vida. A propósito do Evangelho-suicídio. Acerca da importância de 
compreender. 
 
 
 
Depois de ter procurado delinear e compreender a figura do Cristo na primeira parte deste vo-
lume, persistiremos ainda no estudo de Sua doutrina exposta no Evangelho iniciado nos cinco capítulos 
anteriores. Neles abordamos o problema econômico e o da justiça social. Tomemos agora em exame o 
problema tão controvertido da não resistência, este também fundamental no Evangelho, além de ser bem 
atual em nossos dias. 
Como o leitor pode ver, não entramos nos detalhes do Evangelho, mas dele colocamos em 
evidência alguns pontos mais salientes e vitais, que mais de perto atingem o homem de hoje. Não é nosso 
fim oferecer a tradicional explicação do Evangelho, que repete lugares comuns, mas discutir e melhor 
compreender alguns princípios excepcionais nele propostos, estudando sua aplicação em nosso mundo 
moderno, mesmo se eles possam parecer absurdos e irrealizáveis. 
Para chegar a isto reputamos oportuno sobrevoar \u2014 numa visão de conjunto \u2014 as 
particularidades daquela revelação para colher, da mesma, os princípios gerais. Procuramos, assim, ir 
além de uma mera interpretação literal, para alcançar uma visão de conjunto segundo o espírito. 
Assumimos, assim, como ponto de referência não a lenda ou as tradicionais superestruturas de índole 
mítica,
 
que em nada ajudam o verdadeiro conhecimento da verdade, mas a Lei de Deus que é ao mesmo 
tempo uma realidade biológica, um fato positivo e um fenômeno constante, por isso, experimentalmente 
controlável. 
Só assim certas contradições entre o Evangelho e a vida poderão ser superadas permitindo que o 
aparente absurdo de certos trechos dessa revelação se torne compreensível conforme