Pietro Ubaldi   Cristo
113 pág.

Pietro Ubaldi Cristo


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.844 seguidores
Pré-visualização50 páginas
A contradição entre os dois sistemas de vida parece evidente e insanável. A distância entre a 
doutrina ideal de Cristo e a realidade da vida parece demasiadamente grande para que os dois sistemas 
possam avizinhar-se e conciliar-se. Ora, de que maneira se tentou enfrentar na prática este grave 
problema? Apenas, rodeou-se a dificuldade com uma escapatória! Tendo-se deparado com a 
inaplicabilidade do Evangelho, devido a oposta estrutura das normais leis biológicas, os seguidores do 
Evangelho, o aceitaram e pregaram como teoria ideal, mas sem aplicá-lo na prática dos fatos. Tal é, pois, 
o método vigente: o da hipocrisia. Cumpre, contudo, reconhecer nesse método o mérito de ter permitido 
ao Evangelho sobreviver na Terra, apesar de tudo, o que seguramente não teria sido possível se o mesmo 
tivesse sido levado a sério. Se a vida permitiu tal solução é porque isso era útil, não havendo outra 
alternativa possível dados os elementos em jogo. 
Porém, com tal solução a contradição permanece, e com a agravante da incompreensão e da 
mentira. Tal solução não é honesta. Quem quiser ser honesto não resolve o problema por meio de 
escapatórias, mas o enfrenta sinceramente. Então, ou o Evangelho é verdadeiro e aplicável; ou não o e é 
se torna inaplicável. Logicamente, uma coisa não é ilícita se partirmos da convicção de ela não ser 
verdadeira. Quem é honesto jamais usa o método de pregar o Evangelho como verdadeiro, para depois 
não o aplicar. 
Insistimos, então, em perguntar: é porventura possível que o Evangelho não seja verdadeiro? 
Diante de tal dúvida a primeira coisa a fazer é procurar compreender. As aludidas contradições e 
inconciabilidades não dependem por acaso do fato de o Evangelho aparecer utopia só aos nossos olhos 
míopes, embora contenha grandes verdades? Ora, não será que tais princípios do Evangelho nos aparecem 
absurdos unicamente porque vistos relativamente ao nosso mundo, nível evolutivo e forma mental? 
Mesmo sendo inegável que um Evangelho vivido com plenitude, no ambiente terrestre, aparece como um 
suicídio a um homem comum, será que isso corresponde à verdade? Ou haverá no problema outros 
elementos que nos escapam e que o transformam? O que nos faz pensar que assim seja são as resolutas 
afirmações de Cristo, que certamente devia saber muito mais de quanto nós conseguimos compreender. 
* * * 
Daí a necessidade de compreendermos o que Cristo queria dizer para realizar a Sua doutrina em 
nosso mundo, que é tão distante dela. Daí a necessidade de compreendermos como Ele pudesse falar 
daquele modo e porque, pondo-se em aparente contradição com as nossas leis biológicas. O que pode 
fazer aparecer o Evangelho como um absurdo inatingível porque em contradição com aquela realidade, 
Cristo Pietro Ubaldi 
 
 66 
são as conseqüências catastróficas a que na prática pode conduzir, quando seja aplicada sem o necessário 
entendimento. É este fato que então sugere o método da hipocrisia, induzindo a recorrer ao mesmo 
também aqueles que, tendo tentado viver o Evangelho, ficaram, depois, espantados com as conseqüências 
práticas de tal tentativa. E é assim que somos reconduzidos à posição híbrida da mentira, exatamente 
quando mais precisaríamos afastar-nos dela. 
Ora, encarado de um ponto de vista mais profundo, o Evangelho representa uma técnica 
econômica sutil, que é necessário compreender e saber manejar, se quisermos evitar que o uso errado do 
mesmo nos leve a resultados negativos. E o Evangelho não pode ser culpado por esses resultados e sim a 
nossa própria ignorância. Como triste conseqüência, podemos jogar fora, por falta de compreensão, uma 
doutrina tão preciosa e tão necessária a vida como a do Evangelho. 
É necessário, pois, compreender que o Evangelho é uma expressão da Lei, contendo verdades 
válidas para todo tempo e lugar. Eis então que, se compreendido na sua essência, pode o mesmo 
conservar sua atualidade e ser vivido também hoje em vez de ser considerado \u2014 como se costuma fazer 
\u2014 à guisa de uma bela fábula de outros tempos. Ora, pela própria razão de ser que deu origem ao 
Evangelho, é nosso principal objetivo fazê-lo hoje reviver, enquanto parece estar para morrer. Só um 
Evangelho compreendido em relação as leis da vida, quais as vemos funcionar, é que pode ser aceito pelo 
nosso mundo de hoje. E é bem este o objetivo que nos propomos a alcançar. 
O Evangelho expressa um outro tipo de economia, diferente da humana usual, regulada por 
outras leis, adaptada a outras posições biológicas e morais, a outros modos de comportamento. Mas então, 
se este outro tipo de economia existe, em que consiste ele e por qual Lei é regulado? Procuremos então 
estudar o fenômeno a fim de compreendê-lo. 
Assim, qual poderá ser o significado de uma tão categórica proclamação daquilo que na Terra é 
utopia, como e segundo a qual se considera possível se alcançarem os meios para sustentar a sua própria 
vida, gratuitamente, por acréscimo, desde que se procure o Reino de Deus e a sua justiça? Ora, tal método 
aplicado na Terra pareceria levar a falência! Mas não será que encarando o problema dentro de uma visão 
mais compreensiva, também a solução se torna diferente? 
Com efeito, não podemos pretender que as principais leis biológicas do planeta por nós 
conhecidas esgotem todas as possíveis realizações da vida ao longo do seu caminho evolutivo. Eis que é 
necessário se admitir a possibilidade de diversos ambientes, leis e respectivos tipos de economia de vida. 
Assim sendo, o ponto de referência para a avaliação do Evangelho pode ser um plano evolutivo mais 
avançado, o que se costuma chamar de Céu; e os dois tipos de economia biológica a que aludimos são 
próprios de dois diferentes planos evolutivos, ambos verdadeiros, mas cada qual em relação ao ambiente 
que lhe é próprio. Eis então que o absurdo e a contradição acima referidos ficam resolvidos, explicados e 
assim desaparecem como tais. O plano evolutivo humano apresenta-nos a economia do AS, que a este 
ambiente se adequa, enquanto a economia do Evangelho pertence, pelo contrário, ao plano evolutivo su-
per-humano, do tipo S. E por isso que elas são tão diferentes, opostas, antinômicas. E se o Evangelho na 
Terra nos aparece como uma absurda utopia, uma espécie de emborcamento da economia do mundo, é 
porque ele representa a economia do Céu. 
Trata-se então de compreender em que consistia, como possa existir e como funciona uma 
economia não mais baseada sobre os valores materiais terrenos,
 
mas sobre outro tipo de valores, 
espirituais e eternos. Isto nos constringe a abordar separadamente as duas questões: a da não resistência e 
a da aparente imprevidência, o que será feito em dois capítulos distintos, começando por esta última 
questão. Passaremos, em seguida, a afrontar o problema da violência. 
 
 
 
 
XV 
Cristo Pietro Ubaldi 
 
 67 
 
 
VALORES TERRENOS 
 
 
A questão da não previdência. Objeções e esclarecimentos. O novo tipo de 
técnica protetora e os dois distintos métodos de vida,
 
com seus respectivos tipos de 
economia, o do involuído e o do evoluído e seus análogos sistemas bancários de ad-
ministração. 
 
 
 
No trecho do Evangelho referido no precedente capítulo, Cristo revoluciona as usuais normas da 
previdência volvidas a evitar que falte o necessário no amanha, deixando isso nas mãos de Deus. Esta 
evangélica aparente imprevidência consta de quatro afirmações contidas no trecho citado. A primeira diz 
para se dar até a túnica a quem pede o casaco A segunda diz para dar a quem pede e para nada reclamar 
dos próprios pertences se alguém dos mesmos se apoderar. Isto significa ficar despojado de tudo. A 
terceira diz para