Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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não acumular tesouros sobre a Terra. A quarta conclui dizendo que se quisermos salvar a 
nossa vida a perderemos. Isto significa que não a devemos preservar. Resultado final: perder tudo, ficar 
sem meios e sem vida. 
A intenção é clara. Cristo diz para não nos preocuparmos, o que é um convite a não 
exagerarmos na previdência. Não tenho razão para fazê-lo se não devo interessar-me pelo amanhã. Mas 
na Terra isto se chama de imprevidência e ela é o defeito dos inconscientes que a vida castiga por isso, 
fazendo-lhes faltar o necessário. O homem comum, a despeito da palavra de Cristo bem sabe por dura 
experiência que o amanha chega e que se não tiver sido previdente pagará caro por isso. Daqui o contraste 
entre Evangelho e realidade e a natural desconfiança que tais conselhos provocam. É inconcebível na 
Terra uma classe de imprevidentes, que, sem se preocuparem com nada, sejam gratuitamente previstos de 
tudo. 
No entanto Cristo, prevendo as objeções que as suas audazes afirmações podem provocar \u2014 
porque Ele próprio reconhece a presença das necessidades materiais do homem \u2014 oferece uma solução 
que na prática aparece ainda mais estranha do que a contida em tais afirmações. Com efeito, para fugir as 
desastrosas conseqüências do aludido desprendimento, Cristo nos oferece um remédio mediante o 
seguinte raciocínio. Olhem \u2014 nos diz \u2014 que não estais sós, pois ha um Pai que provê a tudo. Então o 
problema das necessidades materiais se resolve não lutando para prover as próprias necessidades, mas 
vivendo como quer o Pai, segundo a justiça, pois não há, em Seu Reino, outra alternativa. 
A afirmação é grandiosa, de dimensões cósmicas, tanto que ficamos arrebatados quando se 
consegue entendê-la como uma realidade. Mas em geral não se chega a tanto, imersos como estamos na 
miséria das competições cotidianas. Como conseguir excogitar uma solução a partir de relações desta 
magnitude? Mas, em vez de entregarmo-nos a tão árdua tarefa, logo procuramos uma escapatória. E se o 
Pai não provê? Trata-se de uma fonte de abastecimento para nós demasiadamente transcendente para que 
\u2014 com efeito \u2014 possamos confiar nela sem reservas. E mesmo que, perante a mesma nós pudéssemos 
pretender direitos, como poderíamos fazê-los valer? Pois, nossas necessidades são imperiosas e 
inexoráveis. Assim sendo, essa idéia de se recorrer ao Pai é certamente um caminho bem peregrino para 
se palmilhar. Além do mais, toda essa gratuitidade para o conseguimento de coisas dadas por acréscimo, 
não soa ofensivo ao nosso natural sentido de justiça? E perante a diuturna constatação do fato de pouco ou 
nada conseguirmos gratuitamente, não torna tais afirmações inverosímeis, e, portanto, inaceitáveis? 
Mas, em vez de perdermo-nos no beco sem saída de tais objeções, ou na busca estéril de aparentes 
contradições, procuremos compreender Antes de tudo, para conceder a Sua ajuda, o Pai põe condições, as 
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quais são de extremo valor moral: "Procurar o Reino de Deus e a sua justiça". Ora o Pai, para quem 
compreendeu como estão as coisas verdadeiramente, não é nenhuma construção imaginária, fora da 
realidade! Ele é a Lei, a qual é sempre viva e vigorante entre nós e em nós, de modo a poder 
experimentalmente controlar Sua presença e Seus efeitos em cada lugar e momento. Então receber do Pai 
a ajuda por acréscimo, não significa nenhuma dádiva arbitrária ou imerecida, mas o ter ganho aquela 
ajuda com a observância da Lei, ou seja, operando disciplinadamente dentro da Sua ordem Eis então que 
aquelas palavras do Evangelho adquirem um significado concreto, bem compreensível e correspondendo 
à justiça. 
Há, desse modo, um fato novo! Os princípios da Lei são expressos como revestidos de forças 
em movimento, e cujos equilíbrios e deslocamentos são exatamente definidos e calculados, dirigidos por 
uma organicidade inviolável. Tudo isto é necessário, pois, se o universo não fosse dirigido por essa Lei; 
desabaria no caos. Eis então que o recolher os efeitos das causas acionadas por nós, é fatal e, por isso, 
garantido. É assim que podemos ter a segurança de recebermos tudo o que ganhamos. Esta segurança 
constitui-se no direito de obter a recompensa merecida, isto é, a ajuda do Pai, quando se viveu conforme a 
justiça, aplicando a Sua Lei. Tudo isto é inexorável, seguro, justo, sem arbítrios, inelutável, com 
resultados positivos segundo um cálculo sublime. 
Agora compreendemos: procurar o Reino de Deus e a Sua justiça, significa em substância viver 
com retidão, admitindo, também, que o homem honesto cumpra espontaneamente o seu dever de 
trabalhar. Ora, a quem cumpre este dever, ainda que não se preocupe com o amanha, é bem difícil que 
venha a faltar o necessário. Então, logo que se compreenda o mecanismo da Lei e se entre a funcionar 
segundo a Sua ordem, até o problema das necessidades materiais que tanto nos fatiga, tende a ser 
implícita e automaticamente resolvido. 
Eis então que o evangélico "Não vos preocupeis com o amanha", logo assume bem outro 
significado. E então, aquela frase não significa mais imprevidência, exprimindo, pelo contrário, um 
diverso tipo de previdência, conduzida com uma outra técnica, realizada em função de outras 
perspectivas. Assim sendo, o Evangelho bem longe de defender a imprevidência, visa a eliminar a ânsia 
que freqüentemente acompanha o exercício da previdência humana. Cristo nos diz que para ser previdente 
não é necessário estar angustiado, pois, a ânsia que freqüentemente introduzimos em nosso trabalho, é 
uma força negativa que, como uma nuvem negra, obscurece a compreensão e estorva as diretrizes, 
diminuindo a produtividade. 
O Evangelho de fato tenciona libertar-nos de uma demasiada preocupação, não nos aconselha a 
imprevidência. Somos nós que tomamos o triste hábito de associar os dois fatos: previdência e 
preocupação, a isso induzidos pelas duras condições da vida. Quem compreender a técnica funcional 
deste fenômeno sabe que a promessa do Evangelho, por mais estranha que possa parecer, será mantida. 
* * * 
Esta sumária colocação do problema já nos faz pensar que estamos perante um novo tipo de 
técnica protetora, que a visa utiliza em sua defesa,
 
ao longo da escala da evolução, quando as diferentes 
condições ambientais devidas a um mais avançado grau de civilização o permitem. Propomo-nos agora a 
aprofundar o conhecimento desta técnica, observando-lhe a estrutura e o funcionamento apoiados naquela 
que melhor conhecemos por ser a que a vida utiliza para proteger-nos em nosso nível evolutivo humano. 
Trata-se de dois métodos de vida diversamente progredidos e aperfeiçoados, que representam 
dois diferentes modos de resolver o problema da sobrevivência: o primeiro tendo as características de 
luta, da desordem,
 
da incerteza e do esforço, que tanto mais se acentuam quanto mais por involução se 
desce; o segundo, tendo as características de tranqüilidade, da ordem,
 
da segurança e da facilidade, que 
tanto mais se acentuam quanto mais se sobe com a evolução. Este exame nos fará compreender a lógica 
da utopia evangélica, o profundo significado de tão estranhas afirmações, mostrando-nos a possibilidade 
da sua aplicação prática também na Terra. Poderemos assim transferir o Evangelho da evanescente esfera 
da poesia e da fé, para o terreno sólido da realidade vivida. Poderemos assim conhecer \u2014 em relação ao 
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mundo em que vivemos \u2014 aquilo que é de fato o Reino de Deus, a que constantemente se refere o 
Evangelho. 
Aqui, poderia alguém retrucar: deve-se precisamente a esta diferença de nível evolutivo o fato 
de este novo método não ser aplicável na Terra; onde a vida só pode