Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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verificar a eficácia de tal técnica funcional. 
Confortem-se, então, os amantes da justiça, porque, dentro em breve, serão descobertas as leis 
exatas de uma moral positiva cientificamente verificável, na qual resultarão provados os resultados de 
qualquer tipo de ações. Então a religião será um problema de razão e de ciência e não de fé. O juízo final 
sobre as nossas ações como sobre as suas conseqüências serão previsíveis à partida, através de deduções 
matemáticas como sucede ao se colocarem as causas. Isto porque se poderão calcular as órbitas que 
percorrem as forças por nós postas em movimento como se determina com antecedência a órbita a 
percorrer nas viagens interplanetárias. 
 
 
 
 
XVI 
 
 
VALORES ESPIRITUAIS 
 
 
O problema da não resistência. A liquidação dos bons. A resistência 
passiva. O dualismo macho-fêmea. A personalidade de Cristo. O Evangelho, código 
moral que o tipo masculino repele, enquanto o tipo feminino o aceita. Como a Lei 
alcança: os seus fins. Cristo - mais leão do que cordeiro - fala aos fortes para: 
corrigi-los. Um novo passo para a frente na compreensão do Cristo. Salvar os valores 
do passado. 
 
 
 
Esgotado o tema da não-previdência, tratemos agora da não-resistência. Já referimos a este 
respeito as palavras do Evangelho de S. Lucas: "A quem te bate numa face, oferece a outra" 
(....).Consideremos agora o trecho do Evangelho de S. Mateus, que nos permitira penetrar mais a fundo no 
âmago da questão. "Vós ouvistes que foi dito: Olho por olho,
 
dente por dente Mas Eu vos digo que não 
deveis opor resistência a quem vos fizer mal. E se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a 
outra; e a quem quiser chamar-te em juízo para tirar a tua túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém 
quiser obrigar-te a caminhar uma milha, anda com ele duas\u201d. 
Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem quer de ti um empréstimo. Ouviste que foi 
dito: Amarás ao teu próximo e odiarás ao teu inimigo. Eu, pelo contrário, vos digo: amai aos vossos 
inimigos, fazei o bem aqueles que vos odeiam e orai por aqueles que vos perseguem e vos caluniam" (....). 
Logo retornam a mente \u2014 a respeito deste problema da não resistência \u2014 as mesmas 
considerações expressas a propósito da não-previdência. É certo que num mundo de assaltantes as 
exortações de Cristo poderão ser-lhes motivo de muito agrado, porque adaptadíssimas para imobilizar 
suas vítimas e para tirar maior proveito de sua paciente virtude. Também aqui surgem as mesmas 
objeções nascidas \u2014 a propósito do problema da na não-previdência \u2014 sobre a inaplicabilidade da 
doutrina de Cristo à realidade da vida. Se esta se baseia sobre um sistema de luta, como é possível praticar 
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a não resistência, sem que isto se resolva num suicídio? Ainda neste caso o Evangelho se nos apresenta 
em contradição com as leis da vida. O método evangélico é então um método para chegar à liquidação 
dos bons e para, às suas custas, fazer sobreviver os piores? Como Cristo pode dizer aos primeiros: "Não 
vos defendais para sobreviver \u2014 como teríeis direito de fazer,
 
porque sois os melhores \u2014 mas deixai-vos 
destruir, a fim de que vivam os piores? Isto redundaria em combater os melhores, entregando-os, 
amarrados, nas mãos deles. Então esse Evangelho pareceria estar contra a Lei de Deus porque em vez de 
proteger a evolução como quer a mesma lei, parece proteger quem quer abandonar-se a uma descida 
involutiva. Isto representaria um emborcamento no absurdo. 
Também neste caso, para sair do labirinto das objeções e aparentes contradições, devemos, 
primeiro, procurar compreender. Nos perguntamos então: A quem se dirigia Cristo, aos bons ou aos maus, 
aos fracos ou aos fortes, aos agredidos ou aos agressores? É certo que Cristo falou a estes últimos \u2014 os 
mais rebeldes \u2014 para corrigi-los, os quais são, todavia, os menos dispostos a obedecer-Lhe, enquanto 
mais dispostos a isso são os que, por serem bons e fracos, teriam, de preferência, necessidade do conselho 
oposto. Em geral quem dá a bofetada é o tipo forte, macho, ativo, de signo positivo, quando escuta o 
Evangelho; e quem esta disposto a escutá-lo e recebe bofetadas na outra face é o tipo fraco, feminino, 
passivo, de signo negativo. Mas é paradoxal que \u2014na prática \u2014 o Evangelho, que é a Lei do amor, se 
resolva a afirmar uma moral tão feroz. É, com efeito, impossível que a aplicação do Evangelho leve a 
resultados tão pouco evangélicos. Deve, por isso, haver um erro de interpretação pelo fato de os conceitos 
estarem fora do seu devido lugar. A solução não pode consistir em repelir o Evangelho como errado, mas 
em explicá-lo. 
Esclareçamos, antes de mais nada, o conceito da não resistência. Não será que na sua 
condenação o Evangelho inclui também a da resistência passiva? Ora, o fato de ser passiva, não significa 
que deixe de ser resistência. Ela não representa a não-aceitação da luta para chegar, através de uma 
recíproca compreensão, a um acordo e \u2014 por esse caminho \u2014 à pacífica convivência, mas é este um 
particular tipo de luta, para vencer sem nada ceder ao opositor. A própria palavra \u201cresistência\u201d expressa a 
idéia de oposição. Só que esta não reveste a forma de ataque ou de violência, consistindo em negar 
concessões, não respondendo com contra-ataques e sim, com a própria imobilidade. Mas, em substância, 
esta resistência passiva continua sendo reação e oposição. Assim, a passividade de tais atitudes não 
significa pacifismo. Trata-se de um método de luta pelo qual não se tem a mínima intenção de renunciar 
aquilo que se quer, sacrificando-se pelos outros, pois, tenciona-se vencer como deseja o violento, embora 
apenas pelo sistema da tenacidade em manter sua própria posição em sentido contrário. Eis então que na 
eventual condenação do Evangelho haveria de se incluir também este tipo de resistência. 
O método de vida baseado no princípio da não resistência, como o aconselhado pelo Evangelho, 
investe pois, em profundidade, as leis biológicas, devido ao fato de colocar-se nitidamente em antítese à 
conhecida lei fundamental da luta pela seleção. Observemos agora aquele princípio evangélico sob este 
aspecto. O nosso mundo é dualista, por não representar senão um aspecto do dualismo universal, cujos 
fatores componentes \u2014 um positivo e o outro negativo \u2014 correspondem ao macho e à fêmea no plano 
biológico, sendo o primeiro de tipo ativo, capaz de iniciativas, inovador, e o segundo, passivo, receptivo, 
conservador. Um exemplo concreto pode ser visto tanto no comportamento de dois termos opostos e 
complementares, quais o espermatozóide e o óvulo-celular, como na luta do macho para eliminar o outro 
macho, elementos do mesmo signo. 
Este conduz a dois diversos métodos de vida Um utiliza uma técnica de tipo masculino, 
positivo, outro utiliza uma técnica de tipo feminino, negativo. Não é que uma seja melhor e mais justa do 
que a outra. Trata-se só de dois aspectos do mesmo princípio dividido em duas formas opostas e 
complementares, feitas para compensar-se reciprocamente ao acoplarem-se, reconstruindo a unidade. 
Ambas se propõem ao mesmo fim: a defesa da vida. Pois bem, propõe-se o Cristo a regular com normas 
morais a técnica do tipo masculino, deixando na sombra a do outro tipo. Explica-se esta preferência pelo 
fato de \u2014 até ontem \u2014 ter sido o macho, na raça humana, o seu protagonista, iniciador e diretor, 
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enquanto a mulher era a sua cópia, sua seguidora, em tudo a ele submissa. Isto era verdadeiro sobretudo 
nos tempos de Cristo, quando a mulher era um objeto de posse do macho, e como tal, destituída de 
qualquer direito para que pudesse