Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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ser tomada em consideração. 
 Fica, assim, fora de dúvida que Cristo, como homem, representava o tipo viril, afirmativo, 
criador. Seu exemplo e sua moral, pois, não podiam seguir outro modelo. E por isso que, quando nos quer 
mostrar o caminho da salvação, Cristo golpeia, para eliminar os defeitos de tipo masculino, mais do que 
os de tipo feminino. As tentações a que Ele próprio foi submetido eram do primeiro tipo. Satanás não lhe 
oferece ócios, mulheres ou banquetes, mas glória, poder, domínio sobre todos os reinos do mundo. A 
maior tentação que Cristo venceu foi a de tornar-se Rei da Terra, chefe de uma rebelião política. Vejamos 
como Ele se inflama de sagrado furor quando expulsa os vendilhões do Templo e também quando investe 
contra os ricos, e sucessivamente contra os Fariseus, dos quais denuncia, todas as culpas. Contra os 
primeiros não se cansa de dizer: "Ai de vós, ricos". Numa só página do Evangelho de S. Mateus, Cristo 
repete sete vezes a invectiva: "Ai de vós, Escribas e Fariseus, hipócritas". Trata-os de tolos e cegos. de 
serpentes e raça de víboras! Encontramos portanto uma terminologia que não deixa dúvidas. 
São estes os pecados típicos do macho. Como se comporta Cristo perante os pecados não menos 
graves, mas de tipo feminino? Vêmo-lo no caso da Madalena arrependida. Eis que um dia levam a Cristo 
uma mulher surpreendida em adultério. Em vez de acusá-la, Ele se dirige aos machos, igualmente 
responsáveis, fazendo com que eles próprios reconheçam serem também culpados e \u2014 como tais \u2014 sem 
o direito de lançar a primeira pedra. Volta-se, em seguida, para a mulher, e fazendo-lhe notar que 
ninguém a condenou, tranqüiliza-a dizendo-lhe: "Nem eu te condeno". Enfim, a despede, aconselhando-a 
apenas a não pecar mais. Não podia ser mais evidente a diversidade de tratamento de que Jesus deu prova 
nesses dois casos. 
Isto nos mostra que devemos reconhecer no Evangelho um código moral de tipo viril como viril 
era o seu protagonista. Por isso existe um Evangelho com norma de vida para o homem, mas não existe 
um Evangelho volvido a servir como norma de vida para a mulher. Nas condições de inferioridade e até 
mesmo de quase nulidade em que versava a mulher no passado, um Evangelho feito para ela é 
impensável. Segue-se disso que os defeitos visados pelo Evangelho são os de tipo masculino e não os de 
tipo feminino. Por este tipo queremos caracterizar a pessoa que possui qualidades de temperamento 
opostas à do macho, mesmo sendo homem normal. Com efeito, há homens de tipo doce, obedientes, 
sentimentais, introvertidos, passivos, enquanto há mulheres de tipo audacioso, rebelde, calculador, 
extrovertido, dinâmico. Tudo isto sem interferir de nenhum modo com o sexo. O dualismo permanece, 
mas não está ligado à forma física. A diferença não está, pois, na forma física, mas na estrutura da 
personalidade. Eis então que o Evangelho golpeia os defeitos de tipo masculino, seja onde for que se 
encontrem. 
Ora, acontece que o Evangelho atual é apresentado como unidade de medida para todos, isto é, 
para ambos os tipos, mesmo que ele seja feito só para um. Segue-se disso que o tipo feminino não se 
encontra aí, fustigado nos seus defeitos, que são diversos em relação aos do macho, os únicos \u2014 no 
mesmo \u2014 alvejados. O Evangelho diz que se deve amar e a mulher não deseja nada de melhor; o 
Evangelho fala ainda em pobreza, e a mulher esta habituada a deixar o macho possuir tudo, cabendo a 
este fazer os negócios e protegê-la. Diz ainda o Evangelho: Não vos preocupeis! E a mulher é feliz que se 
preocupe quem a protege. O Evangelho fala ainda em não resistência. Ora, a mulher foi sempre \u2014 até 
hoje pouco tempo \u2014 habituada a suportar a prepotência do macho, e é, até biologicamente \u2014 construída 
para funções que não são as da luta. E assim por diante... Suas virtudes naturais são: paciência e 
resignação, de modo que ela se encontra \u2014 conforme o Evangelho \u2014 naturalmente virtuosa. 
O que isso significa? Se bem observamos, veremos que na realidade da vida o fator base de 
cada escolha ou de cada ação é estabelecido pelo tipo de impulsos oriundos das forças constitutivas da 
nossa personalidade. Este é o ponto de partida, o antecedente instintivo, axiomático, com o qual tudo o 
que vier em seguida haverá de conformar-se. Assim os princípios, a moral, os ideais são escolhidos, 
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ajustados e aplicados para este fim, isto é, o de cada um satisfazer os impulsos e as exigências da própria 
personalidade. Preferem-se, deste modo, e defendem-se os princípios que se revelem para a mesma 
edificantes, isto é, capazes de fazer com que suas qualidades sejam julgadas virtudes e não defeitos. Em 
suma, se preferem os princípios que possam servir de manto para embelezar e de coberta para esconder. 
Neste sentido, para defender a vida, provê instintivamente o subconsciente. 
No caso em questão dá-se, então, o seguinte: o tipo macho repele o Evangelho, que lhe fustiga 
os defeitos, enquanto o tipo feminino aceita o Evangelho, pelo qual não se sente castigado em seus 
defeitos, pois lhe permite satisfazer os próprios impulsos sem ter que ser condenado. Que há de melhor do 
que encontrar guarida num texto tão excelso quase universalmente reconhecido como a própria palavra de 
Deus? Explica-se, por isso, facilmente a espontânea aceitação feminina da moral evangélica e a não 
menos espontânea e convicta repulsa masculina da mesma. 
Vemos assim que, independentemente do sexo, as igrejas são de preferência freqüentadas por 
indivíduos do primeiro tipo, pois ali se encontram à vontade. Vai ali quem crê e reza, esperando do 
Onipotente a proteção para a sua fraqueza, assim como a mulher a espera do macho. Mas muito menos se 
sente atraído a seguir-lhe o exemplo o indivíduo de tipo macho, que prefere resolver seus problemas por 
si próprio, sem pedir ajuda ao mundo celeste. 
Ora, acontece que eles fazem isto inconscientemente, sem se darem conta do engano, nem 
podem ser culpados por isso. Este fato, porém, não pode impedir à Lei de cumprir sua função, que 
consiste em corrigir o erro. Por isso, a Lei reage na forma que corresponde ao comportamento do 
indivíduo, ou seja, no caso do macho anti-evangélico, deixando-o sozinho e baratinado a mercê da luta, 
conforme exige o seu caráter orgulhoso e auto-suficiente; e no caso da fêmea \u2014 que pretenderia desfrutar 
o Evangelho usando-o à guisa de um manto protetor para esconder seus defeitos e aparecer virtuosa \u2014 
desilude-a em sua vã expectativa. Assim a Lei coloca cada coisa no seu devido lugar. 
Neste trabalho também o tipo fêmea cumpre a sua função útil. A Lei confia a este tipo a tarefa 
de mostrar, a cada passo, o Evangelho ao tipo macho, a fim de que o aplique, o que redunda em toda 
vantagem da fêmea para a sua própria defesa. Assim para ser utilizado como escudo protetor do fraco, o 
Evangelho encontra neste um defensor, que tenazmente o propõe, no seu próprio interesse ao oposto tipo 
macho que acaba usando o Evangelho para o seu verdadeiro fim, isto é, para a correção dos defeitos do 
macho. Finalmente, permite a Lei que se faça do Evangelho o uso que se quiser; mas não admite ser 
defraudada no escopo que constitui sua razão de ser. Assim também aquela ambígua posição de mal-
entendido dá, nas mãos da Lei, o seu justo rendimento. 
A este expediente de utilizar o Evangelho para disfarçar seus próprios defeitos, não só recorrem 
os indivíduos, mas também os povos. Desse modo, os povos fracos, de tipo feminino, para esconder a 
própria inércia se fazem evangélicos, espiritualistas, pacifistas, e se vangloriam daquela sua virtude 
perante os povos de tipo másculo, vigorosos, laboriosos, acusando-os de serem anti-evangélicos, 
materialistas, guerreiros. Mas isto não impede que a Lei funcione, pela qual os fortes acabam destruindo-