Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


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perceberemos que quanto mais 
evolvemos tanto mais a existência se nos revela dirigida por leis amigas e justas, e não mais pelos 
caminhos da rivalidade e da força que imperam em nosso mundo. Cada plano biológico tem as suas leis. 
Para o evoluído não mais vigoram as leis da força, mas as da justiça. Por isso o Evangelho torna-se para 
este realizável. Com a evolução o homem se civiliza e a sociedade passa do estado caótico ao estado 
orgânico. Então a virtude da força útil naquele primeiro estado é encarada agora como anarquia e a vida 
a substitui pela virtude evangélica da justiça conforme a Lei. Muda, assim, toda a técnica da luta pela 
sobrevivência, confiada a novas forças que atuam com outros métodos. 
O evoluído, portanto, adquire consciência da presença de tais leis amigas e justas e, agindo de 
acordo com elas, alcança bem outros resultados. Por isso, sua vida não se estriba mais \u2014 como no AS \u2014 
pelo princípio da imposição, mas \u2014 como no S \u2014 pelo princípio da Justiça. Acima nos havíamos 
perguntado o motivo pelo qual o Evangelho parecia querer-nos colocar numa posição absolutamente anti-
vital de fracassados que se entregam, em lugar de triunfadores que vencem. Agora podemos responder. O 
Evangelho faz isto porque nos coloca perante posições da lei mais avançadas em relação as próprias do 
homem primitivo. Nesta nova fase a. lei é feita de justiça, perante a qual se verifica o contrário daquilo 
que se verificava antes perante a força. Se no regime de injustiça os assaltantes vencem e os assaltados e 
derrotados perdem, num regime de justiça os assaltantes vencedores contraem um débito a pagar, 
enquanto os derrotados sabem que estão pagando suas dívidas Num regime de justiça o jogo do vencedor 
e do vencido se inverte. Deste novo ângulo o primeiro é um criminoso a castigar e o segundo uma vítima 
que se sacrifica Então, como é natural porque se passa do AS ao S, se invertem as posições e quem vence 
perde e quem perde vence. Enquanto se esta no reino da força vencem os fortes e perdem os débeis, mas 
quando se entra no reino da justiça perdem os prepotentes e vencem os justos. 
Desse modo, quando o indivíduo julga ter vencido por se ter imposto e ter satisfeito seus 
instintos, ele perdeu com isso, porque em vez de progredir retrocedeu. E quando este fica desiludido e 
acredita ter perdido porque não conseguiu impor-se e satisfazer os seus instintos, na realidade ele venceu 
porque progrediu na evolução afastando-se do seu velho modo de viver. 
Eis em que se baseia o princípio da redenção racionalmente enquadrado no máximo fenômeno 
da existência, que é a evolução. Redenção significa pagamento à justiça da Lei por meio da dor a que e 
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reservada a função purificadora dos nossos contínuos erros, dos quais é necessário libertar-nos para 
ascender. Eis porque estão ligadas entre si as idéias de Cristo, redenção e dor Eis que Cristo se fez 
crucificar para mostrar-nos o caminho da redenção! Não se trata de uma irracional exaltação da dor, mas 
de uma real função evolutiva e, porque evolutiva, fundamental para a vida e seu desenvolvimento. Pode-
se chegar a tal conclusão só depois de ter compreendido toda a estrutura e a técnica funcional do 
fenômeno da vida. A posição do ser no S é de felicidade. Então é natural que a sua posição nos antípodas 
do AS \u2014 seja de dor. E é natural também que para poder retornar ao estado de positividade (felicidade) 
do S, seja necessário reabsorver toda a negatividade (dor) do AS, através do trabalho da evolução. 
Chega-se assim ao conceito de dor como instrumento de redenção, isto é, de um mal que pode 
ser utilizado como meio de salvação. Tudo isto conforme a lógica da evolução. Trata-se de uma dor 
consciente, purificadora, o que esta bem longe da aberrante procura medieval da dor-pela-dor,
 
reduzida a 
sadismo ou masoquismo improdutivos, o que é perversão e não redenção. É doentia a idéia de querer fazer 
de todos uns pecadores que \u2014 porque tais por nascimento \u2014 estariam condenados à penitência, quando 
o objetivo da vida não é expiar mas subir. Assim sendo, o expiar não é mais admitido em sentido 
negativo, mas só no sentido positivo da ascensão. 
O nosso não é, pois, o conceito de uma dor que embrutece, mas de uma dor que eleva e que é, 
por isso, sadia, dinâmica, criadora. E é este o conceito que Cristo nos proporciona, enquanto conjuga a 
idéia da cruz com a da ressurreição. E neste sentido que Cristo é mestre de redenção, embora por meio da 
dor. Cristo nos mostra a Cruz e aceita a morte, mas para ir em direção a uma vida mais alta e mais plena. 
A dor para Cristo é um meio para chegar a felicidade. Toda a evolução é esforço de ascensão, é trabalho 
de purificação e, por isso, é feita fundamentalmente de dor, sem a qual ela não se realizaria. Mesmo 
quando Cristo se coloca contra o mundo, isto Ele faz com um fim de superação. E a redenção é feita de 
ascensão, purificação, maturação, superação, exatamente porque ela é um fenômeno evolutivo. 
Para encerrar o assunto,
 
não podemos deixar de observar o que se realiza percorrendo este 
caminho. Poderemos ver como funciona a técnica da redenção. Tudo avança por graus. No final de cada 
fase, de cada esforço de superação é alcançado um estádio mais avançado de iluminação. Ele é dado pelo 
progressivo evolver que nos avizinha do S. Só depois de ter percorrido um dado trajeto, compreende-se o 
que se conquistou, e quando, então, se abandona aquela zona de negatividade, em que não se enxerga, 
para ingressar numa zona de positividade, na qual tudo é percebido com clareza. 
Isto se verifica com cada setor de nossa personalidade ou com o campo de forças que a 
constitui. A redenção não é instantânea, súbita, global, genérica e indiscriminada, mas gradual, parcial, 
especifica e analítica. Este é o seu método. Antes de mais nada, a lei não nos faz teorias, nem se perde em 
dissertações para explicar- os a sua técnica operativa. Ela se exprime com fatos e nos corrige bloqueando-
nos e golpeando-nos no ponto fraco. Ela se faz compreender fazendo-nos sofrer, isto é, fechando-nos as 
portas à livre expansão das qualidades inferiores e simultaneamente abrindo-nos as portas à explicação 
das qualidades superiores. Sufocação na parte baixa, expansão na parte alta. 
Para cada qualidade da sua personalidade o indivíduo é submetido a este processo de 
sublimação, o que significa um doloroso esforço de superação, constituído por uma destruição em baixo e 
por uma reconstrução em cima. Cada uma destas qualidades da personalidade é constituída por um feixe 
de forças movidas segundo uma sua dada trajetória. O esforço da evolução consiste em corrigir esta 
trajetória, imprimindo-lhe uma outra direção, mais consoante com os princípios do Sistema, e que mais se 
distancia dos princípios do AS. Tal correção se realiza qualidade por qualidade e respectivas trajetórias, 
até que elas tenham sido todas corrigidas, Isto é, transformadas do seu tipo originário de AS ao de S, 
resolutivo da evolução. 
Com que técnica se realiza tal correção? Ela é automática e fatal. O bem e o mal que se abatem 
em cima de nós dependem da estrutura de nossa personalidade, isto é, do tipo de forças que ela contém e 
daquelas que por conseguinte no seu ambiente ela coloca em movimento, determinando assim a atmosfera 
em que vivemos. Eis que a primeira causa de tudo quanto acontece conosco está dentro de nós. Desse 
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modo, se o indivíduo for constituído de forças negativas, a sua ação será em qualquer parte destrutiva e 
seja onde for que ele toque, mesmo na coisa mais preciosa, que para ele se transformara em dano. E se 
estiver constituído de forças