Pietro Ubaldi   Cristo
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Pietro Ubaldi Cristo


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.839 seguidores
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nenhuma intenção de ganhá-la, por ser prodigalizada as custas do 
inocente, demanda um certo grau de inconsciência e de egoísmo para ser aceita. Um tal modo de conceber 
a redenção é tipicamente antropomórfico e reflete a forma mental própria das criaturas do AS. Estas 
podem pensar aquilo que mais lhes agrade. Mas isto não afeta em nada a Lei, que continua a funcionar 
conforme a justiça de Deus. 
É compreensível, e perdoável que o homem do passado se tenha deixado levar por impulsos do 
subconsciente, mas isto não é mais perdoável hoje, pois ele está saindo da menoridade. É chegada a hora 
de ver em Cristo não apenas o seu amor e sacrifício, que outrora tanto nos confortava, mas, antes, e 
sobretudo,
 
um exemplo de justiça que nos induza ao seu cumprimento e não a evadirmo-nos dela. Chegou 
a hora de o homem se colocar com sua consciência perante o dever de evoluir com o seu próprio esforço, 
de reconhecer a sua posição, de compreender a sua responsabilidade, de assumi-la ele próprio perante a 
Lei, sem ilícitas sub-rogações. 
É injusta, mas historicamente explicável, esta idéia do sacrifício de um inocente que paga as 
culpas dos outros. Aliás, pode-se dizer que a paixão de Cristo integra-se na tradição. Na Bíblia surge 
continuamente a idéia de sacrifício, base da aliança com Deus, como se Ele estivesse a exigir de ser pago 
de uma dívida para com Ele, contraída pelo homem em troca da divina proteção que lhe era concedida em 
contrapartida. Então o sacrifício era material e cruento e continha também os conceitos de expiação de 
culpas e de propiciação da Divindade. Estes conceitos permaneceram através do tempo mas 
desmaterializando-se de seu aspecto físico e purificando-se do aspecto sanguinário. É triste ver quão forte 
importância tiveram nas religiões do passado a matança de uma vitima e o espargimento de sangue,
 
e 
quanto seja difícil livrar-se da lembrança de métodos tão ferozes para a aproximação da Divindade. Eles 
se refinaram, mas ainda não se cancelaram, embora tendam a purificar-se até desaparecer com a evolução 
espiritual do homem. 
Estes conceitos, se bem que reduzidos o mais possível ao estado imaterial e incruento, se 
encontram ainda na Eucaristia, concebida ainda como sacrifício. De fato nela se fala, se bem que o seja 
em forma invisível e simbólica,
 
de corpo e de sangue, o que constitui uma recordação e um vestígio dos 
antigos sacrifícios feitos pelo homem involuído e ainda remanescentes, no fundo, nas representações do 
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rito. De martírio de corpo e espargimento de sangue, de que era ávido o passado,
 
ficou apenas a idéia; mas 
mesmo esta deverá desaparecer nas religiões mais civilizadas do futuro, em direção às quais preferimos 
dirigir o olhar, porque nelas o homem descobrirá outros métodos espirituais para avizinhar-se da 
Divindade. 
 
 
 
 
IV 
 
 
A NOVA FIGURA DO CRISTO 
 
 
A nova figura do Cristo. A distância entre Deus e homem. O significado do 
exemplo dado por Cristo. Reaproximar os dois termos para que aquele exemplo seja 
imitável. Cristo reintegrado no S. As velhas construções míticas e o novo conceito de 
Deus. A grandeza de Cristo Filho de Deus. 
 
 
 
Estamos delineando uma nova figura do Cristo, de modo que ela apareça sempre mais completa 
na sua forma racional. Como se vê, estamo-nos afastando do tradicional triunfalismo do Cristo-Deus,
 
conceito egocêntrico que põe Deus a serviço do homem, aproximando-nos,
 
assim, de uma mais racional 
interpretação, isto é, de uma melhor compreensão do fato de sua vinda à Terra. 
Para tal fim, procuramos diminuir a distância entre os dois termos, Deus e homem, 
aproximando estes dois conceitos. Na verdade, existe entre eles uma distância intransponível sobretudo 
quando se concebe Deus não mais antropomorficamente, e sim como um pensamento regulador e diretor, 
tanto do funcionamento do seu organismo \u2014 que é o S \u2014 quanto, de maneira indireta, do AS, isto é,
 
de 
nosso Universo. Ora, um Deus assim concebido jamais poderá reduzir-se nas mesquinhas e retrógradas 
dimensões do homem de hoje. É, com efeito, inconcebível o amesquinhamento de tão imensa potência 
dentro de tão obtusos limites, pois, tanta desproporção contradiz o perfeito equilíbrio da Lei. A 
precipitação involutiva desde tão excelsa altura, causa deste espantoso regresso, que não seja merecida 
por quantos a sofrem, é uma hipótese absurda na ordem divina das coisas. 
Há demasiada distância entre as dimensões dos dois termos para que possamos uni-los; não 
existe nenhuma ponte capaz de permitir uma conjunção tão completa entre a natureza absolutamente 
espiritual de um Deus e aquela prevalentemente material do homem, qual se revelou na matança feroz do 
corpo de Cristo ao nível bestial do involuído. Este fato, sobre o qual se baseia a paixão de Cristo, nos 
mostra de que é capaz o homem com o qual se pretende que Deus se teria querido fundir. Tudo isto faz 
pensar que semelhante humanização de Deus não seja senão um produto do subconsciente, que por 
orgulho instintivo teria levado a divinização do homem. Perguntamo-nos, então: que valor espiritual pode 
ter um tal massacre físico? Que ensinamento poderá desprender-se de semelhante espetáculo? Que 
estímulo de índole moral poderá o mesmo constituir, exprimindo, como exprime,
 
sobretudo os piores 
instintos do homem? E o mesmo é apontado como exemplo para que todos o vejam. Constituirá, 
porventura, algo a imitar quando exprime o triunfo das forças do mal, a vitória do Anti-Deus sobre Deus? 
Ora,
 
o escopo da encarnação do Cristo não podia ser o de redimir gratuitamente a humanidade, 
pois, de preferência, era o de com o seu exemplo ensinar-lhe como se faz para redimir-se com seu próprio 
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sacrifício. Então era necessária a descida a Terra, de um ser menos distante do nível humano e não de um 
ser de dimensões acima dos limites que transcendem as nossas medidas normais, isto é, constituído 
segundo um modelo absoluto, situado nos antípodas daquele em que vivemos,
 
que é o relativo. Como 
poderia ser proposto como modelo a imitar um ser de natureza totalmente diversa da nossa que não 
oferece aquela similaridade que permite o irmanamento? Um tal modelo estaria situado fora do processo 
evolutivo, enquanto no caso em questão era necessária a presença de um Ser que a conhecesse, por tê-la 
percorrido, antecipadamente, a mesma via crucis da evolução que cumpre ao homem trilhar e sobre a 
qual,
 
aliás, já se encontra a caminho. 
Era em suma, necessário um Cristo que, como nós, já tivesse experimentado as dores da 
evolução, pelo menos até o nosso nível, e não um mártir extemporâneo descido do céu para em poucas 
horas de sofrimento, resolver o apocalíptico problema da reintegração do AS no S, sem ter percorrido 
todo o caminho necessário, o mesmo que a todos os seres cumpre percorrer. O não sujeitar-se a esta 
disciplina não passaria de uma tentativa de evasão da linha estabelecida pela Lei para alcançar a salvação. 
Trata-se de um caminho longo que leva milhões de anos para percorrer; trata-se da labuta tenaz de uma 
lenta maturação; estão em jogo fatos que não se improvisam e problemas que não se resolvem com um 
rápido martírio, demasiadamente breve para servir como uma escola capaz de operar uma verdadeira 
reconstituição espiritual da humanidade decaída. 
Que as coisas sejam como aqui agora foi explicado prova-o fato de que \u2014 após o sacrifício de 
Cristo \u2014 a redenção assim por Ele operada permaneceu um fato teórico. Com efeito, salvo algum lento 
melhoramento devido à evolução \u2014 o qual não significa redenção \u2014