Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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interessante e útil, inclusive para o espírito. Cristo vem ao nosso 
encontro para ajudar-nos na dureza desse trabalho. Ele não o ignora, e o lembra no fim do trecho 
supracitado e que estamos comentando: "Não vos preocupeis com o amanhã, porque o amanhã se 
preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu cuidado". O Evangelho, que é sempre afirmativo e 
construtivo, quer eliminar de nossa atividade a sua parte negativa, que é a preocupação, a ânsia, 
qualidades que nada criam e, ao revés, são contraproducentes, porque paralisam; e quer substituir essas 
qualidades negativas por nossa confiança em Deus, atitude positiva que torna mais fecundo nosso 
trabalho, menos pesado nosso esforço. Isto é o que podemos, honestamente, pretender do Evangelho. 
Nada mais. É inútil que se refugiem em algumas palavras do Evangelho os que não têm vontade de 
trabalhar. Poderão dizer talvez que foram enganados, mas isto não os ajudará. O Evangelho quer-nos 
honestos, e a preguiça e uma forma de desonestidade. 
 
* * * 
 
O irreconciliável contraste que vimos existir entre o Evangelho e o mundo no terreno dos bens 
materiais, apresenta-se-nos também sob outros aspectos. Sem dúvida,
 
o trabalho é uma necessidade 
inderrogável da via humana. Mas, nas duas posições opostas \u2014 a do Evangelho e a do mundo, ou seja, a 
do evoluído e a do involuído \u2014 o trabalho se nos apresenta em duas formas bem diferentes. O trabalho 
do primeiro é inteligente, fecundo, confiante e satisfatório. O do involuído é forçado, penoso, desconfiado 
e incompleto. O Evangelho desejaria transformar este segundo tipo de trabalho, no do primeiro tipo. Com 
efeito, este último faz-nos colaboradores de Deus, enquanto instrumentos de Sua vontade, numa obra que, 
sendo um fim de si mesma, já representa por si uma graça. O outro tipo de trabalho, como se usa na terra, 
é geralmente instrumento de interesses, em função de egoísmos, o do empregador e do empregado, dois 
impulsos egocêntricos opostos que lutam, como rivais, para cada um deles apoderar-se de tudo. Deriva 
daí um atrito desgastante que custa desperdício de valores, até mesmo econômicos; daí resulta não 
colaboração, mas inimizade, que constitui uma perda comum: um sistema errado, porque 
contraproducente justamente onde devia ser produtivo; um sistema em que o empregador procura 
desfrutar o operário, e este, enganar o patrão, substituindo o princípio fecundo da colaboração, pelo 
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desagregante da luta. 
 
Com estes dois tipos de trabalho, o homem procura construir suas obras mais diversas. Entretanto, 
elas não são igualmente rendosas, e seria lógico escolher o que custa menos cansaço e produz maior 
vantagem. Correspondentemente, há dois métodos para construir: com os poderes materiais do mundo e 
com os poderes espirituais do céu. Veremos, agora, como merece mais confiança o segundo, que, com 
segurança maior, pode garantir-nos a vit6ria, ao passo que,
 
no primeiro, acreditam os simples, que se 
deixam enganar pelas miragens do mundo. 
 
Que faz este, quando quer construir qualquer obra? Começa por recolher os meios materiais, vai à 
 
procura deles e os acumula na maior quantidade possível. Mas bastarão eles para construir? Façamos uma 
montanha de matéria prima e de dinheiro Com isto teremos recolhido meios, mas ainda nada teremos 
criado. Ocorrem, ainda, outros elementos, especialmente o trabalho do homem, e com isto fatores 
psicológicos e espirituais que são, em última análise, os que constróem, com aqueles meios. Os meios, 
sozinhos, continuam inertes, se não intervém o pensamento, a vontade e a ação do homem, para 
movimentá-los e utilizá-los, transformando-os, de materiais de construção, na obra construída. Então, 
entram nesta outros elementos e, para consegui-la, mister se torna levar em conta também as forças do 
imponderável. Portanto, se quisermos construir solidamente e não arriscar a falência da obra, teremos de 
ocupar-nos também com as coisas espirituais da alma e do céu. E se não soubermos levá-las na conta 
devida, nossa ignorância ou negligência poderão fazer-nos cometer erros, que mais tarde teremos de 
pagar. 
 
Não há dúvida: o motor íntimo que dá impulso à obra, a dirige e leva a termo o seu desenvolvimento, 
dando seu cunho à execução do trabalho e portanto a toda a construção, é de natureza espiritual, e não 
reside nos meios materiais. Os homens práticos poderão rir ceticamente destas afirmações, e não levar em 
conta esses elementos. E, no entanto, a forma substancial que, em última análise, sustenta uma obra, está 
toda aí. Os meios materiais, o dinheiro, são a matéria-prima ou os meios para movimentar o homem. São, 
sem dúvida, um elemento indispensável, uma poderosa mola. Mas de que forma, e em que direção os 
movimenta? E se, sozinha, essa mola o movimenta mal, não é indispensável, igualmente, ao menos um 
corretivo que melhore a ação, tornando verdadeiramente produtivo um impulso que, sozinho, pode ser até 
mesmo destrutivo? 
 
Ora, qual é o estado espiritual que está geralmente ligado aos meios materiais, qual é a psicologia do 
dinheiro? Não é decerto a psicologia do amor fraterno, mas a de rivalidade e luta feroz, de egoísmo e de 
avidez. Trata-se de elementos que poderão interessar cada indivíduo, mas que são estreitamente 
desagregantes em qualquer atividade coletiva, em que é necessário organizar-se, colaborando, para chegar 
à 
 
construção. Todavia esses elementos sozinhos, tendem a transformar um campo de trabalho num 
campo de batalha. Então, o objetivo principal que deveria ser o de construir bem uma obra, transforma-se 
e torna-se o de enriquecer cada um por si, tirando-se desse trabalho a maior vantagem individual possível. 
Teremos; então, apenas uma atividade de exploração da obra, que se torna um pretexto, uma mentira, para 
encobrir outros fins bem diversos. Todo trabalho de construção fica assim interiormente minado, corroído 
por esta vontade que quer encaminhar-se para outras finalidades bem diferentes da de produzir bem e 
seriamente. O fator espiritual, que os homens práticos se acham com direito de não levar em conta, como 
se se tratasse de fato desprezível, sem importância, pode, ao contrário, assumir uma tão grande 
importância que, quando estiver desgastado, poderá minar toda a obra, levando-a à falência. Assim se 
explica que tal aconteça no meio de tanto progresso técnico. 
 
Dir-se-á talvez: devemos então suprimir os meios materiais e o dinheiro? Não! Aqui desejamos 
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apenas colocar cada coisa em seu lugar, dando-lhe o que lhe compete, segundo sua própria importância, 
sem supervalorizar uma nem subestimar a outra. Ora, o mundo de hoje é levado a basear-se quase 
totalmente nos meios materiais, acreditando que eles sejam tudo. Aqui reside o erro Com isto não 
queremos dizer que não precisamos deles. Certamente que precisamos. Mas não deles, apenas. É 
necessária alguma coisa mais,
 
ou seja, que se saiba usar deles com outro espírito, que os complete, 
coordenando-os para um fim, colocando-os, em relação a este, na posição de instrumentos ou meios, 
cimentando-os num estado orgânico que os torne construtivos. Se assim não for, aqueles meios ficarão 
dispostos de modo errado, e sua quantidade se tornará contraproducente para a obra. Trata-se de 
elementos mortos em si mesmos, que são postos em funcionamento através do trabalho, que é uma 
atividade do homem, na qual, portanto, não pode deixar de influir o fator psicológico, que, assim, assume 
a sua importância no êxito da obra. Onde quer que apareça a mão do homem, não se pode esquecer a 
presença do espírito. Daí a necessidade