Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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de levá-lo em conta. É verdade que, sem meios materiais não se 
pode construir, mas é também verdade que os meios materiais, eles só, se não os soubermos utilizar, 
poderão levar a falência. 
 
Por isso, grande é o perigo quando a eles se atribui demasiada importância, dando-se-lhes função 
preponderante, quando toda a obra fica dependendo exclusivamente deles e da psicologia que lhes é 
inerente. A idéia de dar-lhes valor absoluto ou preponderante,
 
como se eles fossem onipotentes, é o 
caminho mais curto para chegar à falência da obra, pelo menos se ela é nosso verdadeiro objetivo. Se o 
objetivo, de fato, for outro - como por exemplo o de produzir dinheiro \u2014 pode-se até atingi-lo. Mas então 
acaba-se entendendo que a obra era apenas uma mentira, preparada para outros fins bem diferentes. Não é 
honesto e mais tarde se pagará por isto. 
 
A presença do dinheiro numa obra, mesmo que seja indispensável, tende, por sua natureza \u2014 se não 
for corrigida e disciplinada \u2014 a levar-nos pelo caminho dos enganos, num terreno mal seguro de areias 
movediças, prontas a tudo engolir. É bom estarmos prevenidos de tudo isto, e tratarmos o dinheiro com as 
devidas cautelas, com certa desconfiança, não lhe dando valor maior do que o que ele merece,
 
tendo em 
conta que, em última análise, a causa primeira do êxito não está nos meios materiais, mas nas forças 
espirituais que os movimentam. Jamais esqueçamos que a vida obedece muito mais as causas profundas, 
que não vemos, do que às
 
superficiais, com as quais tanto contamos. A história e a vida mostram-nos que 
obras muito bem armadas dos meios mais poderosos faliram miseravelmente, apesar da existência desses 
meios. Isto quer dizer que eles, sozinhos, não bastam, e que existe algo tão poderoso quanto eles, que se 
esconde no imponderável, sem o que pouco podem: algo que é mister levar em grande conta. 
 
Qual a obra que pode ser realizada sem o elemento fé, ou pelo menos convicção? O que pode levar a 
cabo tantos interesses separados, aos quais importa tudo o que serve a vantagem individual, e nada à 
 
realização da obra? Quando o estado de alma dominante é o egoísmo e o interesse, e satisfazê-lo é a única 
finalidade, que se pode alcançar, senão a satisfação deles? Que poderão produzir os maiores meios 
materiais, quando infectados por essa psicologia? As próprias coisas ficam permeadas pelas sutis 
vibrações das causas que as geraram e das forças que as movimentam. Que se pode obter quando a obra 
está corroída na própria raiz da ação, por esses impulsos interiores? 
 
Por isso, o dinheiro pode ser perigoso, e isto pelos sentimentos negativos e desagregantes que atrai e 
traz consigo, introduzindo-os na obra. Por isso, quando é necessário recorrer a ele, é preciso usá-lo como 
são usados os venenos nas farmácias. Eles são úteis e às vezes até indispensáveis na medicina, mas ficam 
bem fechados em seus recipientes, com uma etiqueta par fora que diz: "veneno" para avisar do perigo. Por 
que veneno? Em si mesmos, os meios materiais não são maus. São obra de Deus, úteis à vida que, sem 
dúvida, deve ser vivida. Mas tornam-se venenos quando o homem, por causa deles, se torna ávido, agride 
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o próximo, explora, esmaga, escraviza os fracos. Para conquistar o poder do dinheiro fazem-se as guerras 
e enche-se o mundo de sofrimentos. Não nos rebelamos contra o dinheiro honesto, fruto do trabalho, 
abençoado por Deus; mas contra o dinheiro ensangüentado, que gera tantas dores, amaldiçoado por Deus. 
É este dinheiro que foi chamado de esterco do demônio, enquanto que o Evangelho elogia a esmola da 
viúva. O erro consiste no dinheiro demasiado, não honesto, não fruto do trabalho, não meio para coisas 
boas, mas fim em si mesmo. Em vista disso é preciso introduzi-lo com cuidado nas próprias coisas, 
porque ele é como uma arma que pode defender, mas também matar; é como um veneno que pode 
curar-nos de uma doença, mas também dar-nos a morte. 
 
O perigo não reside no uso do dinheiro, mas no querer-nos basear exclusivamente nele. Qual a obra 
que se pode construir sobre o fundamento que nos oferece a psicologia do dinheiro? Logo que se lhe 
espalha o cheiro no ar, qual é o tipo de homem que imediatamente chega correndo? Certamente não é o 
homem trabalhador, honesto, sincero, desinteressado, que é o elemento mais adequado para construir, mas 
o que procura acima de tudo realizar os seus negócios, apto a construir para si, destruindo, porém, para os 
outros. Quem quiser, portanto, realizar uma obra, principalmente se for espiritual, precisa em primeiro 
lugar afastar esses elementos e proteger-se contra o dinheiro que os atrai. Quem procura, em primeiro 
lugar, acumular dinheiro, acaba ficando cercado por essas forças negativas, ansiosas por destruir tudo. 
Assim o dinheiro pode transformar-se de auxílio em obstáculo. 
 
E assim voltamos sempre à
 
causa primeira de tudo, causa que está no espírito. As coisas em si 
mesmas não são nem boas nem más. Tudo depende da intenção e do objetivo com que são feitas. Elas só 
entram no mundo moral com o uso que delas faz o homem. Tudo é bom, quando bem usado; tudo se torna 
mau; quando se usa mal. E o substrato espiritual que valoriza ou desvaloriza tudo, servindo de apoio e 
constituindo o fundamento em que tudo se baseia. 
 
O homem inteligentemente utilitário não se deixa enganar pelas miragens que a avidez lhe oferece, e 
nas quais os simples acreditam e caem, mas, para construir solidamente, leva em conta também o fator 
psicológico e espiritual. Quem realmente quer atingir a vitória e um êxito real, deve possuir essa esperteza 
superior a todas as outras, que é a da honestidade e do desinteresse. E no entanto o mundo crê cegamente 
na onipresença do dinheiro. O jogo da vida não é tão simples, que se possam resolver todos os problemas 
só com esse meio. O que se pode comprar com o dinheiro? Existe alguma loja em que se possa comprar 
inteligência, vontade de trabalhar, desinteresse, honestidade, sinceridade, bondade, espírito de sacrifício? 
Pode o dinheiro dar-nos esses elementos para construir bem? Ou, ao contrário, ele atrai sobre nós 
exatamente o oposto? E como construir sobre as areias movediças do orgulho, da avidez, do egoísmo? 
Então, faz parte da sabedoria do engenheiro construtor de qualquer obra \u2014 ao fazer o projeto \u2014 colocar 
cada coisa em seu lugar, prevendo o que se possa aproveitar. Esse engenheiro precisa conhecer e calcular 
o poder de resistência do dinheiro, o peso que pode suportar; e deve apoiar o outro peso em
 
bases 
psicológicas e espirituais, que possam suportar sua parte. Cada coisa em seu lugar. Também o sal, na 
comida, é muito útil, mas se passa da medida exata, a estraga. O fogo é indispensável para cozinhar, mas 
se for demasiado, queima tudo. Assim o dinheiro é uma força que precisa ser contida e dirigida pelos 
valores substanciais, que estabelecerão seus limites e seu uso. 
 
É este o segredo para alcançar-se a vitória, sabendo ser inteligentemente utilitários. É tolice desprezar 
o imponderável, porque de fato ele pesa muito. É ingenuidade ignorar o poder das forças do espírito. Não 
estamos moralizando em nome de ideais. Estamos falando de nossa própria vantagem. E aos que 
acreditam nos atalhos não-honestos, esperando chegar primeiro, dizemos que as leis da vida estão cons-
truídas de tal forma que, mesmo que estes consigam momentaneamente surripiar essa vantagem à justiça 
de Deus que tudo rege, mais tarde pagarão caro, e portanto isto não lhes convém, e o negócio deles é 
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péssimo. Vimo-lo no caso narrado no volume anterior. 
 
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