Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
104 pág.

Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


DisciplinaIntrodução à Teologia e História da Teologia91 materiais1.843 seguidores
Pré-visualização50 páginas
comprimento, se forem menores, ou lhes é cortado um pedaço, se forem maiores. 
 
É necessário conhecer as reações da animalidade e levá-las em conta. Ela é uma forma de vida 
inferior, mas é vida; e como tal, pelo mesmo divino princípio da vida, não quer e não pode renunciar a 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 26 
existir. Ao contrario, quanto mais se é involuído, mais se é apegado à vida; isto porque, quanto mais se é 
involuído, e se possui menos, o ser, em sua pobreza, esta mais apegado a sua existência limitada e 
precária. A plenitude da vida esta em Deus, e o ser a conquista subindo para Ele com a evolução, 
enquanto a perde afastando-se de Deus com a involução. Eis porque o ser inferior luta tão 
desesperadamente pela sua vida: porque precisa e quer lutar para sobreviver. 
 
Ora, o Evangelho, negando a animalidade do involuído, aparece a este como uma negação de toda 
vida, dado que este só conhece a sua forma, e acredita morrer se a abandonar. É natural, então, que ele se 
rebele contra um Evangelho que se lhe apresenta em forma negativa, ou seja, como negação e sufocação 
daquela vida. Ele não compreende, nem os divulgadores do Evangelho o fazem compreender que, ao 
contrario, o Evangelho é uma afirmação e uma expansão da vida, e que aceitá-lo não é uma dor de 
renúncia, mas uma alegria de conquista. Mas como pode a natureza humana deixar de inverter tudo na 
terra? Assim, o Evangelho foi apresentado mais como uma lei dura, carregada de sanções, com as quais se 
agride a vida para mutilar sua expansão, do que como uma arte sabia para alcançar uma vida cada vez 
maior. Mas, dado o ambiente humano em que o Evangelho caiu, como poderia ocorrer diversamente? Só 
os santos e as almas grandes souberam escapar desse erro, mas eles são muito poucos para arrastar a 
massa humana. 
 
Se o involuído resiste ao evoluído, se se revolta contra a psicologia evangélica do santo, é porque 
defende seu tipo biológico no qual vê a própria conservação. Ele sente, por instinto, que o outro tipo quer 
substituí-lo na vida, tomando-lhe o lugar. Sem dúvida, o direito à vida cabe ao novo, mas isto não impede 
que o velho resista para não morrer. Eles são rivais no mesmo terreno da vida, e por isso se combatem. Se 
o involuído é o tipo do passado, e por isso se sente com maior direito de continuar a viver, o evoluído é o 
tipo do futuro, e por isso se sente com direito ainda maior de apoderar-se da vida. O involuído 
experimenta imenso ciúme dele, porque sabe que amanhã, tomará o seu lugar. E não compreende que será 
ele mesmo que ressuscitará de uma forma velha, numa nova. Não compreende que o exemplo dos 
evoluídos é um convite à conquista de uma vida maior, que será apenas a continuação de sua própria vida. 
 
Entretanto, entre os dois, o mais forte é o elemento jovem, que a vida defende porque a ele confia a 
continuação, de seu caminho. As velhas células resistem. Mas logo que se forma uma célula de tipo 
superior, mais avançado, ela procura consolidar-se como tipo biológico e tornar-se centro de atração das 
outras células do mesmo tipo que se vão formando. Estas, por sua vez, se sentem atraídas e se arruinam 
em redor daquela primeira célula, até que possa firmar-se e fixar-se a vida num plano evolutivo mais alto, 
na forma do novo biótipo do evoluído. E assim que, por lentas maturações, consegue fixar-se na terra o 
Evangelho. Hoje ainda estamos na fase dos raros exemplares esporádicos do novo tipo em formação. Mas 
esses exemplares, com o tempo, deverão tornar-se cada vez mais freqüentes, mais normais, até que, 
seguindo as pegadas do Evangelho, toda a humanidade terá de passar a viver num plano mas alto de 
evolução, que já não mais será o atual da animalidade,
 
mas o da espiritualidade. Isto poderá parecer 
fantasia. Mas não há como contestar que a evolução é fenômeno inegável, reconhecido por todos. já agora 
não mais se pode admitir que a evolução continue sendo compreendida como desenvolvimento de órgãos,
 
como o queriam Darwin e Haeckel,
 
mas como desenvolvimento nervoso, psíquico e espiritual. 
 
Assim se realiza a evolução através desse contraste de forças. Os obstáculos que os involuídos 
costumam colocar para fechar o caminho aos pioneiros do ideal são bem conhecidos. Desde o caso de 
Cristo até todos os outros menores,
 
a história esta cheia deles. É uma história de mártires. Se o Sistema 
atrai para o Alto, o Anti-Sistema, por sua vez, possui uma atração sua para baixo. A evolução caminha 
deste para aquele. Em períodos de descida pode haver o desenvolvimento semelhante ao do câncer, em 
sentido involutivo. Atividade retrógrada, destrutiva. Enquanto o evoluído tende a desenvolver-se 
Evolução e Evangelho Pietro Ubaldi 
 
 27 
ordenadamente, em sentido orgânico, construtivo, o involuído só sabe fazer o contrário. Cada um, já o 
dissemos, não pode deixar de revelar em tudo, a si mesmo. O involuído só saberá agir como involuído, 
porque, se agisse diversamente, já o não seria mais, e sim um evoluído. Até as células inferiores, 
involutivas; atraem para a própria órbita os elementos a elas semelhantes. Mas, enquanto, no caso do 
evoluído, se forma a fraternidade pacífica e construtiva, tendente à unidade orgânica, no caso do 
involuído forma-se o bando de malfeitores; para guerrear quem quer que seja, e por fim, para guerrear-se 
entre si, porque a finalidade é destruir e separar, unicamente pela vitória do próprio egoísmo individual. 
 
* * * 
 
Não devemos esconder a realidade e ignorar as dificuldades que encontra na terra a aplicação do 
Evangelho. O passado animal esta muito próximo ainda, para que não se ressinta toda sua tremenda 
influência. Transformar o próprio tipo e forma mental, transportar-se para viver num plano biológico mais 
alto, representa um trabalho profundo que não pode improvisar-se. Sem dúvida, o Evangelho quer ensinar 
ao homem coisas nobres e grandes para o futuro. Mas podemos perguntar a esse homem: que lhe ensinou 
o passado? As virtudes da prepotência e do egoísmo, ou as da mentira, principalmente. As tão declamadas 
civilizações da história só puderam aplicar ligeiros vernizes por cima da originária ferocidade dos 
animais. E no trabalho de educá-los, voltamos sempre ao início, porque educá-los significa refazê-los 
totalmente. 
 
Teremos já
 
pensado de quantas dezenas ou centenas de milênios são fruto os instintos atuais? E 
houve mister adquiri-los para sobreviver, porque só vivia quem os possuísse. Eles constituem o nosso 
sangue, fazem parte de nossa carne. A luta pela vida pode ter selecionado o mais forte, mas, em redor do 
vencedor quantas ruínas, contorções, revoltas,
 
naqueles que tiveram de adaptar-se a viver como vencidos! 
Todas as prepotências que os fracos tiveram de engolir à força, estão prontas a regurgitar à procura de 
uma desforra que lhes dê satisfação. Todas as experiências vividas permanecem escritas em nossa carne e 
reclamam compensação. Os delinqüentes natos são tais porque querem ser maus, ou porque se tornaram 
assim pela reação ao esmagamento dos fortes? A humanidade viveu até agora de delitos. E isto não pode 
cancelar-se com um golpe. Cada causa deve ter o seu efeito. 
 
Então, quando o Evangelho se nos apresenta inerme e acariciador, que podem fazer esses seres, 
carregados de revolta que se acumularam em séculos de opressão? Explicam-se assim, mesmo que não se 
justifiquem, os extermínios da revolução francesa e a revolta de tantas revoluções E o mundo continua a 
cometer injustiças, julgando que lhe baste a força para fazer calar e anular as reações. E, no momento 
parece que isto seja a verdade. Mas o fogo viceja sob as cinzas. E no entanto formam-se