Pietro Ubaldi   Evolução e Evangelho
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Pietro Ubaldi Evolução e Evangelho


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rancores 
profundos, ódios seculares de nações, de raças, de classes sociais, ódios que permanecem escondidos nas 
vísceras da vida, tal como um homem pode trazer, imersa nas profundidades de sua carne, uma série de 
vírus, durante anos, até que um dia, tanto a doença quanto a vingança da revolta,
 
explodem, e tudo vem à 
luz. 
 
O Evangelho não desce para trabalhar num terreno virgem, mas num já poluído por mil delitos. É 
necessário enfrentar um trabalho imenso, porque se trata de corrigir, de reeducar de novo, reedificar o que 
esta mal construído. É preciso desentrançar esta carga de explosivos que quer estourar, e ter a força de 
engolir esse triste passado, neutralizando tanto mal com outro tanto bem, que é indispensável cada um 
possuir em si para podê-lo expandir em torno de si. 
 
A justiça do mundo atual se apoia em compromissos, em que os impulsos contrários encontraram um 
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equilíbrio temporário, cada um permanecendo sempre pronto a explodir contra o outro, tão logo a pressão 
deste se relaxe Isto em todas as posições sociais em que haja alguém que mande e alguém que deva 
obedecer-lhe. Como pode o Evangelho enxertar-se de um golpe nesse sistema de forças, para desviá-lo, a 
curto prazo,
 
de suas primeiras aproximações da justiça até um nível em que esta é definitiva e completa? 
Quando, no estado atual, o Evangelho intervém entre um patrão armado de força e um dependente armado 
de revolta, ensinando que a ambos convém muito mais colaborar pela compreensão, logo acontece que 
uma das partes relaxa a pressão contra a parte oposta, esta lhe salta ao pescoço para apoderar-se de todo o 
campo que antes, só o equilíbrio entre as duas prepotências opostas mantinha dividido, cabendo um 
bocado a cada parte. 
 
É esse estado armado de todos contra todos, que paralisa logo de início quem se dispõe a querer 
viver o Evangelho na terra, a menos que se tenha o estofo de um herói, ou então que o seu ato não seja 
isolado, mas acompanhado, de tal forma que se possa encontrar algum sustento pela reciprocidade da 
bondade do próximo. Quem quisesse, sozinho, no mundo de hoje, contra todos, viver integralmente o 
Evangelho, só poderia ser um mártir. Mas precisamos também admitir que só esse pode considerar-se um 
verdadeiro civilizado. Todavia aos que não souberem chegar a tanto, só resta continuar a esmagar-se uns 
aos outros, cada um por sua vez, e a sofrer as reações vingativas dos outros, até que, à 
 
força de atritos, se 
aparem todas as arestas e se chegue a descobrir a fórmula da convivência. Assim, com um esforço muito 
mais diluído, longo e lento, o homem acabara da mesma forma por chegar à aplicação do Evangelho. 
 
O sofrimento de tanto atrito, que quase chega a paralisar a vida social, só poderia ser poupado com 
um pouco de inteligência. Mas é justamente esta que falta, e tanto trabalho se emprega, no entanto, para 
adquiri-la Queira-se ou não, é mister que a obra da civilização seja feita por todos, cada um colaborando 
com a parte que lhe compete. Por mais que se queira ser separatista, e portanto permanecer fechado no 
próprio egoísmo, a vida é fenômeno coletivo em que a reciprocidade nas relações funciona em cheio. 
Ninguém quer ser o primeiro a fazer o esforço, e espera isto da virtude alheia; e os outros fazem o mesmo. 
Ficam assim todos imersos no mesmo pântano. Que batalha poderá vencer um exército, em que cada 
soldado só quer, mandar, conservando-se à frente dos outros? Assim, entre os elementos componentes da 
mesma máquina, forma-se um atrito que a para, ou fá-la funcionar mal e com esforço. E o mal que cada 
um queria lançar sobre o vizinho, continua para cada um e para todos, como de cada um e de todos é a 
culpa. Mais veneno lançaremos na panela comum, e mais devemos bebê-lo nós mesmos. Assim avançam 
com grande fadiga os nossos destinos dentro desta mal construída maquina social, cada um sofrendo a sua 
parte. E os que se acreditam mais fortes e astutos procuram escapar firmando-se no egoísmo e lutando 
para ganhar espaço à custa do vizinho, sem compreender que este é um soldado do mesmo exército, com 
o qual é seu interesse colaborar para vencer. E assim os mais fortes e astutos põem-se a frente de um 
ataque às avessas, em direção a um abismo, procurando arrastar a todos com eles. 
 
Eis ai o mundo que o Evangelho tem de enfrentar para realizar-se. Como pode uma Boa Nova de paz 
arrasar de um golpe montanhas de veneno, acumuladas durante os séculos? Embora seja proibido o crime, 
o gosto tão difundido pelos dramas criminais demonstra como é grande o desejo de morder, de matar, de 
destruir, que se acha aninhado no fundo da alma humana. O passado não está absolutamente morto e se 
encontra sempre pronto a vir à tona. Todos, mais ou menos, trocaram entre si, no passado, um pouco 
dessa mercadoria de que o mundo está cheio e que se chama o mal. Todos estamos mais ou menos presos 
numa rede de débitos e créditos recíprocos. Todos cometemos alguma injustiça, sendo culpados contra o 
próximo, e recebemos algum prejuízo. Para chegar ao Evangelho é mister acertar o saldo de todas essas 
contas, pagar todos os débitos e créditos, o que significa paixão cruenta e crucificação desta natureza 
humana, ainda feita de animalidade. Cristo quis ser o primeiro nessa estrada de paixão e crucificação, 
embora nada tivesse de pagar, mas apenas para dar-nos o exemplo. Quem o quer seguir neste caminho de 
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redenção, que é o único? A humanidade esta verdadeiramente onerada por uma carga de iniqüidade que 
lhe paralisa a subida, mas que precisa ser anulada de qualquer forma, seguindo a estrada oposta, 
substituindo a guerra pela paz, o ódio pelo amor, pois não há outro meio de anular o passado e dele 
libertar-se Ele nos perseguira e esmagará,
 
enquanto não o soubermos vencer. 
 
São ridículos os sonhos do homem evangélico? Não constitui ingenuidade ser sincero e honesto? Os 
homens práticos e astutos não têm direito de rir-se de tudo isso? Então,
 
deixemos que o mundo nos 
prepare o suicídio com a corrida armamentista, deixemos que a vida, que se tornou um desencadeamento 
de rapacidade e uma babel de mentiras, se torne insuportável a todos, até ficarmos submersos em nosso 
próprio veneno. O Evangelho é utopia? Então seja liquidado o homem bom e justo,
 
lançado fora da vida 
como um ser inútil que não tem direito de viver, seja isolado para que não contagie os outros, os sábios, 
com a sua doença. Não há lei nem costume que diga isto explicitamente, mas tudo isto está implícito e 
subentendido nas leis e costumes. Continuemos com esta seleção em descida, com essa evolução às 
avessas, com essa inversão de valores. Quem caminha de cabeça para baixo somos nós, e no fundo do 
abismo está a rocha dura das leis de Deus, e contra essa rocha rebentara nossa cabeça. Então, não 
permanecerão na terra traços do homem evangélico que conseguiu evoluir, pois esse biótipo pertencerá a 
uma raça desaparecida, e com ele terminará toda a tentativa, por parte do homem, de civilizar-se, e o 
homem terá recaído no fundo da barbárie. A presente tentativa de levar a sério o Evangelho é um apelo 
desesperado para a salvação do mundo. 
 
O homem é livre e Deus lhe deixa a liberdade de retroceder. Mas o homem não compreende, que, re-
trocedendo, se afasta de Deus, ou seja, da vida, e caminha para a própria destruição. Este é o maior 
prejuízo, e com isto os negadores rebeldes se autocastigam. Com a involução, cada vez mais se acentua o 
espírito de domínio e de agressão. Não há necessidade alguma de intervenção divina direta, nem que as 
forças do Evangelho lhes